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'Gosto de ver meus livros se tornando cada vez mais populares', celebra Raphael Montes

Autor fala sobre o impacto do streaming na ampliação de seu público, a defesa de uma literatura sem elitismo e a relação que mantém com cada um de seus romances

24 jul 2026 - 11h52
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Muito antes de ver suas histórias ganharem as telas, Raphael Montes, autor de obras como Jantar Secreto e Dias Perfeitos, já tinha um objetivo claro: alcançar o maior número possível de leitores. Hoje, com milhões de exemplares vendidos, adaptações para o streaming e um público cada vez mais diverso, o escritor acredita que está mais próximo desse ideal.

'Gosto de ver meus livros se tornando cada vez mais populares', celebra Raphael Montes
'Gosto de ver meus livros se tornando cada vez mais populares', celebra Raphael Montes
Foto: Julia Mataruna / Rolling Stone Brasil

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, ele falou sobre a popularização de sua obra, a motivação para continuar criando novas histórias, a relação com o público, a importância de tornar a literatura acessível e o carinho que nutre por cada um de seus livros. Confira a conversa a seguir:

A Estranha na Cama e a Bienal do Livro

Em setembro, Raphael Montes chegará à Bienal do Livro para apresentar A Estranha na Cama, seu aguardado nono romance e o primeiro thriller erótico de sua carreira. Ao falar sobre a escolha da Bienal do Livro de São Paulo para lançar a obra, o autor associou o momento à transformação do espaço ocupado pelos escritores brasileiros no mercado editorial ao longo da última década.

"Poder lançar esse livro na Bienal de São Paulo me deixa muito feliz. Quando comecei minha carreira, há mais de dez anos, lembro que as principais mesas das bienais eram ocupadas por autores estrangeiros. Os escritores brasileiros ficavam em espaços menores, como o Café Literário. Hoje isso mudou completamente."

Na avaliação de Montes, esse cenário mudou principalmente por causa da aproximação entre influenciadores literários, escritores e leitores. "Os autores que mais vendem e que arrastam multidões nas bienais são autores brasileiros. Acho que isso acontece, primeiro, graças às redes sociais e aos influenciadores literários, que passaram a divulgar muito mais a literatura brasileira contemporânea."

O escritor destacou que faz questão de participar desses eventos e citou outros autores nacionais que também vêm reunindo grandes públicos. "Eu viajo o Brasil inteiro participando dessas feiras porque gosto muito de encontrar leitores. Isso fez com que mais pessoas descobrissem autores nacionais. Não apenas eu, mas também Carla Madeira, Socorro Acioli, Thalita Rebouças, Itamar Vieira Junior e tantos outros conseguem reunir multidões."

Montes relembrou o desempenho na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2025, e disse que retornar a um grande evento literário tem um significado especial. "No ano passado, fui o autor mais vendido da Bienal do Rio de Janeiro. Isso é muito legal. Por isso, lançar esse livro na Bienal de São Paulo, cercado pelos leitores, tem um significado enorme para mim. É um evento feito para leitores, e isso me interessa e me alegra muito."

Os desafios de continuar escrevendo

Questionado sobre o que ainda o desafia depois de mais de uma década de carreira e diversos romances publicados, Raphael Montes afirmou que a sensação de recomeço acompanha cada novo projeto. "Toda vez que termino um livro penso: 'Esse foi muito difícil, mas o próximo será fácil porque agora já aprendi'. E nunca é assim. Sempre aparece um desafio completamente novo."

Como exemplo, o escritor citou A Estranha na Cama, obra em que precisou lidar com um elemento inédito em sua trajetória. "É um thriller de suspense, então existe toda a construção da tensão, mas também há cenas de sexo. Eu nunca tinha escrito cenas de sexo.Montes explicou que sua principal preocupação era encontrar um tom que preservasse o caráter erótico da narrativa sem recorrer ao excesso.

"O desafio era descobrir como escrevê-las sem ser vulgar e, ao mesmo tempo, sem perder o erotismo. Como encontrar esse equilíbrio? Li alguns romances eróticos e, muitas vezes, achei que eles ultrapassavam um limite e chegavam a um grafismo que, pessoalmente, considero vulgar e que não me interessa. Encontrar esse meio-termo foi um grande desafio."

Para o autor, essa busca por novos desafios é justamente o que orienta sua produção literária. Em vez de repetir fórmulas, ele prefere experimentar estruturas e propostas diferentes a cada livro. "Eu evito entrar em uma zona de conforto. Sempre tento escrever algo que ainda não fiz."

Essa mudança constante, segundo Montes, também faz parte da relação que estabelece com seus leitores, já que evita repetir temas ou estilos de obras anteriores. "Já tenho ideias para os próximos livros e todos são bastante diferentes entre si. Você está lendo Jantar Secreto. Se gostar dele, ótimo. Mas precisa saber que os outros livros não têm nada a ver com ele. Cada obra segue um caminho completamente diferente. Tenho essa necessidade de mudar a cada livro. É uma característica minha. Explorei uma forma de escrever e depois quero experimentar outra."

O escritor afirmou que essa disposição para sair da zona de conforto também se estende ao trabalho no audiovisual. "Fiz Bom Dia, Verônica, uma série da Netflix com três temporadas, que até hoje é uma das produções brasileiras mais lembradas da plataforma. Depois fui convidado para escrever Beleza Fatal, a primeira novela produzida para o streaming."

Segundo ele, o formato exigiu uma lógica de produção diferente daquela tradicionalmente adotada pelas novelas da televisão aberta. "Era outro desafio: como fazer uma novela com menos capítulos e totalmente escrita antes da estreia, sem a possibilidade de acompanhar a reação do público para ampliar um personagem ou diminuir outro, como acontece na televisão aberta?"

