'Só faço escolhas pensando no presente', diz Helena Ignez, aos 87 anos
A artista protagoniza o espetáculo-instalação 'Savannah Bay é Você', inspirado em Marguerite Duras, ao lado da filha Djin Sganzerla, excursiona com peça estrelada por Marco Nanini e se prepara para dirigir filme sobre Luz Del Fuego no começo do ano
Aos 87 anos, a atriz e cineasta Helena Ignez celebra sua trajetória artística marcada pela recusa ao óbvio e foco no presente. Homenageada na Ocupação Helena Ignez no Itaú Cultural, ela estreia no local o espetáculo "Savannah Bay é Você", dividindo a cena, presencial e virtualmente, com a filha Djin Sganzerla. Ícone do cinema e do teatro desde os anos 1960, a artista mantém agenda cheia: excursiona com "Fim de Partida", planeja dirigir o filme "Dora" e prepara novas peças teatrais para o próximo ano.
A atriz e cineasta baiana Helena Ignez, de 87 anos, ainda ouve o grito da filha, Djin Sganzerla, na época com 6, ecoar pelo Teatro Castro Alves, em Salvador. Era 1983, e a estrela do cinema underground apresentava o monólogo O Belo Indiferente, de Jean Cocteau (1889-1963), dirigido por ser marido, o cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004). Na peça, ela interpretava uma mulher desesperada que varava a madrugada à espera do amante. "Eu me impressionei ao vê-la chorando, sofrendo na cama e dei um grito que chegou a assustá-la", recorda Djin, aos 49 anos. "Ali, me dei conta de que minha mãe era uma atriz."
Helena ri da situação e garante que era raro levar as filhas Sinai, hoje com 53 anos, e Djin para o trabalho, ao contrário do que fazia na década de 1960. No começo de carreira, recém-chegada da Bahia, emendava uma peça atrás da outra para garantir o sustento no Rio de Janeiro e carregava a primogênita, Paloma, de 66 anos, para as coxias. "Todo mundo fala em mim pelo cinema, mas a verdade é que fazia absurdamente teatro", diz. "Em 1966, filmei O Padre e a Moça e, depois, com O Bandido da Luz Vermelha (1968), quando conheci o Rogério, é que fui tomada pelo cinema."
Helena Ignez Pinto de Melo e Silva veio ao mundo em família aristocrática falida e desafiou a autoridade paterna ao trocar o curso de direito pelas artes cênicas na Federal da Bahia, onde conheceu o cineasta Glauber Rocha (1939-1981). "Ele estava repetindo o segundo ano de direito por faltas e, como nunca fui boa companhia, eu o incentivei a largar a faculdade", declara, rindo. "Foi um casamento precoce e, aos 23 anos, me vi desquitada, com a Paloma ainda bebê, uma barra pesada."
Meio estrela, meio mito, meio projeção e imagem real. É assim que Helena pode ser vista em Savannah Bay é Você, espetáculo-instalação dirigido por André Guerreiro Lopes inspirado na obra da escritora Marguerite Duras (1914-1996), que estreia nesta quinta, 1º, no Itaú Cultural. Envolvida com a turnê da peça Fim de Partida, em que contracena com Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França, a artista não estará ao vivo em todas as sessões por causa de viagens para Porto Alegre e Belém. "Helena se faz presente através de imagens e da voz, como se fosse um holograma, mas, na maioria das vezes, estará também no palco", explica Lopes.
Savannah Bay é Você revisita a peça Savannah Bay, protagonizada por Helena e Djin em 1999. Na história, uma jovem atriz vasculha o passado de Madeleine, velha dama do teatro, em busca da própria identidade. Provocada pela moça, a veterana reconstrói o passado e, entre o real e a alucinação, é revelada uma ligação entre as duas. "Savannah Bay é Você homenageia o teatro como lugar de memória, invenção, desaparecimento e potência de reinventar aquilo que acreditávamos ter visto", define Lopes, marido de Djin, que assinou as projeções da primeira montagem, dirigida por Sganzerla.
O jogo de espelhos entre mãe e filha cessa na ficção. Com sua memória invejável, Helena detalha o período em que, como monja, viveu entre templos nos Estados Unidos, Inglaterra e Índia nos anos de 1980 e, segundo ela, redesenhou uma mulher mais preocupada com a poesia no universo. "Posso ter pausado a carreira de atriz, mas não deixei a arte teatral", garante. "Até participei de peças clássicas indianas, como O Mahabharata, que reunia um elenco de trinta pessoas."
Djin, apesar da admiração pelo legado, nunca buscou referências na mãe para construir a carreira. Ela relutou até subir ao palco e só estreou aos 19 anos, sob o comando de Antônio Abujamra (1932-2015), na peça O que é Bom em Segredo é Melhor em Público, no Rio de Janeiro. "Eu não queria nada que fosse óbvio e busquei a minha independência, como meus pais", afirma ela, que, além de atriz, é cineasta e dirigiu os longas Mulher Oceano (2020) e o recente Eclipse (2006). "Fui amamentada até os 5 anos, e o leite que bebi da minha mãe surtiu efeito."
Apaixonada pela filha, Helena enxerga um avanço na sua arte e, sobre Eclipse, garante que não teria condições ou distanciamento para levar às telas uma história tão violenta sobre a hipocrisia masculina. "A ferramenta que mais acredito é a do pensar poético e o realismo me assusta", diz. "Fico admirada porque Djin é melhor que eu, mais artista, mais madura, mais mãe e encontrou no André a perfeita parceria."
No mesmo espaço da Paulista, está em cartaz desde julho a Ocupação Helena Ignez, que revê a trajetória da artista através de fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos. "Acho surpreendente essas homenagens porque nunca pensei no futuro, o que é o meu perigo, e, por isso, não conquistei uma estabilidade financeira", reconhece. "Enquanto minhas companheiras de geração entraram para a Rede Globo, vi que aquele lugar não era para mim e só faço escolhas pensando no presente até hoje."
Para o começo do ano, Helena assume a cadeira de cineasta e planeja rodar o filme Dora, inspirado no pensamento e no estilo de vida de Luz Del Fuego, pseudônimo da bailarina, naturista e escritora Dora Vivacqua (1917-1967). O papel será desempenhado pela atriz Bibi Dória. "Quero provocar essa falsa moral de hoje", garante. Depois de cumprir a agenda de Fim de Partida, a artista já tem outra peça engatilhada para maio, A Polícia da Memória, adaptação do livro da escritora japonesa Yôko Ogawa.
Sob a direção de Lopes, Helena deve contracenar com Djin, Luís Melo e Matheus Nachtergaele. Antes disso, lança o filme Jardim dos Silêncios, do cineasta Henrique Dantas, em que atua, e quer um tempo maior para brincar com Luna, filha de Djin e Lopes, de 6 anos. Helena ainda tem outras três netas e um casal de bisnetos. "Tudo o que faço na vida é autoral e não porque me adore, enxergo meus conflitos, falhas, mas faço questão de ser verdadeira e deu certo", observa. "A verdade pode doer na hora, mas é uma prova de que se valoriza o outro."
Savannah Bay é Você - Serviço
- Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149.
- Quinta a sábado, 20h; domingos, 18h.
- Grátis. Os ingressos devem ser reservados em www.itaucultural.org.br.
- Até o dia 18. A partir de quinta, 1º. Neste domingo, 4, não haverá espetáculo por causa da eleição.
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