Inhotim chega aos 20 anos com obra itinerante e reabertura de espaços, após período turbulento
Em duas décadas, instituto localizado em MG já recebeu mais de cinco milhões de visitantes em suas trilhas marcadas por obras de artistas como Adriana Varejão e Yayoi Kusama
Ao completar 20 anos, o Inhotim celebra sua superação após crises econômicas, a tragédia de Brumadinho e a pandemia. Sob o comando de Paula Azevedo, o museu a céu aberto reforça sua gestão e sustentabilidade com patrocínio da Vale, aposta na circulação de obras — como a itinerância de Grada Kilomba —, reabre galerias e busca maior representatividade no acervo. Aliando arte e preservação botânica, a instituição também planeja atrair novos públicos com a expansão da rede hoteleira local.
Celebrar 20 anos é um marco importante para qualquer instituição cultural brasileira. No caso do Inhotim, o aniversário chega com gosto de superação e motivado pela busca por mais fortalecimento institucional, sustentabilidade financeira e expansão das atividades.
Criado inicialmente para apresentar a coleção particular de arte do empresário Bernardo Paz, o espaço localizado em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, inaugurou um conceito de museu a céu aberto que mistura arte contemporânea, jardim botânico e um parque de 140 hectares.
Desde 2006, mais de 5 milhões de visitantes já percorreram suas trilhas e frequentaram pavilhões com obras de nomes incontornáveis do cenário artístico brasileiro e internacional, como Adriana Varejão, Lygia Pape, Matthew Barney e Yayoi Kusama, entre outros.
Para Paula Azevedo, diretora-presidente da instituição, essa vocação múltipla torna o lugar interessante para todas as pessoas e contribui para que ele possa ser, efetivamente, democrático: cerca de 50% de todos os acessos são gratuitos.
Apesar de boa parte da graça do Inhotim ser a forma como natureza e arte se integram de forma orgânica, o museu encara agora o desafio de se fazer presente em outras paragens. Pela primeira vez, ele assume a itinerância de uma obra de sua programação.
O Barco, instalação da portuguesa Grada Kilomba que ocupou uma das galerias do museu, chega ao Sesc Pompeia no dia 22 e, depois, segue para o Sesc Interlagos. A obra reúne 134 blocos de madeira queimada, parte deles com versos escritos em idiomas como o iorubá e o quimbundo, desenhando pelo espaço uma alusão ao porão dos navios negreiros.
"A gente sabe qual é a potência de uma galeria permanente, de uma obra feita para cada lugar, mas, ao mesmo tempo, a gente entende que não faz sentido a gente deixar uma série de obras guardadas na nossa reserva técnica. Elas merecem circular", afirma a executiva. "A experiência do Inhotim só acontece no Inhotim, mas dar acesso a outras experiências com esse acervo faz parte do nosso processo de democratização."
A comemoração pelos 20 anos inclui um show com João Gomes, no dia 18 de outubro, e a reabertura de dois espaços nos próximos meses. A galeria Galpão, que hospedou o trabalho de Grada Kilomba, volta a apresentar a instalação sonora The Murder of Crows, de Janet Cardiff e George Bures Miller. E a galeria de Cildo Meireles, que estava em reforma, passa a contar com uma antessala maior para a obra Desvio para o Vermelho. Ela também vai abrigar, por dez anos, um dos trabalhos mais emblemáticos do artista: Missão/Missões, que mistura moedas, hóstias e ossos em uma reflexão sobre religiosidade, poder e violência.
A boa fase - coroada pela presença do Inhotim na lista do jornal The New York Times de 52 lugares para visitar em 2026 - contrasta, porém, com uma série de tormentas vividas na última década. Mantido em grande parte com recursos da mineração, setor responsável pela fortuna do próprio Bernardo Paz, o museu precisou interromper seu ciclo de expansão por conta de uma baixa histórica no preço das commodities, em 2015.
Não bastasse isso, nos anos seguintes o empresário sofreu um forte abalo reputacional. Além de ter sido condenado por lavagem de dinheiro, ele foi colocado em escrutínio quanto a práticas utilizadas na construção de seu patrimônio. O julgamento foi revertido posteriormente, mas o episódio arranhou a imagem do mecenas, até então fortemente associada à gestão do museu, levando-o a abandonar a presidência do conselho em 2017.
No ano seguinte, um surto de febre amarela afugentou o público, e, em 2019, o rompimento da barragem de Brumadinho abriu uma série de feridas após vitimar 272 pessoas. "Isso criou um marco profundo, a cidade passou a ser vista como um lugar de tragédia, afastando o visitante. Toda a rede de hospitalidade ficou completamente congelada", explica Paula. Soma-se a tudo isso os oito meses de fechamento por conta da pandemia de Covid-19, algo especialmente complicado dado que, sem manutenção, a natureza avança e as obras podem ficar comprometidas.
