John Green volta à ficção com livro sobre o peso de expor a própria vida: 'Você é a matéria-prima'
Autor do best-seller 'A Culpa é das Estrelas' publica seu primeiro romance em quase dez anos, 'Um Final de Cinema', sobre dois jovens atores em ascensão em Hollywood
Ao retornar à ficção com "Um Final de Cinema", John Green reflete sobre os impactos da superexposição e da fama na era digital. Inspirado em vivências pessoais e na visão de Andy Warhol sobre a mercantilização da vida privada, o autor retrata jovens que lidam com a perda da intimidade sob os holofotes. O livro investiga os dilemas dessa vulnerabilidade contemporânea, destacando o amor e os laços afetivos como refúgios essenciais para superar as pressões da notoriedade.
Quando o escritor americano John Green publicou seu último livro de ficção, Tartarugas Até Lá Embaixo, de 2017, enfrentou uma longa sequência de entrevistas à imprensa em que precisava falar sobre algo que considerava muito pessoal, o seu Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
Era inevitável: as dificuldades de sua protagonista, Aza, eram diretamente ligadas ao transtorno mental que enfrentava e Green havia se inspirado em muitas experiências pessoais para escrever o livro. Foi, em parte, bonito. Muitas pessoas se sentiram acolhidas pelo que o escritor contava, e ele se sentiu menos sozinho.
Mas a verdade é que ele também se sentia drenado por ter de falar tanto sobre o tema para promover o livro. "Foi um desafio, em muitos aspectos, lidar com a complexidade entre o autor e o livro. A história inventada e uma experiência da vida real. Paradoxalmente, escrever ficção é muito mais vulnerável para mim do que escrever não ficção, e acho que eu queria não ficar tão vulnerável por um tempo", explica.
Green realmente não acredita que um filme de ficção sobre Warhol, um dos mais emblemáticos artistas visuais americanos, seria feito hoje com facilidade (vale notar que em 2020 foi anunciado que Jared Leto interpretaria o artista em uma cinebiografia, mas não houve mais notícias sobre o projeto desde então). O escritor diz que o ícone da Pop Art era o nome ideal para centralizar essa história justamente porque ele previu muito do que o mundo se tornaria.
"Ele sabia que teríamos uma cultura baseada em telas, sabia que pessoas comuns se tornariam famosas, que todos nós estaríamos anunciando nossas vidas como uma mercadoria. Eu queria escrever sobre esses temas, é claro, mas também queria escrever sobre a distância entre a época de Warhol e o agora. Warhol conseguia ter uma vida privada mesmo sendo uma figura pública, e isso é muito mais difícil agora", explica.
Green sabe muito bem disso. Quando A Culpa É das Estrelas, seu romance sobre adolescentes com câncer, virou um best-seller e depois um filme de sucesso, ele já era um autor publicado, mantinha um popular canal no YouTube com seu irmão, Hank Green, mas as coisas escalaram de forma impressionante.
"Foi um presente ter tantas pessoas respondendo a esse livro de forma tão generosa", diz. "Ao mesmo tempo, foi um momento muito desestabilizador na minha vida porque muita coisa estava mudando, porque havia muita atenção. As pessoas iam à nossa casa e batiam à porta à noite, e tínhamos filhos pequenos. Foi uma experiência muito estranha e avassaladora."
A diferença entre Green e seus personagens em Um Final de Cinema, segundo ele, é que o escritor tinha uma vida estruturada. Tinha relacionamentos que funcionaram como alicerce daquilo que era verdadeiramente importante e o mantiveram no lugar. O que acontece quando você passa por tudo isso quando ainda está descobrindo quem é e buscando essas relações?
"Essa é uma das razões pelas quais eu queria escrever sobre esses jovens: acho que o que eles estão passando é obviamente maravilhoso em muitos aspectos, mas também bastante difícil", comenta. No meio disso tudo, talvez o mais importante para Green ainda seja, por mais piegas que soe, o amor.
"O amor é como superamos tudo. Somos fundamentalmente uma espécie que busca conexão, colaboração e cooperação", diz. "O amor romântico pode ser uma parte importante disso, mas outras formas de amor também podem ser importantes. A questão para mim realmente é: como encontramos esses relacionamentos que nos ajudam a superar tudo o que precisamos superar?". Quem sabe Um Final de Cinema ajude a descobrir.
Um Final de Cinema
- Autor: John Green
- Tradução: Alda Lima
- Editora: Intrínseca (336 págs.; R$ 69,90 | E-book: R$ 46,90)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.