Clau revela à Rolling Stone Brasil, um novo lado em 'Acho que sou romântica', seu álbum de estreia
"Eu posso, em um momento, ser uma manteiga derretida; mas, da rua para fora, eu coloco essa capa de durona e vamos embora"
Depois de dez anos de carreira, Clau finalmente lança seu primeiro álbum. Acho que sou romântica chegou às plataformas no começo do mês e marca um divisor de águas em sua trajetória — não apenas pela dimensão do projeto, mas pela profundidade emocional que ele carrega. Para uma artista que começou postando versões no YouTube "pré-histórico" e se consolidou com sucessos como "Pouca Pausa" e "Cigana", este é o momento de mostrar quem existe por trás da persona construída para o mundo.
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Em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil, a cantora contou que o disco mergulha na própria dualidade:
"Eu posso, em um momento, ser uma manteiga derretida. Eu amo assistir a filmes de romance, eu choro — choro ouvindo música. Mas eu choro escondida, no meu cantinho, no meu quarto. Da rua para fora, eu visto essa capa de durona e vamos embora."
É nessa tensão, nessa contradição, entre a mulher sensível que vive nos filmes e a artista "durona" que o público conhece, que o projeto encontra sua força.
Mas a espera foi longa. Clau já tinha um álbum finalizado em 2020, mas a vida — e a "burocracia" — intervieram. Trocar de equipe, sair de escritórios, resolver questões administrativas: tudo aquilo que ninguém vê, mas que afasta artistas de seus sonhos. "Coisas da vida, né? Esse álbum já era para ter acontecido várias vezes, na verdade", reflete. Depois vieram novos adiamentos, novos obstáculos. Agora, enfim, o momento chegou, e do jeito que ela queria: com calma, com cuidado, sem pressa por números ou paradas musicais.
"Nem tô pensando em indústria, em números, em charts, em paradas musicais. Eu não tava pensando em nada… não tô pensando em nada; inclusive, tô bem tranquilona em relação a isso."
O peso de um primeiro álbum é real — ou, pelo menos, deveria ser. Mas Clau encontrou uma maneira de lidar com isso: soltando o controle. A pressão que poderia paralisar se transformou em liberdade. "Pelo fato de ter demorado tanto, eu fui ficando um pouco mais desencanada… tipo: 'ah, eu só quero lançar logo'." E esse desapego, paradoxalmente, é o que torna o trabalho tão potente.
Clau conta que o projeto não nasceu como um álbum tradicional. Estava sempre no estúdio, compondo sem parar, até perceber que, em algum momento, tudo finalmente se encaixava. Então reuniu canções que dialogavam entre si, que se conectavam por sentimento e tema. São 14 faixas, 11 inéditas, mas, mais do que a quantidade, o que importa é a coesão emocional:
"Fui fazendo música e aí, em certo momento, eu pensei: Acho que agora tá tudo certo... aquelas questões que tinham que ser resolvidas foram resolvidas, e agora eu tô livre para lançar meu álbum", conta.
Acho que sou romântica fala de romantizar a vida, de enxergar beleza em tudo — inclusive nas dificuldades. "Existe essa versão romântica que, acima de tudo, romantiza a vida, acredita nas pessoas e vê beleza em tudo", explica Clau. Isso atravessa as faixas: de "Você Sem Mim" (composição de Criolo, que ela descreve como um presente inesperado) a "Mundo da Lua", que fala da menina que vivia no mundo da lua na escola e cujo "defeito" era não conseguir manter os pés no chão. Para Clau, porém, era justamente ali que a criatividade e a vida aconteciam.
Sonoramente, Acho que sou romântica é versátil sem perder identidade. Passeia pelo pop e pelo R&B (sua assinatura), mas também incorpora reggaeton, reggae, rap, funk e baladas românticas. "Eu sou uma artista que gosta de tudo. Eu sou muito eclética; gosto de ouvir, gosto de cantar." E, acima de tudo, em cada som há a marca de Clau. "Sempre vai ter aquele fundinho de R&B, pelo próprio jeito que eu canto, pelo que eu trago também na minha identidade musical." As influências latinas vieram de um rolê de salsa que ela frequenta em São Paulo; o reggaeton veio de viver, experimentar e se manter aberta ao mundo.
As colaborações reforçam essa ideia: Criolo, Rael, Vulgo FK, Dudu MC, DAY LIMNS e King Saints. Nada é aleatório; todos são pessoas com quem Clau convive, admira e em quem acredita.
"Para entrar no meu disco, em primeiro lugar, tem que ser uma galera legal, né? Eu realmente valorizo poder fazer isso da minha vida; então, eu quero que as melhores energias e as melhores pessoas estejam envolvidas nisso comigo, para fazer algo tão especial, né?"
Cada participação traz uma perspectiva diferente, mas tudo conversa, tudo faz parte de uma mesma história.
Aos 18 anos, Clau cantava escondida no quarto, sem que seus pais soubessem que ela postava para a internet. Hoje, ela finalmente se permite mostrar o que guardava. "Eu tô aprendendo a baixar um pouquinho a guarda e mostrar que eu posso ser acessível e me entregar." Acho que sou romântica é exatamente isso: uma artista derrubando os muros erguidos para se proteger e compartilhando contradições, inseguranças e sonhos.
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