Carta de despedida de Lô Borges, ao vivo de Gilberto Gil e outros novos álbuns da música brasileira
'Estadão' selecionou sete lançamentos recentes que valem o play nas plataformas digitais
De novos e bons álbuns, o streaming está cheio. O que se precisa é garimpar ou torcer para que o algoritmo traga algo que se encaixe no gosto ou que surpreenda o usuário. Para este começo de julho, o Estadão selecionou sete lançamentos recentes da produção nacional.
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A lista vai desde a mistura explosiva de gêneros do BaianaSystem, passa pelo primeiro volume do álbum que registra a turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil, e chega ao classudo disco que une o jazz suingado do cantor francês Henri Salvador à bossa de Marcos Valle, que convida nomes como Simone, Zé Ibarra e Zélia Duncan para a homenagem franco-brasileira.
João Bosco, com big band, comemora 80 anos com disco de pegada jazzística. Em álbum póstumo, Lô Borges (1952-2025) mostra que já estava pensando em depois do fim. E ainda tem o primeiro registro da inventiva Sinfonia em Quadrinhos, de Hermeto Pascoal.
Tempo Rei, Vol. 1 (Ao Vivo) - Gilberto Gil
A primeira parte do álbum com o registro da bem-sucedida turnê de despedida de Gilberto Gil dos grandes shows traz oito canções — na ordem do setlist apresentado —, gravadas em diferentes praças por onde passou. O mais valioso do lançamento é que as faixas, entre elas Palco, Tempo Rei, Eu Só Quero Um Xodó e Domingo no Parque, captam a emoção e a qualidade sonora com que a turnê foi apresentada para o público. Um trabalho primoroso de masterização do material captado. O restante do show virá em outros três volumes que vão compor um box. A bola fora será excluir os registros das inúmeras participações que a turnê teve, entre elas, de Roberto Carlos, Marisa Monte, Caetano Veloso e Chico Buarque.
A Estrada - Lô Borges
Lô Borges (1952-2025), desde 2019, vinha lançando um disco de inéditas por ano, em uma fecunda produção não tão comum para um compositor que já somava mais de 40 anos de carreira. Uma das mortes mais sentidas da música brasileira dos últimos tempos, Lô deixou um álbum inteiro gravado que recentemente chegou às plataformas. Batizado de A Estrada, o trabalho flagra o compositor mineiro em clima de despedida, como fica claro na canção Última Parada, assinada com seu irmão e parceiro de muitas composições, Márcio Borges. "Completei o prometido / Cumpri a missão / E vou em paz / É a última parada / Hora de descer", diz a letra. A toada sertaneja Chegada, com letra e melodia de Lô, fala de temas que sempre estiveram em seu universo: estrada, sol, planeta e, mais uma vez, um ponto de chegada. Impossível não se emocionar.
Henri Salvador do Brasil - Vários artistas
Produzido e arranjado por Marcos Valle, o álbum faz a ponte entre o suingue do cantor e compositor francês Henri Salvador (1917-2008) e o da bossa com maestria e sofisticação. Surpreende o dueto do roqueiro francês Eddy Mitchell com a brasileira Zélia Duncan em À Cannes cet été, cantando em francês e português. Outro encontro irresistível é o de Valle com a amiga e companheira de geração Joyce Moreno na valsa Rose. Zé Ibarra dá toques modernos para Le Wagon e Dora Morelenbaum desliza suave por Et des mandolines. Simone canta em português uma versão para Jardin d'hiver que cita brasilidades como "fita do Bonfim", e Fred Astaire, presente na letra original, vira Tom Jobim que, dizem, admirava Salvador. Lançado em LP pelas gravadoras Universal Music Group e Barclay, o projeto está disponível também nas plataformas digitais.
O Mundo Dá Voltas Dando Voltas Pelo Mundo - BaianaSystem
O grupo conseguiu melhorar o que já era excelente com a releitura do álbum O Mundo Dá Voltas, lançado em 2025 e premiado no Grammy Latino. A nova versão, como o título revela, agrega ainda mais gente e outras sonoridades a um trabalho que olhava para a música contemporânea mundial, sem nunca cortar, porém, as raízes bem fincadas na música baiana. Praia do Futuro, por exemplo, ganhou o flow da rapper nigeriana Elestee e a batida afrobeat do produtor JVXN. Balacobaco, que já trazia a parceria com Anitta e Alice Carvalho, teve a adesão do beatmaker brasileiro Ruxell. Cobra Criada/Bicho Solto, que conta com a voz de Pitty, agora tem a participação do duo Tropkillaz. De caráter periférico e, até certo ponto, anárquico — qualidades que o grupo acertadamente faz questão de manter —, o trabalho do BaianaSystem é fonte inesgotável de inspiração, sem se render ao apelo excessivamente comercial.
Horda - João Bosco e NDR BigBand
Gravado em julho de 2025 e lançado agora em julho, mês em que João Bosco completa 80 anos, o álbum é o segundo em parceria do músico brasileiro com a orquestra alemã de jazz NDR BigBand. Transversal do Tempo, música lançada por Elis Regina em 1977 e fora do radar dos grandes sucessos de Bosco, tem uma bem-vinda versão jazzística de quase oito minutos — para quem, em 2026, ainda vê na ausência da pressa a beleza da vida. Bosco, que em discos gravados ao vivo tende a repetir o repertório, também avança em outra pérola, Holofotes, parceria dele com Antonio Cicero e Waly Salomão, mais conhecida na gravação de Gal Costa. De fase mais recente, a bossa Sonho Sonhado, parceria de Bosco com o filho, Francisco Bosco, ganha nova gravação. Horda, do disco Abricó-de-macaco, tem uma versão ainda mais exuberante. Um álbum, de fato, para celebrar.
Sinfonia em Quadrinhos - Orquestra Jovem Tom Jobim
Hermeto Universal - Gabriel Grossi e Laurent Coulondre
O multi-instrumentista Hermeto Pascoal (1936-2025), figura central da música instrumental brasileira, teria completado 90 anos no mês de junho. Duas iniciativas celebram o legado do compositor. Lançado em maio, o álbum Sinfonia em Quadrinhos é o primeiro registro em estúdio da obra que Hermeto tirou do coração e da observação de seus filhos brincando em casa. Composta em 1986, a peça tem 31 partes independentes, como se fossem quadrinhos de gibi. A execução é da Orquestra Jovem Tom Jobim, regida pelo maestro Tiago Costa. Já o álbum Hermeto Universal, do gaitista brasileiro Gabriel Grossi e do pianista francês Laurent Coulondre, combina músicas do Bruxo, como Hermeto era chamado, com composições feitas em sua homenagem. Entre as escolhidas, Chorinho Pra Ele e Ginga Carioca.
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