Ao resumir sua postura diante da carreira, Montes afirmou que continua motivado justamente pela oportunidade de enfrentar experiências inéditas. "Continuo sendo alguém que gosta de aceitar desafios. Fazer apenas aquilo que já sei fazer não me interessa."

A ampliação do público

Bom Dia, Verônica e Dias Perfeitos são duas das adaptações da obra de Raphael Montes que ajudaram a torná-lo ainda mais reconhecido nacionalmente. Ao avaliar o impacto das adaptações para o streaming e a televisão, ele afirmou que o principal efeito foi a ampliação do alcance de seu trabalho, tanto em relação ao perfil dos leitores quanto à diversidade de públicos que passaram a acompanhar sua produção.

O escritor relembrou que, no início da carreira, enfrentava resistência por conta da idade e também por escrever literatura brasileira. "Publiquei meu primeiro livro aos 22 anos e lembro de ouvir muita gente dizer: 'Não quero ler porque ele é muito novo'. Também havia quem dissesse: 'Não quero ler porque é um autor brasileiro'."

Hoje, Montes afirma perceber um público mais diverso. "Ainda tenho um público muito jovem — a maior parte dos meus leitores é formada por mulheres entre 16 e 25 anos —, mas cada vez mais pessoas acima dos 25, dos 30, dos 35 anos têm descoberto meus livros. Acho que A Estranha na Cama também vai contribuir para isso."

Segundo o autor, essa expansão também pode ser percebida fora do universo tradicional dos eventos literários, em situações cotidianas que mostram como seus livros vêm alcançando pessoas de diferentes contextos sociais. "É muito legal chegar a um hotel e encontrar a recepcionista lendo um dos meus livros. Ou entrar em um restaurante e descobrir que vários garçons participaram de um clube de leitura e já leram minhas histórias."

Para Montes, esse contato com leitores de diferentes perfis reforça uma convicção que sempre teve sobre o papel da literatura. "Isso me deixa muito feliz e muito orgulhoso, porque ajuda a desmistificar a ideia de que literatura é para poucos ou pertence a uma elite. Essa visão sempre me incomodou."

"Embora ainda existam pessoas que defendam uma literatura elitizada e excessivamente intelectualizada, eu acredito exatamente no contrário: literatura tem que ser para todo mundo."

Livros são como filhos: O lugar de cada um na carreira

Ao ser perguntado se enxerga seus livros como filhos, Raphael Montes respondeu de forma afirmativa. "Acho que é. Acho que é, sim." Para o autor, a comparação com filhos faz sentido: "Primeiro existe todo o período de gestação, que é muito parecido. Depois, quando o livro é publicado, ele vai para o mundo e passa a ter vida própria."

Na sequência, ao comentar se teria um favorito, o escritor disse que prefere enxergar cada obra por aquilo que ela representou em sua trajetória, já que cada uma lhe proporcionou experiências e conquistas diferentes.

"Cada um traz um tipo diferente de orgulho. Tem um que te orgulha por uma razão, outro por motivos completamente diferentes. Cada livro meu me trouxe alegrias distintas."

Montes afirmou que o percurso de cada título também foi diferente, tanto durante o processo de escrita quanto na forma como encontrou seus leitores. "Há livros que ficaram melhores do que eu imaginava quando comecei a escrevê-los. Outros ficaram piores do que eu esperava. Alguns chegaram a públicos que eu nunca imaginei alcançar. Outros eu gostaria que tivessem encontrado mais leitores e isso acabou não acontecendo."

Embora evite escolher um favorito, Montes reconhece que alguns livros ocupam lugares especiais por motivos distintos. "Agora, se eu pensar naquele filho que mais se parece com o pai, acho que esse é Jantar Secreto. É um livro de suspense, mas também tem um humor ácido e uma ironia que fazem parte da minha personalidade."

Dias Perfeitos, segundo ele, representa um marco em sua carreira: "Foi o livro mais publicado internacionalmente, pelo menos até agora, e foi ele que me permitiu viver exclusivamente da literatura. Como eu não teria um carinho enorme por esse livro?"

O escritor também destacou que cada obra acabou encontrando um público específico, ampliando seu alcance entre diferentes perfis de leitores. "O Vilarejo me trouxe um público leitor de terror que ainda não conhecia o meu trabalho. Mulher no Escuro aproximou um público muito jovem. Uma Família Feliz conquistou leitores mais velhos, muitas mães. Cada livro acaba chegando a um lugar diferente e conquistando pessoas diferentes."

Quais adaptações podem acontecer?

Os fãs e leitores de Raphael Montes sempre pensam: qual será a próxima adaptação de um livro dele? Questionado sobre qual de seus livros gostaria de ver adaptado, Montes foi direto: "Eu gostaria que todos fossem adaptados." Entre os títulos que ainda aguardam uma versão para o cinema ou a televisão, o escritor destacou que Jantar Secreto é, de longe, o mais solicitado pelos leitores. "Porque hoje ele é o meu maior sucesso."

Apesar da expectativa em torno do romance, Montes evitou antecipar qualquer novidade e desconversou. "Existem conversas...". O autor, no entanto, se mostra positivo: "Acredito que, a longo prazo, é bastante provável que todos os meus livros acabem ganhando algum tipo de adaptação."

Para Montes, esse movimento faz sentido porque amplia o alcance de suas histórias. "Isso me interessa muito porque vai ao encontro do que eu sempre busquei: alcançar mais leitores e mais espectadores. O audiovisual consegue chegar a um público ainda maior do que a literatura, e isso é algo que considero muito importante."

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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