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Como o Nirvana iniciou uma mudança cultural em 'Nevermind'

Segundo álbum da banda de Seattle foi tão bem-sucedido a ponto de alavancar uma redefinição de padrões estéticos em múltiplas indústrias

24 set 2026 - 07h58
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Resumo
Lançado em 1991, o álbum "Nevermind", do Nirvana, transformou o rock e a cultura pop mundial ao superar 30 milhões de cópias vendidas e desbancar Michael Jackson nas paradas. Impulsionado pelo clássico "Smells Like Teen Spirit", o disco levou a cena grunge de Seattle e sua estética para o mainstream, abrindo portas a diversas bandas alternativas. Apesar de consagrar o grupo e influenciar gerações, o estrelato estrondoso incomodou profundamente o vocalista Kurt Cobain até o fim de sua vida.

O Nirvana, até 1991 um grupo alternativo sem muita projeção fora de certas partes cool dos Estados Unidos, se tornou gigantesco em Nevermind (1991). Chegou ao ponto de, fundamentalmente, mudar a face do rock para sempre.

Kurt Cobain, do Nirvana, em 1991
Kurt Cobain, do Nirvana, em 1991
Foto: Michel Linssen / Redferns via Getty Images / Rolling Stone Brasil

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Não parou aí. Até hoje, o impacto do grupo composto por Kurt Cobain (voz e guitarra), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria) é sentido no fato de que: suas músicas figuram no currículo básico do aprendizado de guitarra. Todo mundo e a mãe sabe tocar o riff de "Come As You Are", porque serve como excelente exercício introdutório aos pormenores de técnica e construção harmônica.

Muito se fala de bandas que servem como ponto de entrada para um gênero específico, porém o Nirvana transcende até esse patamar. Pessoas se apaixonam por música em geral graças a Nevermind.

Uma pena que Kurt Cobain morreu odiando o álbum com todas as forças do seu ser. Justamente por causa desse impacto.

História do Nirvana até 'Nevermind'

Em 1990, o Nirvana estava numa situação delicada. A banda estava finalmente fazendo turnês mais amplas nos Estados Unidos e até pela Europa, mas sua gravadora, Sub Pop Records, se via à beira da falência.

O selo independente foi responsável por internacionalizar a cena de Seattle, dando a vários grupos do Noroeste do Pacífico suas estreias. Entretanto, a insistência em tiragens limitadas para transformar singles e álbuns em itens colecionáveis veio a irritar os artistas, porque eles precisavam pagar as contas e comer.

Entre esses insatisfeitos estava o Nirvana. Formado na época por Kurt Cobain (voz, guitarra), Krist Novoselic (baixo), Jason Everman (guitarra) e Chad Channing (bateria), o grupo chamou atenção no underground por conta de seu álbum de estreia, Bleach (1989), uma coleção de petardos punk e metal estilo Black Sabbath, com covers de clássicos de garage rock e até uma canção pop no meio, "About a Girl". Everman está na capa do disco, mas não toca nele.

Agora que tinha planos para um segundo álbum, a banda estava reavaliando algumas coisas. Eles foram para Wisconsin trabalhar com o produtor Butch Vig, sob indicação da Sub Pop. As sessões foram extremamente produtivas, rendendo cinco músicas que seriam incluídas em Nevermind, incluindo "Polly", "In Bloom" e "Lithium". Channing foi demitido e Dave Grohl assumiu as baquetas. O grupo estava agora na sua forma final.

Bootlegs dessas gravações começaram a fazer as rondas pela indústria e interesse de grandes gravadoras apareceu. Em específico da Geffen Records, que tinha uma carta na manga. Mais ou menos na mesma época, o Sonic Youth assinou com a subsidiária DGC numa função híbrida. A banda era artista e chamariz para outros artistas independentes considerarem o selo. Os integrantes do grupo eram amigos e admiradores do Nirvana, então fizeram a ponte. Em 30 de abril de 1991, o contrato foi assinado.

Os trabalhos de Nevermind começaram em maio com Butch Vig em Los Angeles, preterindo produtores mais famosos. Entre as sessões de Wisconsin e a gravação oficial, a banda desenvolveu novas músicas, incluindo uma canção que teve sua estreia ao vivo dias antes: "Smells Like Teen Spirit". Em entrevista à Rolling Stone, Kurt discutiu o processo de compor a faixa:

"Eu estava tentando criar a música pop definitiva. Eu basicamente estava tentando copiar o Pixies. Tenho que admitir. Quando ouvi o Pixies pela primeira vez, me conectei tanto com aquela banda que eu deveria ter feito parte dela. Usamos o senso deles de dinâmica, sendo suaves e quietos e depois altos e pesados. […] 'Teen Spirit' tinha um riff tão clichê. Quando criei a parte da guitarra, Krist olhou para mim e disse: 'Isso é tão ridículo'."

As gravações correram sem muito incidente, mas a pós-produção foi outra história. Banda e produtor ficaram insatisfeitos com as mixagens e a gravadora sugeriu alguns nomes famosos para se encarregar da tarefa. Kurt Cobain decidiu, porém, por Andy Wallace, mais conhecido por seu trabalho em álbuns do Slayer.

A mixagem entregue por Wallace era muito mais enxuta e polida que as anteriores. Mas era potente. Segundo ele e Butch Vig, a banda ficou muito satisfeita com o resultado. Isso mudou após se tornar inescapável.

A importância do álbum 'Nevermind'

A primeira coisa a se afirmar quando se fala de Nevermind é que merece o seu status na cultura pop. O álbum tem uma qualidade inegável em termos de composição, melodia e produção. A letra de "Smells Like Teen Spirit" é uma colagem vaga, porém vívida, de imagens de uma juventude alienada. Funciona graças ao conjunto da obra. Parece a coisa mais eloquente do mundo porque a catarse contida na música torna as palavras reveladoras.