Paula chegou justamente após esse momento, como parte de um projeto para reerguer a casa. Ela assumiu a vice-presidência executiva em janeiro de 2022, depois de uma bem-sucedida trajetória no MAM-SP e no Instituto Tomie Ohtake. Em junho do mesmo ano, a institucionalização foi reforçada quando Paz decidiu doar as cerca de 330 obras de sua coleção que integravam o acervo, além das galerias e obras permanentes. O gesto concluiu um movimento iniciado em 2016, quando o empresário já havia doado os terrenos e os prédios que compõem a área de visitação.
Em 2024, Paula assumiu a presidência no lugar de Lucas Pessôa, tornando-se a primeira mulher a comandar o Inhotim. A gestão também reformulou o conselho e reestruturou o plano de captação de recursos.
Foi nesse contexto que nasceu, em junho de 2023, um acordo inédito de dez anos com a Vale, parceira do Inhotim desde 2008 e sua maior patrocinadora atual. A mineradora divide os aportes por igual entre recursos pelos quais recebe isenção fiscal, via Lei de Incentivo à Cultura, e verba direta, para cobrir despesas de natureza e jardim botânico não contempladas pelo mecanismo.
"Com essa parceria, conseguimos firmar contratos por 4 anos. Esse movimento é benéfico porque a gente consegue se planejar minimamente e superar instabilidades sociais, políticas e econômicas", afirma ela, que ressalta o valor da cooperação com a empresa a despeito da tragédia de Brumadinho, motivada pelo rompimento de uma de suas barragens.
"O Inhotim é cercado por dez mineradoras. Nossa relação com elas é de cooperação. Hoje deixamos de ser um jardim botânico de coleção para fazer regeneração de espécies endêmicas. Quando há abertura de novas áreas de mineração, a gente faz resgate de espécies. Esse aporte é também uma devolutiva para uma região tão diretamente ligada a ela."
O orçamento anual da casa gira em torno de R$ 90 milhões, dos quais cerca de 60% são provenientes de recursos captados via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Os patrocínios diretos respondem por 13%, enquanto as doações representam 5% e as receitas próprias - como bilheteria, aluguel de espaço para eventos e vendas em loja - cobrem 22% das despesas. A meta é chegar a 30% até 2034.
O crescimento do setor de hospitalidade tem papel estratégico para a conquista desse objetivo. Depois do luxuoso Clara Hotel, instalado em 2024 dentro da propriedade, Brumadinho recebe em 2028 uma unidade da rede portuguesa Vila Galé. Com cerca de 300 quartos e diárias mais acessíveis, é uma aposta para turbinar a visitação.
Outro ponto de atração deve ser a abertura do Museu Bernardo Paz, anunciado pelo empresário em julho e com pré-inauguração prevista para 2027. A construção será erguida em um terreno vizinho ao Inhotim para receber o restante de sua coleção pessoal de arte contemporânea.
Paula entende que a nova instituição vem para somar. "Somos instituições com missões e compromissos bastante diferentes. Mas a gente entende isso como um movimento positivo para a cidade, com o crescimento de empregos e de outras possibilidades", afirma.
Do ponto de vista curatorial, uma revisão do acervo expôs lacunas de representatividade no Inhotim. Apesar de reunir obras de artistas de 18 países diferentes, não se sabia, até pouco tempo, quantos desses nomes eram mulheres, pessoas negras ou indígenas. O diagnóstico motivou, por exemplo, a reforma da galeria dedicada à fotógrafa Cláudia Andujar, reaberta com o acréscimo de trabalhos de artistas indígenas latino-americanos.
Falta, no entanto, um fundo dedicado à compra de novas obras. O acervo cresce por doações ou por comodatos negociados com os próprios artistas. Paula quer reverter esse cenário e, por isso, trabalha na criação de um fundo patrimonial, com anúncio previsto para 2027.
Mas nem só do aumento do número de instalações vive o Inhotim: 56% do parque são corredores de mata em expansão. Entre os muitos projetos relacionados à biodiversidade, está um laboratório mantido em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Viçosa que realiza pesquisas sobre impactos das mudanças climáticas em sementes de mata nativa.
O cuidado com o território, a natureza e a arte é o que inspira Paula ao refletir sobre o legado que quer deixar para os próximos anos. "Cito o [físico] Marcelo Gleiser: a gente é poeira de estrela. A gente só está aqui por um breve momento. Mas o Inhotim vai ficar."
Inhotim em números
- 19 galerias
- 70 artistas
- 902 obras em exposição
- 520 colaboradores contratados
- 60 km de canos de água, irrigação e esgoto
- 11 subestações de energia
- 140 hectares de parque
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