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As ficções especulativas de Sudan Archives

Em The BPM, Sudan Archives transforma violino, música eletrônica e tecnologia em um laboratório de gadgets sobre autonomia, dança e o desejo de conexão

17 set 2026 - 16h18
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Resumo
Prestes a se apresentar no Brasil, a cantora e violinista norte-americana Sudan Archives explora a fusão entre corpo, violino e tecnologia em sua nova turnê "The BPM". No palco, ela incorpora a persona "Gadget Girl", atuando como uma banda solo analógica sem computadores. Nascida de sua relação com a solidão, sua performance aborda o afeto ciborgue, reflete sobre a acessibilidade na música clubber e desconstrói o tradicional rigor erudito com graves potentes e inovação eletrônica.

Há algo de ficção científica em assistir a Sudan Archives ao vivo. Não exatamente porque a artista norte-americana apareça cercada de máquinas, pedais, sintetizadores, baterias eletrônicas e instrumentos amplificados, mas porque, durante cerca de uma hora e meia, ela parece existir em uma zona intermediária, diluindo as fronteiras entre corpo e tecnologia. Em seu palco, o violino aparece menos como um instrumento e mais como uma extensão corporal; os gadgets funcionam como próteses; os loops multiplicam sua presença; e o arco do violino, acompanhado por um efeito sonoro que lembra uma espada sendo desembainhada, transforma um gesto técnico em dramaturgia performática.

Sudan Archives
Sudan Archives
Foto: Yanran Xiong / Rolling Stone Brasil

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Vi sua apresentação em Berlim, no Silent Green, na estreia da turnê de The BPM, poucos dias depois de descobrir seu trabalho. O que eu não esperava encontrar era uma artista capaz de sustentar sozinha uma performance tão complexa e, ao mesmo tempo, tão divertida. Sudan Archives toca, canta, programa, dispara sons, manipula máquinas e dança como se tudo isso fosse uma única linguagem. Existe virtuosismo, mas não existe reverência excessiva à própria técnica. Ela parece brincar com aquilo que sabe fazer — e leva o público ao êxtase enquanto o faz.

Agora, prestes a se apresentar em São Paulo, essa relação entre corpo, tecnologia e música ganha uma dimensão quase literal. Após tantas apresentações usando collants extremamente justos, Sudan Archives chega ao palco com um conjunto de duas peças e, desta vez, quer estar descalça. A escolha, à primeira vista, pode parecer pequena, mas diz muito sobre a lógica de seu trabalho: estar sem sapatos em solo tropical é estabelecer uma conexão física com o chão de um país onde a música emerge dos pés e do movimento. E ela quer levar essa conexão também para o som. Para seus shows no Brasil, a norte-americana pretende realçar "a batida forte e os graves eletrônicos" e colocar em evidência elementos que reconhece como parte de suas "influências inconscientes".

Nascida em Cincinnati, Brittney Parks, conhecida como Sudan Archives, começou a construir sua linguagem musical de maneira autodidata, afastando o violino do lugar de erudição que tradicionalmente lhe foi reservado na música ocidental. Ao longo de sua trajetória, passou a combiná-lo com R&B, hip-hop, eletrônica, música experimental e diferentes tradições de música de cordas. Em Athena (2019), Natural Brown Prom Queen (2022) e, agora, The BPM, cada disco é atravessado por uma nova sonoridade, mas também por uma nova persona — atualizando, à sua maneira, o sistema de reinvenção da música pop bowieana.

É assim que surge Gadget Girl: uma personagem que parece saída de uma ficção científica, mas que, na verdade, nasceu de uma experiência bastante humana — a solidão, o deslocamento e a necessidade de encontrar companhia nas máquinas.

Seu show é incrível. Parece um sonho molhado e musical da escritora Octavia Butler e também de Donna Haraway em seu "Manifesto Ciborgue". A maneira como você se move, os instrumentos que você toca, a ironia das letras, o light design... Tudo é impecável. Você pode me falar sobre Gadget Girl, a persona de "The BPM"?

