Mãe de Frank Ocean revela como quase convenceu o filho a trabalhar nos correios antes da música
Em rara entrevista, Katonya Breaux fala sobre criação, medo e o perfeccionismo do filho que se tornou ícone global
Katonya Breaux não costuma dar entrevistas. Mãe de Frank Ocean preferiu, ao longo dos anos, manter-se longe dos holofotes que cercam o filho — um dos artistas mais misteriosos e influentes de sua geração. Entretanto, em conversa recente com Samson Shulman, no podcast Connection Is Magic, Breaux decidiu falar abertamente sobre temas que vão da meditação e do empreendedorismo à jornada emocional de criar uma criança artística em um mundo que valoriza a estabilidade acima de tudo.
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Nascida em Nova Orleans e criada na região de Los Angeles, ela compartilha memórias que revelam como quase conduziu o filho a uma carreira completamente diferente e como acompanhar a determinação de Ocean transformou sua percepção do que significa apoiar os sonhos de alguém.
Ela conta que Frank Ocean era uma criança excepcionalmente inteligente. Aprendeu a ler aos quatro anos e sempre se destacou na escola, o que alimentava as expectativas maternas de um futuro estável e previsível. O curioso é que ele só demonstrou interesse por música aos 14 anos. "Eu era uma mãe à moda antiga. Me importava com notas e com conseguir um bom emprego, talvez nos correios, algo em que você pudesse confiar. Eu era esse tipo de mãe", admite Breaux, rindo ao imaginar o cenário alternativo. "Imagine ele sendo carteiro agora".
A virada na percepção de Katonya foi um processo gradual de observar a determinação e o compromisso do filho adolescente com aquilo que queria criar. "Foi assistindo ele e sua determinação e seu compromisso com o que queria que a mudança aconteceu em mim. Demorou, mas quando virou, virou. Então eu estava a bordo", explica. Durante a entrevista, ela aprofunda reflexões sobre parentalidade que transcendem sua experiência individual, argumentando que o medo está no centro de muitas decisões que pais tomam. "Nós criamos nossos filhos baseados no medo", afirma, citando a própria criação tumultuada como exemplo de padrões que se perpetuam entre gerações. A lição que ela aprendeu tardiamente, mas de forma definitiva: "Nossos filhos não são nós. Nossos filhos são almas totalmente separadas com suas próprias jornadas e suas próprias vidas."
Breaux também falou sobre o processo criativo do filho, lembrando seu meticuloso trabalho de estúdio e revelando o que aprendeu com ele ao longo dos anos. Embora não entre em detalhes específicos sobre projetos atuais — Ocean está desenvolvendo sua estreia como diretor de cinema, filme que deve ter David Jonsson no elenco —, as reflexões maternas iluminam a origem de características que definiram a carreira do artista. O perfeccionismo extremo, os hiatos prolongados entre lançamentos, a recusa em seguir cronogramas tradicionais da indústria: tudo isso tem raízes naquele adolescente determinado que preferiu quebrar um CD com versões iniciais de suas músicas a permitir que material imperfeito circulasse.
Quase dez anos se passaram desde que Blonde (2016) dominou ciclos de notícias e estabeleceu novos padrões para o que um álbum de R&B poderia ser. Nesse intervalo, Frank Ocean se tornou menos prolífico e mais mítico, e a entrevista de Katonya Breaux chega em um momento particularmente oportuno, oferecendo contexto humano para um artista que sistematicamente evita exposição. Hoje, Frank Ocean é amplamente considerado autor de um dos melhores álbuns de todos os tempos, artista que redefiniu o R&B contemporâneo e figura cuja ausência prolongada da música só intensifica seu status.