John Malkovich une literatura e música de forma sublime na Sala São Paulo
Récita musicada 'The Infamous Ramírez Hoffman' foi apresentada pelo ator americano nesta terça-feira, 31, na capital paulista
John Malkovich apresentou nesta terça-feira, 31, sua peça The Infamous Ramírez Hoffman, na Sala São Paulo, num espetáculo que uniu literatura e música de maneira sublime.
O astro americano, de filmes como Na Linha de Fogo e Ligações Perigosas, apresentou um segmento de A Literatura Nazista da América, de 1996, do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Trata-se de um livro satírico estruturado como uma coleção de textos sobre escritores fictícios extremistas e repletos de ódio. No último capítulo do romance aparece o infame Carlos Ramírez Hoffman, um piloto e poeta chileno que depois do Golpe de Estado no Chile de 1973 passa a escrever poemas no céu com fumaça, como se fossem versos gigantes, transmitindo mensagens autoritárias associadas ao regime de Pinochet.
Malkovich, que além de narrador é diretor da peça, criou uma exibição minimalista, sem cenário e na qual ele é acompanhado por três músicos de alta qualidade: a pianista Anastasya Terenkova, o violinista Andrej Bielow e o bandoneonista Fabrizio Colombo. O trio executou canções de nomes como Max Richter, Astor Piazzolla, The Doors, Alfred Schnittke e Antonio Vivaldi.
Aos 72 anos, o ator apareceu vestido todo de preto, sob luzes avermelhadas, e passou os 90 minutos da montagem à frente de um MacBook lendo o texto de Bolaño, sem exibir grandes recursos cênicos. Contido, mas magnético, ele interpretou de maneira assertiva a prosa do chileno. As legendas em português eram exibidas em uma tela suspensa. Sua dicção calma e cautelosa era acentuada pela trilha sonora, capaz de ser bela e ameaçadora ao mesmo tempo.
Malkovich não é uma estrela convencional de Hollywood. Possui presença excêntrica, quase caricatural, e por isso foi alvo do roteirista Charlie Kaufman no clássico cult Quero Ser John Malkovich. Sua imagem estranha e enigmática casou perfeitamente com aquele roteiro, assim como associou-se de maneira adequada a este conto sobre o misterioso Ramírez.
A peça tem êxito ao reforçar o tom do material original e mostrar como a arte não está imune a pensamentos extremistas e pode até servir como veículo para eles. Além disso, a récita musicada é inteligente ao expor o perigo por trás de discursos aparentemente intelectuais.
O personagem sanguinário, nada mais do que uma figura alegórica, pode ser aproximado a obras como Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto e Argentina, 1985, entre outras, no sentido de usar a ficção para refletir sobre memória, violência e responsabilidade histórica.
O público se mostrou contemplativo, a não ser durante a efusiva salva de palmas no final, quando Malkovich e os músicos curvaram-se na mais emblemática casa de concertos paulistana.
Alguns admiradores podem ter saído ligeiramente frustrados por não terem visto uma interpretação mais tradicional do americano. Para estes, a solução será chegar em casa e assistir a Queime Depois de Ler ou A Sombra do Vampiro. Ou então esperar até o fim do ano, quando será lançada a comédia sombria Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, pela qual Malkovich já é apontado como possível candidato ao Oscar 2027.
Malkovich volta ao palco da Sala SP nesta quarta-feira, 1. As apresentações na capital paulista integram a Temporada 2026 da série Música pela Cura, da Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).