Enquanto isso, "Lithium" pinta um retrato mais claro de solidão e problemas de saúde mental, se beneficiando ainda mais da euforia do refrão. "In Bloom" também faz uso do recurso sonoro dinâmico, mas sua letra tira sarro abertamente de fãs descerebrados do Nirvana que são incapazes de compreender a mensagem das letras. Esses se tornaram legião após o sucesso de Nevermind, para desespero de Cobain

Entretanto, "Come As You Are" talvez seja a mais importante por mostrar a capacidade do Nirvana de operar como gênio pop sem copiar Pixies. Kurt Cobain transforma o riff principal da música "Eighties", da banda pós-punk britânica Killing Joke, em algo mais lento e sinistro, numa canção que não permite ao ouvinte um alívio da tensão. Poderia dar errado, mas funciona perfeitamente porque destoa tanto do resto do álbum.

Fora dos singles, as duas faixas mais marcantes de Nevermind são as mais quietas. Em meio às porradas, "Polly" e "Something in the Way" provocam inquietação no ouvinte por tratar de temas pesados com arranjos quietos. A primeira lida com um caso de sequestro, estupro e tortura cometido contra uma garota de 14 anos em Tacoma, Washington, em 1987. Só que Cobain canta do ponto de vista do culpado pelo crime enquanto o comete, ressaltando a desumanização da vítima nessa situação.

"Something in the Way" serve como um pedaço de automitologia por parte de Kurt Cobain. Reza a lenda que o músico passou um período morando embaixo de uma ponte na sua cidade natal de Aberdeen, Washington, após fugir de casa. Entretanto, essa história foi refutada por Novoselic e a irmã do músico. Talvez as imagens de uma vida sem teto na letra foram potentes o suficiente para o público acreditar na lorota.

Legado de 'Nevermind'

Dizer que a ascensão do Nirvana foi meteórica é pouco. A expectativa da Geffen era vender, no melhor dos casos, 250 mil cópias de Nevermind. Na verdade, o álbum chegou ao primeiro lugar nas paradas americanas em janeiro de 1992, menos de três meses após o lançamento, tirando o disco mais recente de Michael Jackson, Dangerous (1991), do topo. Acabou com mais de 30 milhões de cópias comercializadas pelo mundo. Marcou o encerramento oficial da estética exagerada e colorida da década de 1980 e a chegada de uma nova era.

Tudo isso graças ao sucesso desenfreado de "Smells Like Teen Spirit", cujo clipe se tornou um dos mais populares da história da MTV. O que era para ser uma turnê de uma banda alternativa precisou ser escalado para níveis muito maiores com urgência.

O sucesso do Nirvana foi tamanho a ponto de fazer a indústria não buscar apenas artistas da mesma cena para assinar. Qualquer banda da cidade de Seattle ou das áreas em volta atraiu interesse de gravadoras major. Se um grupo fosse sequer mencionado por Kurt Cobain como algo que ele gostava, não importa o quão experimental e anticomercial fosse, aparecia um grande selo para oferecer um contrato.

Nisso, artistas como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains se tornaram pares do Nirvana na construção de uma identidade conhecida como grunge. O impacto dessa cena se alastrou além da música. A combinação de jeans com camisas de flanela usada pelas bandas devido ao clima chuvoso de Seattle se tornou foco da indústria da moda, com estilistas como Marc Jacobs construindo coleções inspiradas no estilo funcional do Noroeste do Pacífico.

Kurt Cobain odiou tudo isso. Sentia-se um vendido e tentava sabotar o sucesso da banda enquanto queria resgatar o que via como credibilidade underground. Ele não parecia entender a importância do seu papel. Duas décadas de artistas alternativos falavam sobre a possibilidade de um mainstream melhor se apenas as gravadoras assinassem bandas melhores.

Por causa de Nevermind, esse cenário se materializou, mas a fama e o escrutínio tornaram impossível para Kurt dar um passo para trás e se tocar disso no auge do sucesso do disco. Infelizmente, ele não teve a oportunidade de fazer isso depois, porque apenas três anos depois cometeu suicídio.

Quanto aos dois sobreviventes do Nirvana, o impacto de Nevermind ainda não parece real. Em entrevista de 2002 à Rolling Stone (via Classic Rock), o jornalista David Fricke perguntou a Dave Grohl se ele identificava o impacto do álbum na música daquela época. O baterista preferiu mostrar humildade e brincar que se sente velho quando alguém cita a banda como influência:

"Isso seria egocentrismo demais. Tenho orgulho de ter feito parte daquela banda, de ter tido a oportunidade de significar tanto para tantas pessoas. Quando o Foo Fighters toca em shows, a garotada se aproxima - garotada de bandas novas que são enormes, que têm 22 anos, a mesma idade que eu tinha quando fizemos Nevermind - e me dizem que eu fui uma grande influência para eles. E tudo que isso faz é me fazer sentir velho, tipo Neil Young ou algo assim."

Enquanto isso, Krist Novoselic mostrou incredulidade quanto ao sucesso do Nirvana. Para ele, Nevermind era apenas um álbum de rock:

"É difícil acreditar que seja um disco tão revolucionário - para quem está na banda, perto da banda, no mundo. Tem muita potência no disco, mas não era um Sgt. Pepper com orquestras sinfônicas, era apenas um disco de rock'n'roll. Poderia ter saído nos anos 1970 ou 1980. Talvez essa seja parte de seu grande sucesso. Você pode perseguir essa ideia ou aquele conceito, mas isso era simples, com muito sentimento. Essa é a magia. Não havia pretensão."

https://open.spotify.com/intl-pt/album/6okv1avxEgYSdc2JYy6ZEi

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