Amabbi fala sobre novo álbum, Crisálida: "Ainda não virei borboleta. A gente está sempre se transformando"
Segundo álbum de estúdio da cantora paulistana — que se apresentou na edição de junho da Rolling Stone Sessions — representa fase de amadurecimento e celebra as mulheres da cena
Nascida Beatriz Carvalho Nascimento, Amabbi era apenas uma garota de 14 anos quando fez um vídeo cantando que viralizou nas redes sociais. Hoje, aos 20, deixa sua marca na música brasileira.
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Com o segundo álbum de estúdio, Crisálida (2026), entrou em uma fase de "amadurecimento e transformação artística". O título faz referência à metamorfose que a lagarta vive para se transformar em borboleta. "Ainda não virei borboleta. A gente tá sempre se transformando", diz à Rolling Stone Brasil.
Na última quarta, 17, Amabbi apresentou o álbum na íntegra pela primeira vez na edição de junho da Rolling Stone Sessions, no Blue Note São Paulo.
Com referências que vão do rap ao R&B e pop, constrói em Crisálida uma celebração às mulheres da cena: são 13 faixas que incluem feats com Clara Lima, Cynthia Luz, DAY LIMNS e mais. Sua maior fonte de inspiração está ao redor: livros, podcasts e as mulheres com quem convive e admira.
Como você vê o impacto das artistas femininas no hip-hop hoje?
Eu acredito que o rap nacional feminino acaba criando uma espécie de cápsula entre as mulheres, onde a gente consegue se proteger. Muitas outras, por não terem esta possibilidade de união, acabam se fechando ou acabam em um lugar cheio de homens. Se nos juntarmos, criamos um império feminino. E é onde vemos que não precisamos mais de homens, né?
Nessa via de amadurecimento musical, como são essas transformações musicais? Como acontece dentro de você, na sua vida?
Tenho falado mais sobre mulheres. Comecei a conviver muito mais, entender o lado e ver que meu corre é explicitamente o que falo nas músicas. E que muitas vezes se torna mais lúdico, se torna realmente a história da Dona Maria, da Dona Marta que puxa cabelo de manhã, faz a escovinha e cobra 50 reais. Esse é o meu mundo e eu não conseguiria falar de outro lugar. Estou crescendo, ficando mais velha, deixando de ser tão molecona. Sempre convivi com homens, desde a minha casa até nos meus trabalhos. [Ao] conviver mais com mulheres, você começa a pensar coisas que você não pensava antes, sabe? E aí você começa a relacionar isso com as canções do álbum. Continuo falando sobre o movimento em Crisálida, mas é um pouco mais maduro, uma visão de outros mundos. É a minha construção do que estou vivendo agora e me vendo e observando ao meu redor, e ainda falando do meu vizinho, da minha vizinha, da história da minha mãe, mas trazendo muito mais realidade.
Como mulher é muito importante ouvir as vozes de outras mulheres, consumir sempre outras mulheres. Como você escolheu as convidadas em Crisálida?
Do mesmo jeito que me deram espaço… não é que estou dando espaço para elas, porque elas já são muito fodas. Fazer um som com Clara Lima, Cynthia Luz e Elana Dara se tornou meu sonho de consumo. Eu queria sempre privilegiar a questão das mulheres e trazer esse lado feminino, porque o álbum todo falava muito sobre relacionamento, a mulher se aceitar, acordar e deitar a cabeça no travesseiro, pensar em situações críticas e querer escutar, às vezes, situações críticas em melodia boa. Começo a perceber que estamos, sim, movimentando, e todas estão fazendo por onde dá para conquistar o lugar. E isso ajuda a explicar por que ainda enfrentamos índices tão altos de feminicídio e misoginia nos ambientes de trabalho. A gente se junta para ter esse grande poder e acontecer naturalmente. Porque se eu perguntar pra você, tenho certeza que você prefere muito mais trabalhar com uma mulher do que com um homem. A gente consegue falar sobre papos de absorvente. Esse tipo de coisa simples, mas que afeta na nossa vida. Percebi isso naturalmente, ficando mais velha.
Você fala muito sobre o tema da ancestralidade. Como que isso se relaciona para você?
Coloquei nesses pontos do que veio antes de mim, sem ser algo tão relacionado à religião, porque não gosto de colocar muito esse tipo de tema — por hora. Estou me descobrindo ainda. É colocar as mulheres que vieram antes de mim. Então eu cito várias delas nas músicas. Vai falar de um álbum de mulher, então cita todo mundo que pode: Dona Ivone Lara, Negra Li, Dina Di, Tati Quebra Barraco, Marta. Colocar Nana Caymmi como introdução do meu álbum é muito importante para o passo que estou dando. Mesmo sendo mulher, acredito que ainda preciso pedir licença. Quero agradecer sempre as que vieram antes de mim, que não tiveram tanta oportunidade quanto tenho agora. Dessa forma criamos um movimento, essa transformação, o que é realmente a Crisálida, né? A fase que a mulher passa para se entender e se transformar mesmo como uma mulher.
Enquanto na música você concilia vários gêneros musicais, você também equilibra muita coisa na sua vida com trabalho, shows e faculdade. Tudo ao mesmo tempo. Como isso funciona na sua cabeça?
Costumo ler livros de poesia. Nunca namorei na minha vida, sempre pensei muito em trabalho. Gosto de ter meu dia cheio de coisas. Não é que eu gosto de chegar atrasada, mas curto ter várias coisas. Me torno capaz! Para criar, escrever e compor um álbum, pego um livro de poemas que gosto muito e leio de novo. Tipo Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente, ou Poesia Cura, ou o próprio Entre Versos e Voos, da Ive Lima. Gosto de contar histórias e acreditar que conto as histórias de outras pessoas. Às vezes, são histórias que as pessoas me contam e a gente vai lembrando, ou do relacionamento dos meus pais. Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos, então tenho histórias que minha mãe me conta sobre ele. Minha primeira composição foi sobre isso. "Deu Fuga" é um relacionamento da minha mãe.
Como você enxerga seus próximos 5, 10, 15 e 20 anos?
Nos meus próximos 5 anos, imagino ter terminado minha faculdade e meu estágio, que são as coisas mais importantes de agora. Sou muito feliz com o que eu tenho. Então imagino, sei lá, mais dinheiro, talvez? Trabalhando um pouco menos, mas com uma banda foda, vários backing vocals e dançarinos! Eu vendia pastel com 18 anos. Dos 18 aos 20 anos muita coisa mudou. É tudo fruto do meu trabalho e da minha mãe, que sempre me levou a vários lugares.
Essa é a parte boa de você estar sempre em transformação, né?
Acredito que esse é o tema de Crisálida. Ainda não virei borboleta. Não vai ter um terceiro álbum onde realmente me torno a borboleta. Que aí vira a Lucy, sabe? O meu primeiro tema ainda é o casulo. Viver sempre em transformação. Eu mesma não sei o que vou comer amanhã. Não sei como vai ser meu dia. Todo dia eu saio e falo: "Meu Deus, e se alguém me atropelar?" Não sei como vão ser meus cinco anos daqui para frente. Mas imagino minha agenda cheia, com estabilidade financeira e pessoas trabalhando comigo. Minha mãe feliz. Comprando tudo o que a gente pode querer. E é isso.
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