Raiva contra Virginia e Neymar envolve fama, política e uma síndrome venenosa
Influenciadora e jogador vivem um momento delicado na exposição pública
Sabe o que é a Síndrome do Caranguejo?
Antes de abordar este fenômeno social tão intrínseco ao brasileiro, é importante destacar os últimos acontecimentos a respeito de Virginia e Neymar, duas das maiores celebridades do Brasil.
A influenciadora postou um textão em resposta às vaias e ao coro de xingamento (“ei, Virginia, vai tomar no…”) que recebeu ao assistir à partida da Seleção contra o Panamá.
Disse que sempre foi “julgada” por tudo o que fez e se sentiu “acuada”. “Eu também me canso. Eu também tenho dias em que dói.”
A hostilidade contra Virginia acontece por motivos evidentes.
A insistência dela em anunciar casa de aposta com cachê milionário enquanto a grande maioria dos famosos cedeu à pressão das redes sociais e desistiu.
Sua recente separação de Vini Jr., um namoro que nunca empolgou nem teve o apoio dos torcedores do Brasil e, pior, sempre foi visto como marketing pessoal.
A contratação dela como repórter especial do ‘Domingão com Huck’ na Copa, insistindo em acessar o universo do futebol, onde o machismo ainda prevalece, assim como o desprezo a ‘intrusos’.
A ostentação diária de sua riqueza. Os admiradores enxergam inspiração e recompensa pelo trabalho. Seus críticos veem excesso, distanciamento da realidade da maioria da população e desprezível espetáculo de consumo.
No caso de Neymar, a revolta pela convocação está concentrada na classe jornalística, e não no povão.
A imagem do jogador está contaminada por questão política. Ele é ou foi apoiador de Jair Bolsonaro, enquanto a maioria da imprensa em geral, incluindo a esportiva, tem pensamento ideológico à esquerda.
Há, ainda, quem tenha a impressão de que ele e seu pai ‘mandam’ na cúpula do futebol do país. Concentração de poder não vista em outros ídolos da mesma estatura e que gera um ranço por suposta onipotência.
Muitos que defenderam sua não convocação teriam agido motivados por sentimento punitivista e não com preocupação genuína com a condição física dele.
Mas a aversão contra Virginia e Neymar tem também outra origem. Chegamos à Síndrome do Caranguejo citada no começo do texto.
É uma metáfora que descreve o comportamento de grupos que tentam impedir a ascensão de indivíduos que se destacam.
O termo surgiu da observação de caranguejos presos em um balde: quando um deles tenta escapar, os demais o puxam de volta para baixo, impedindo sua saída.
Na vida prática, o fenômeno é associado à inveja, ao ressentimento e à resistência ao sucesso alheio.
“Fazer sucesso no Brasil é uma ofensa pessoal”, afirmou o maestro e cantor Tom Jobim. Usada recorrentemente, a declaração resume o sentimento que envenena boa parte da população.
Há sempre uma torcida contra, uma crítica meramente maldosa, um ressentimento maldisfarçado, um prazer em testemunhar a desgraça de quem ousou subir um degrau a mais.
Virginia e Neymar representam a realização dos sonhos que a maioria dos brasileiros jamais vai conseguir. Para muitos, isso é um tapa na cara.
E, por isso, eles mereciam sofrer, como se fosse um pedágio a pagar por irem tão acima da maioria e ressaltado a derrota de quem ficou pelo caminho.
Isso não significa que toda crítica seja inveja, nem que figuras públicas estejam acima de questionamentos legítimos.
Mas há uma evidente diferença entre discordância fundamentada e implicância automática.
Ao ler o desabafo de Virginia, conclui-se que a pinçada de muitos caranguejos ao mesmo tempo pode ser extremamente dolorosa. Um preço alto a pagar por ser quem se é.
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