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'Coisas da Vida': A playlist afetiva de Paulo Miklos

Depois de 40 anos compondo, o ex-Titã lança disco só de interpretações

20 jul 2026 - 08h52
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Fazer playlists é uma das tarefas mais comuns no dia a dia. Você abre seu serviço de streaming, clica em alguns botões e pronto: sua vida em 50 músicas. Faixas avulsas, sem conexão, só sucessos e sons que você escuta no momento. É um jeito moderno de ouvir música: rápido, descartável, sem raiz.

Paulo Miklos (Foto Jorge Daux)
Paulo Miklos (Foto Jorge Daux)
Foto: Rolling Stone Brasil

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Mas Paulo Miklos fazia isso muito antes do Spotify, Apple Music ou Tidal existirem. Em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil, ele conta que na adolescência, "furtava as fitas cassete de estudo do pai para gravar do rádio as músicas de que gostava". Depois, selecionava as preferidas dos discos de casa. Estava criando, sem saber, suas primeiras playlists.

"Hoje é uma coisa muito comum a gente fazer playlists e as músicas são meio avulsas, né?", refletiu. "Mas o que eu me dei conta é que o que eu estava querendo fazer era justamente uma playlist, uma playlist afetiva — as músicas que eu recolhi ao longo da minha vida, das quais eu tenho memória afetiva".

Essas seleções diziam tudo sobre quem ele era — e sobre quem ele é. Agora, depois de uma carreira inteira compondo e liderando os Titãs, depois de ter gravado filmes interpretando Adoniran Barbosa e de ter vários sucessos no portfólio, Miklos finalmente lança Coisas da Vida, seu primeiro disco totalmente dedicado a uma função só: intérprete.

Nele, Rita Lee e Criolo dividem o mesmo espaço. Adoniran Barbosa conversa com As Meninas (sim, as do axé dos anos 90). Cazuza dá a mão a Sérgio Sampaio. Beto Guedes toma café com Walter Franco. É como se Miklos tivesse pegado anos de música brasileira e jogado tudo dentro do mesmo quarto, fechado a porta e gritado: "Vocês vão conversar e vão se amar, porque todas pertencem à minha história". E elas conversam. Porque cada uma é um capítulo de uma vida que, aos 25, achava que era uma coisa e, aos 55, descobriu que era outra completamente.

"Deixa eu te contar sobre o meu novo disco. Quero compartilhar com você uma playlist afetiva!", escreveu no manifesto que acompanha o lançamento. E é exatamente isso — afetivo no sentido mais visceral da palavra. Coisas da Vida não é um exercício intelectual de "vou gravar versões impecáveis de clássicos". É um arquivo pessoal aberto ao público. "Uma seleção de canções que eu reuni ao longo da minha história. Cada uma delas está ligada a uma memória, a uma história, a um momento marcante".

https://www.youtube.com/watch?v=c13PsFwNs1U&pp=0gcJCZQLAYcqIYzv

Há música de primeiro amor — aquela que Beto Guedes tocava quando ele estava num show no Guarujá com "minha namoradinha, ainda na escola". Há a canção que aprendeu no violão: "Quero Voltar pra Bahia", de Paulo Diniz. E há o encontro casual com Chitãozinho e Xororó, quando experimentou o chapéu do Chitão nos camarins e ganhou uma frase que não sai mais da boca deles: "Depois de colocar aquele chapéu, você nunca mais foi o mesmo".

Mas há também ressurreição. Pura ressurreição. Em 2024, Miklos teve um problema de saúde grave: foi internado, intubado, entrou em coma induzido. Acordou. E a primeira coisa que saiu da boca, sem controle, quase por acidente, foi "Xibom Bombom" — o hit de axé do grupo As Meninas, de 1999. Uma música que não tinha nada a ver com o universo esperado de um ex-Titã — e tinha tudo a ver com estar vivo. A filha achou que ele balbuciava sem sentido, até que, no sábado seguinte, o Altas Horas foi ao ar e todo mundo reconheceu a canção. "Bem tratado, fui desentubado e voltei meio grogue cantando essa música!".

A decisão de fazer um disco só de interpretações veio acompanhada de uma liberdade que poucos artistas se permitem nessa idade. Sobretudo alguém que passou a vida inteira sendo reconhecido como compositor. Nos Titãs, "meus companheiros por vezes compunham músicas e pediam para eu cantar". Era natural — ele tinha voz de intérprete. Mas agora, finalmente, a voz é tudo o que importa. Não precisa de uma frase de abertura brilhante nem de um verso memorável que prove originalidade. Precisa só de estar ali, corpo e alma, diante de uma canção que não é sua, e dizer: esta canção também é minha, agora, porque escolho senti-la assim.

São 11 faixas. Adoniran Barbosa em versão de câmara — "Saudosa Maloca" — porque Miklos passou anos mergulhando naquele universo, filmando curtas e longas sobre ele e aprendendo a falar "adoniranês" fluentemente. Está Criolo com "Não Existe Amor em SP", que fala de tensão e desespero, de uma São Paulo sinônimo de luta e morte lenta. Está Cazuza com "O Tempo Não Para", canção que fecha o disco como um grito de esperança num corpo que continua envelhecendo, seguindo, resistindo. E está Rita Lee lá no começo, porque "com a Rita Lee eu estive o mais próximo de ser um verdadeiro fã". Adolescente, ele assistia aos shows em São Paulo. Tinha um pôster dela na porta do armário. Agora a canta com orquestração monumental de Otávio de Moraes.

https://www.youtube.com/watch?v=VafK8n7MBaY

É isso que Coisas da Vida oferece: uma orquestração que não diminui a canção, eleva. Cada faixa ganha cordas, sopros, uma dramaticidade única. "Essa é a magia do intérprete, né? Criar um universo próprio para a canção", refletiu. "Com esse trabalho, acho que consegui isso. Eu me entreguei ao interpretar essas músicas com toda essa carga emotiva, tão preciosa". Aquele menino que "furtava as fitas cassetes de estudo do pai" para gravar as músicas que amava nunca parou de fazer playlists. Só que agora, 40 anos depois, elas têm nome. Têm data de lançamento. Têm orquestração sinfônica. Porque descobriu que aquilo que sempre fez — coletar, selecionar, compartilhar — era sagrado.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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