Jornalista brasileiro do Critics' Choice avalia chances de vitória do Brasil no Oscar 2026
Para quem é apaixonado por cinema, o Oscar sempre cria uma atmosfera especial — e quando o Brasil entra na disputa, a expectativa ganha contornos de final de Copa do Mundo. A RFI conversou com Rodrigo Salem, jornalista radicado em Los Angeles e membro do Critics' Choice, associação de críticos responsável por um dos prêmios mais influentes da indústria, que analisou as categorias em que brasileiros podem conquistar uma estatueta.
Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles
Enquanto Hollywood prepara o tapete vermelho no Dolby Theatre, onde a cerimônia do Oscar é realizada, o público brasileiro está atento a cada previsão e a cada análise, como quem acompanha a escalação da Seleção antes de uma decisão. Grupos online viram arquibancada, redes sociais se transformam em mesa-redonda e a pergunta é sempre a mesma: será que vem mais uma estatueta para o Brasil?
Essa não seria qualquer conquista. Se acontecer, o país pode viver um feito histórico: ser "bicampeão" com o gostinho de ganhar por dois anos consecutivos.
No ano passado, o Brasil celebrou a vitória de "Ainda Estou Aqui", que marcou a primeira estatueta do Brasil em 97 anos de festa. Agora, em 2026, o cinema brasileiro volta com mais força: quatro indicações importantes de "O Agente Secreto" e uma campanha que permanece forte desde o último Festival de Cannes.
Wagner Moura na corrida de Melhor Ator
Wagner Moura já faz história só pelo fato de ser indicado na categoria de Melhor Ator, algo inédito no Brasil. Se levar a estatueta, ele será o segundo latino-americano a ganhar o prêmio. A primeira vez foi há 75 anos, com o portoriquenho José Ferrer (Cyrano de Bergerac).
No entanto, Rodrigo Salem não acredita que o ator baiano seja o favorito. "Tem a minha torcida, mas quem está realmente na frente para esse prêmio é o Michael B. Jordan", diz Rodrigo Salem, referindo-se ao protagonista de "Pecadores".
O artista americano ganhou força após receber o prêmio no Sindicato dos Atores (SAG). Paralelamente, Timothée Chalamet, de "Marty Supreme", inicialmente apontado como o principal candidato ao prêmio, perdeu o Bafta para Robert Aramayo. Com isso, a disputa ganhou um elemento inesperado: abriu espaço para possíveis surpresas.
Para Salem, com essa dinâmica, Wagner Moura, Leonardo DiCaprio ("Uma Batalha Após a Outra") e Ethan Hawke ("Blue Moon"), ganham força. "Existe um certo ar de que tudo pode acontecer nessa categoria. É difícil, mas não é impossível, como era há dois meses que todo mundo falava que o Timothée ganharia fácil. Então, foi bom o que aconteceu porque abriu um pouco mais e deixou um pouquinho mais emocionante uma cerimônia que tem tudo para ser sem surpresas e meio chata", avalia.
O Agente Secreto e as apostas brasileiras
Além da indicação de Wagner Moura, "O Agente Secreto" concorre em outras três categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Seleção de Elenco.
Na principal modalidade da noite, a disputa deve se concentrar entre dois títulos, diz Salem. "Acho que esse duelo já está meio estabelecido que vai ser entre 'Pecadores' e 'Uma Batalha Após a Outra', com favoritismo para esse último."
Na categoria Melhor Seleção de Elenco, o jornalista afirma que seria "uma boa alternativa" conceder o prêmio para o Brasil, mas pondera: "eu tenho uma teoria de que as pessoas que não votarem em 'Pecadores' para Melhor Filme vão votar nele para Melhor Seleção de Elenco.
Por isso, segundo Salem, "O Agente Secreto" não tem tantas chances quanto "Pecadores" para vencer essa estatueta.
A melhor chance brasileira
A categoria em que o Brasil aparece mais forte é a de Melhor Filme internacional. O principal adversário é o norueguês "Valor Sentimental", que acumula impressionantes nove indicações, além de contar uma história sobre um diretor de cinema, o que sensibiliza muitos votantes.
Ainda assim, muitos analistas acreditam que o filme não conseguiu criar a mesma conexão emocional com os membros da Academia e essa categoria seria a de maior chance do Brasil levar um Oscar para casa.
"Eu não sinto que a campanha de 'Valor Sentimental' engrenou aqui. Por mais que tenha nove indicações, é muita coisa para um filme internacional. Mas eu acho que é um filme muito frio", observa Salem.
Segundo o jornalista, o longa de Kleber Mendonça Filho fez uma campanha estratégica. "Acredito que isso esteja valendo muito mais a pena hoje em dia no cinema: você ter um filme inesperado, que te leva para situações ou lugares que você normalmente não vê em uma série de TV ou em um filme hollywoodiano", diz.
Adolpho Veloso e a corrida pela fotografia
O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso concorre ao Oscar por seu trabalho em "Sonhos de Trem", de Clint Bentley, um filme intimista que começou pequeno, sem pretensão de se tornar um gigante da temporada de premiações. O longa acabou conquistando espaço pela força e delicadeza de sua estética.
Durante boa parte da corrida, muita gente acreditava que o prêmio de melhor fotografia iria para a primeira mulher negra indicada nesta categoria, Autumn Durald Arkapaw, pelo trabalho em "Pecadores". O filme acumulou troféus importantes e parecia consolidado na liderança.
Mas, nas últimas semanas, "Uma Batalha Após a Outra", com direção de fotografia de Michael Bauman, venceu prêmios dentro da própria indústria. Para Salem, esse é o grande favorito.
"É muito difícil que ele perca pelo fato de ter vencido já a associação dos diretores de fotografia e de ter ganhado outros prêmios mais relativos à própria indústria. Agora, eu diria que está resolvido? Não. Eu vejo ainda que o Adolpho tem boas chances", avalia.
A cerimônia do Oscar acontece neste domingo (15) e tem início às 20 horas pelo horário de Brasília.