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John Malkovich une literatura e música de forma sublime na Sala São Paulo

Récita musicada 'The Infamous Ramírez Hoffman' foi apresentada pelo ator americano nesta terça-feira, 31, na capital paulista

31 mar 2026 - 22h59
(atualizado às 23h06)
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John Malkovich apresentou nesta terça-feira, 31, sua peça The Infamous Ramírez Hoffman, na Sala São Paulo, num espetáculo que uniu literatura e música de maneira sublime.

O astro americano, de filmes como Na Linha de Fogo e Ligações Perigosas, apresentou um segmento de A Literatura Nazista da América, de 1996, do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

Trata-se de um livro satírico estruturado como uma coleção de textos sobre escritores fictícios extremistas e repletos de ódio. No último capítulo do romance aparece o infame Carlos Ramírez Hoffman, um piloto e poeta chileno que depois do Golpe de Estado no Chile de 1973 passa a escrever poemas no céu com fumaça, como se fossem versos gigantes, transmitindo mensagens autoritárias associadas ao regime de Pinochet.

John Malkovich faz apresentações no Brasil com peça 'The Infamous Ramírez Hoffman'
John Malkovich faz apresentações no Brasil com peça 'The Infamous Ramírez Hoffman'
Foto: Mohai Balázs/Zene Háza/Divulgação / Estadão

Malkovich, que além de narrador é diretor da peça, criou uma exibição minimalista, sem cenário e na qual ele é acompanhado por três músicos de alta qualidade: a pianista Anastasya Terenkova, o violinista Andrej Bielow e o bandoneonista Fabrizio Colombo. O trio executou canções de nomes como Max Richter, Astor Piazzolla, The Doors, Alfred Schnittke e Antonio Vivaldi.

Aos 72 anos, o ator apareceu vestido todo de preto, sob luzes avermelhadas, e passou os 90 minutos da montagem à frente de um MacBook lendo o texto de Bolaño, sem exibir grandes recursos cênicos. Contido, mas magnético, ele interpretou de maneira assertiva a prosa do chileno. As legendas em português eram exibidas em uma tela suspensa. Sua dicção calma e cautelosa era acentuada pela trilha sonora, capaz de ser bela e ameaçadora ao mesmo tempo.

Malkovich não é uma estrela convencional de Hollywood. Possui presença excêntrica, quase caricatural, e por isso foi alvo do roteirista Charlie Kaufman no clássico cult Quero Ser John Malkovich. Sua imagem estranha e enigmática casou perfeitamente com aquele roteiro, assim como associou-se de maneira adequada a este conto sobre o misterioso Ramírez.

A peça tem êxito ao reforçar o tom do material original e mostrar como a arte não está imune a pensamentos extremistas e pode até servir como veículo para eles. Além disso, a récita musicada é inteligente ao expor o perigo por trás de discursos aparentemente intelectuais.

O personagem sanguinário, nada mais do que uma figura alegórica, pode ser aproximado a obras como Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto e Argentina, 1985, entre outras, no sentido de usar a ficção para refletir sobre memória, violência e responsabilidade histórica.

O público se mostrou contemplativo, a não ser durante a efusiva salva de palmas no final, quando Malkovich e os músicos curvaram-se na mais emblemática casa de concertos paulistana.

Alguns admiradores podem ter saído ligeiramente frustrados por não terem visto uma interpretação mais tradicional do americano. Para estes, a solução será chegar em casa e assistir a Queime Depois de Ler ou A Sombra do Vampiro. Ou então esperar até o fim do ano, quando será lançada a comédia sombria Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, pela qual Malkovich já é apontado como possível candidato ao Oscar 2027.

Malkovich volta ao palco da Sala SP nesta quarta-feira, 1. As apresentações na capital paulista integram a Temporada 2026 da série Música pela Cura, da Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Estadão
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