Sinto que estou sempre criando um alter ego para habitar a cada disco. E escolhi Gadget Girl porque ela era uma espécie de representação do que venho vivendo até agora, nessa idade. Eu sinto que sempre fui meio solitária e talvez, por ter me mudado tanto quando era criança, sempre tive a sensação de que não me encaixava realmente. E acabei gravitando em direção à tecnologia quase como uma forma de confortar um pouco essa sensação de solidão. A maioria das pessoas, quando é mais jovem, consegue entrar para uma banda, e é assim que começa a fazer música. Mas eu nunca senti que me conectava o suficiente com as pessoas para formar uma banda. Então eu era aquela garota que voltava para casa e ficava mexendo em gadgets o tempo todo. E acho que isso veio do meu pai, porque ele também gosta muito de tecnologia. Ele sempre tinha o aparelho mais novo - quando saía um telefone novo, um Razr, um BlackBerry ou algo assim, mas ele sempre tinha os gadgets mais recentes. Na verdade, foi ele quem me deu o primeiro gadget com o qual fiz música: um iPad. E foi assim que comecei a combinar o violino com sons eletrônicos. Desde então, fiquei obcecada por ir a shows de música experimental para ver os riders e gadgets. Eu simplesmente ia a algum bar pequeno e lembro de ver um saxofonista que tocava saxofone, mas também tinha uma backing track, uma bateria eletrônica, e ele fazia tudo sozinho. E acho que isso ressoou muito comigo. Eu queria ser assim. Queria ser essa espécie de banda de uma mulher só. E é daí que vem a Gadget Girl. Me sinto como se eu fosse a Kim Possible, sabe? Uma espécie de personagem que está salvando o mundo com a tecnologia - ela não é exatamente uma super heroína, mas tem todos esses gadgets. Ela não é mágica, não tem super poderes, nem nada disso. É uma pessoa completamente normal, mas é muito boa com tecnologia - e isso faz com que ela pareça mágica. E acho que é isso que Gadget Girl é.

Sei que você tem uma habilidade técnica muito séria, mas o show é muito divertido. Você faz absolutamente tudo sozinha no palco! Deve ser um desafio enorme. Você pode me contar como se sente sobre isso?

Existe muita violência, digamos assim, na cultura do violino e como é utilizado na música erudita. É tudo muito sério. Então acho que faço isso porque não deveria ser tão sério, sabe? Sinto também que estou em fase de crescimento. Eu não sou uma popstar com um orçamento enorme, mas também não estou mais no começo da minha carreira. Estou no midstream. Então, por exemplo, eu costumava sair em turnê com outros artistas. Foi a primeira vez que fiz uma turnê com outras pessoas além de mim mesma. Isso foi durante a era de Natural Brown Prom Queen. E foi muito divertido porque havia um músico que tocava moog. O moog é esse tipo de sintetizador eletrônico. Então acho que isso fazia o show parecer mais vivo, porque havia essa coisa grave, profunda, acontecendo. E, se eu não tivesse um baixista, provavelmente teria um baterista. Se eu pudesse ter apenas uma pessoa me acompanhando em cena, seria provavelmente alguém que tocasse bateria. Mas ele também tinha um SPD-X, então fazia algumas coisas de bateria e também o baixo. E isso era muito divertido. Era bom ter alguém na estrada comigo. Mas, para Gadget Girl, narrativamente, não faria sentido sair em turnê com outra pessoa, porque ela tem essa espécie de obstinação de uma mulher que acha que consegue fazer tudo sozinha. Então você precisa me ver no palco à beira de um ataque, tendo esse diálogo interno comigo mesma. Você não pode ter outra pessoa no palco com você para contar a história de Gadget Girl, porque ela está sozinha nesse mundo tecnológico.

Como você se prepara para um show ou para uma turnê assim? Você tem algum ritual físico ou emocional? O que você faz? Me conta tudo por trás das máquinas.

Claramente é muito estressante. Para me preparar para um show, o principal é preparar os gadgets primeiro. Por exemplo, para os shows no Brasil e na Ásia, eu tive que reduzir a quantidade de gadgets porque não posso levar o piano, as baterias, dois violinos, isso, aquilo, tudo isso. Não consigo transportar tudo. Então precisei simplificar tudo. Vou ter uma bateria eletrônica, um violino, meu headset sem fio e minhas outras coisas sem fio. Isso reduz tudo de dez cases pelican para cinco. Como vou voar praticamente de uma cidade para outra todos os dias, não podemos levar tanto equipamento, porque as coisas podem se perder ou simplesmente há equipamento demais para voar todos os dias. Então, como consolidei o show, também preciso consolidar o rig que segura as faixas. Basicamente, montei um sistema que não tem computador. É tudo analógico. E eu não preciso de um computador para rodar o show, porque estou começando a me irritar com computadores. Mesmo que toda a vibe seja Gadget Girl e tecnologia, eu realmente odeio computadores. Eu realmente odeio performar com computadores. Então encontrei uma maneira de performar sem um computador. E, literalmente, depois desta entrevista, vou passar a próxima hora fazendo upload das faixas para o equipamento. Literalmente vou trabalhar nisso durante a próxima hora.

Estamos vivendo um momento em que a tecnologia é frequentemente apresentada como algo que nos torna menos humanos, de certa forma. Estou falando de algoritmos, IA, automação. Mas, assistindo você no palco, tive a impressão de que pode acontecer justamente o contrário. Quanto mais máquinas você controla, mais singular - e mais humana - a sua presença também se torna. Então você acha que a tecnologia pode ser uma ferramenta de singularidade, ao contrário de padronização?

Sim. Eu consigo administrar todos esses pequenos gadgets e eles se tornam uma extensão de mim mesma. E isso também faz com que as coisas pareçam mais fluidas porque você precisa ter tecnologia para conseguir performar música hoje em dia. Chegamos a um ponto em que as pessoas pagam alguns dólares para assistir a um show. Você não pode simplesmente ir para um gramado e cantar. Você precisa de um microfone. Precisa de um fio. Precisa de instrumentos. Precisa de gadgets. E acho que isso é meio que o padrão. Mas eu simplesmente não gosto dos fios, então tirei isso da equação. Entende o que estou tentando dizer? Acho que isso definitivamente me fez sentir mais empoderada: não ter fios.

