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Gorillaz ressuscita os mortos — e a si próprio — em 'The Mountain'

Apesar de não ter um single no nível de seus clássicos, novo álbum do duo é o seu trabalho mais forte desde 'Plastic Beach' (2010)

27 fev 2026 - 11h21
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Após mais de 20 anos de carreira, o Gorillaz se encontrava numa encruzilhada. O álbum Cracker Island (2023) mostrou o grupo fictício relegado a coadjuvante na própria obra, com as músicas aparentemente ditadas pelo estilo dos convidados especiais. Damon Albarn, diretor musical do projeto, sabia que algo precisava mudar. O resultado é The Mountain.

Gorillaz
Gorillaz
Foto: Jamie Hewlett / Rolling Stone Brasil

O rumo do disco lançado nesta sexta-feira, 27, surgiu a partir de circunstâncias infelizes. Albarn e o ilustrador Jamie Hewlett, cocriador do Gorillaz, perderam seus pais num período curto de tempo. Sua jornada de luto os levou até a Índia, onde foram confrontados com uma visão cultural completamente diferente com relação à morte.

The Mountain é um álbum habitado por fantasmas. Albarn e Hewlett decidiram aproveitar contribuições de colaboradores já falecidos para seus trabalhos anteriores. Os rappers Proof (D12) e Truegoy the Dove (De La Soul), o baterista nigeriano Tony Allen, o ator Dennis Hooper, o ícone do pós-punk britânico Mark E. Smith (The Fall) e o cantor soul Bobby Womack: todos voltam à vida durante os 66 minutos de duração do disco.

https://www.youtube.com/watch?v=kJChWUcesJ4

Nada disso valeria a pena se as músicas fossem novamente ditadas pelo estilo dos colaboradores mais que o do projeto geral. Albarn resolveu essa questão ao abraçar um contexto geral inspirado em música clássica indiana, abalizado por contribuições de Anoushka Shankar, Amaan Ali Bangash Ayaan Ali Bangash. Como consequência, temos o trabalho mais forte do Gorillaz desde Plastic Beach (2010).

Isso não era aparente pelos singles. As canções de trabalho têm suas qualidades, mas funcionam mais como parte de um todo do que separadas. Quando estão nesse contexto coletivo, brilham intensamente.

Acertos — e vacilos

"Orange County" soa como uma versão mais alegre de "On Melancholy Hill", clássico do Gorillaz. A mudança de batida em "The Manifesto", quando muda da parte do rapper argentino Trueno para o verso de Proof, não soa estranha em The Mountain porque tudo ocorre no universo musicalmente onívoro do grupo. As letras de ambos até resumem a temática do álbum. Enquanto o primeiro rima sobre o dilema existencial relacionado ao que acontece após a morte e a necessidade do ser humano viver em harmonia com seu entorno, o segundo representa o aspecto implacável da natureza, no qual um ser humano precisa apelar para a violência na luta para continuar vivo.

Proof rima:

"It's all reality, beefin' with your blocks

Got you creepin' with your glock, now you sleepin' in a box

No one can convince the invincible to be sensible

Pits in the principal, my pistol won't miss you all"

("É toda realidade, tretando com suas quebradas

Te pegou de surpresa com sua glock, agora você dorme numa caixa

Ninguém pode convencer o invencível a ser sensato

Buracos no diretor, minha pistola não vai errar nenhum de vocês")

https://www.youtube.com/watch?v=6JIv1l96zN0

Os destaques ficam para as dançantes "Delirium" - que conta com a participação de Smith - e "Damascus", uma parceria com o cantor sírio Omar Souleyman e o rapper americano Yasiin Bey. Ambas as canções evocam a energia dos tempos áureos do Gorillaz.

Nem tudo é perfeito. "The Happy Dictator", uma colaboração com o Sparks, é prejudicada pelo fato que o duo de art rock formado pelos irmãos Russell e Ron Mael tem um estilo tão particular a ponto de dominar a sonoridade de tudo. A canção tem seu charme, mas parece fora de lugar no álbum.

Pulga atrás da orelha

Ao fim da audição, o ouvinte fica com aquela sensação agradável de ter escutado algo bem pensado e coerente. Entretanto, resta uma pulga atrás da orelha. O Gorillaz construiu sua reputação internacional através de seus clipes icônicos. É uma banda de singles que revolucionou a música pop do século 21 com canções tão memoráveis quanto o aspecto visual do projeto.

E nisso retorno ao problema já mencionado. Nenhum dos singles tem, sozinho, a mesma potência de "Clint Eastwood", "Feel Good Inc." ou "Stylo". É irracional exigir isso? Talvez, especialmente ao considerar que o Gorillaz existe há quase 25 anos e nenhum artista consegue se manter vital por tanto tempo.

Mesmo assim, há uma ambição presente em "The Mountain" que sugere ao menos um desejo por parte de Damon Albarn e Jamie Hewlett em continuarem vivos artisticamente. Assim como ajudar a manter a memória de seus companheiros ao longo dos anos forte através da música do grupo. Seria mais justo mudar a percepção do Gorillaz para uma banda de álbuns a partir de agora? Talvez.

https://open.spotify.com/album/1RvJmGd47lKS4XMXs9j8hD

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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