Mas você também precisa encontrar o equilíbrio certo, porque a história de Gadget Girl é que ela tem todos esses gadgets sem fio e tudo isso está tornando ela mais poderosa. Mas, em determinado momento, tudo simplesmente entra em colapso e ela não consegue mais lidar com aquilo.

Enquanto músico e artista experimental, eu também estou constantemente criando personas para compreender o meu mundo externo e interno. Durante "GLITCH", meu primeiro álbum, eu fui uma IA que passava a se conectar com humanos até entrar em colapso, e agora, sinto que voltei para a carne, e interpreto um acompanhante masculino hedonista e niilista em "TRABALHADOR NOTURNO". Como as suas personas são criadas? Você tem conversas sobre isso com seu terapeuta? [risos].

Quando faço uma música, nos estágios iniciais, eu não escrevo necessariamente. Eu simplesmente aperto o botão de gravar e começo a gravar letras inacabadas e melodias. E depois de um tempo me analiso de fora. E penso: "O que essa garota está tentando dizer?" E então começo a me inclinar para a persona daquela emoção. Então, quando eu tinha feito umas dez músicas para "The BPM", estava ouvindo tudo e pensei: "Hum... Ela está falando sobre fios nesta música." Depois... "Ok, agora falou sobre computadores." E parecia que tudo o que eu dizia tinha a ver com tecnologia. E foi isso que me fez pensar: "Ahhh... Entendi! É como a Kim Possible!!!".

O álbum "The BPM" também se inspira muito em referências de dance music, house e vertentes da música eletrônica. A cultura clubber representa um espaço sagrado para comunidades dissidentes, para pessoas LGBTQIA+. Mas, ao mesmo tempo, estamos entrando em uma era em que a cultura clubber, a cultura underground, está sendo comodificada, como Boiler Room e esse tipo de industrialização das festas. Como você se sente em relação a isso? Como você enxerga a cultura clubber hoje em dia e como se relaciona com ela? Porque sei que você gosta de dançar...

Sim. Eu sinto que isso me deixa triste porque não acho que a música deveria ser inacessível ou guardada por portões. E é quase como se, do ponto de vista do artista, quando você começa sua carreira, você toca em shows experimentais e aquilo é um ambiente completamente diferente de sair em turnê agora. É um ambiente diferente. Esses shows experimentais que eu fazia não custavam dinheiro. Era um monte de gente da comunidade se reunindo e dizendo: "Não temos orçamento, mas temos isso e aquilo." Então era uma grande relação de troca. E todo mundo podia experimentar o show. Talvez a tecnologia não fosse tão avançada ou a produção tão técnica, mas ainda assim as pessoas tinham a oportunidade de se reunir. E sinto que, à medida que você se torna um artista mais conhecido, sua música começa a ser mais inacessível. Porque você passa a tocar em festivais e eventos - até mesmo algo como Boiler Room - e os ingressos ficam muito caros. Então os fãs que você tinha no começo talvez não tenham mais acesso hoje em dia. Por isso acho importante entender isso e se colocar em lugares onde você ainda consegue alcançar essas pessoas. Porque acho que todo mundo merece experimentar um certo tipo de arte. Eu amo a Hood Rave. É uma rave que acontece em Los Angeles. Para mim, ela é o novo Boiler Room. Ela é feita por dois DJs. Eles criam esse ambiente inclusivo. Todos os tipos de pessoas são bem-vindos. E existe uma escala móvel de preços. Eles fazem parte da comunidade e trabalham juntos para criar esse espaço. Acho que todos nós, como artistas, deveríamos definitivamente apoiar e estar presentes nesses espaços. Não importa o quanto você se torne bem-sucedido, continue fazendo parte desses espaços.

O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

Sou extremamente, excessivamente analítica comigo mesma. E é uma batalha constante até mesmo conseguir me expressar. E é por isso que faço música. Talvez as pessoas possam perceber isso e, se também passam pela mesma coisa, possam lutar contra isso também.

Serviço

Sudan Archives no Brasil - Balaclava Fest

Data: 28 de Setembro de 2026, segunda-feira

Local: Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade

Horários: Portas 20h / Show 21h30

Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal

Ingressos: https://ingresse.com/sudanarchives-sp/

Ali Prando é filósofo, artista e curador brasileiro. Entre filosofia, cultura pop, música eletrônica e culturas queer, desenvolve projetos que aproximam pensamento crítico, performance e cultura contemporânea. Formado pela The Festival Academy da EFA (European Festival Association), articula artistas e teóricos nacionais e internacionais. É criador de Cartografias Queer, Filosofia POP e do festival Transforma Música, e também atua como músico sob o nome ALI.

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