Demanda abre as portas para desenhos brasileiros
O aumento de canais a cabo que exibem animações para atrair a atenção das crianças e o surgimento de novas mídias para veiculação de desenhos têm seus efeitos colaterais.
Tanto que produtoras independentes intensificam a procura por parcerias estrangeiras para investir e conquistar público em outros países. Os números já começam a aparecer: atualmente, 12 desenhos nacionais estão em fase de produção nessas condições.
E outros 40 já dão os primeiros passos para saírem do papel. Com isso, é possível imaginar que, no futuro, animações nacionais ganhem destaque e ajudem a dar credibilidade aos desenhos brasileiros.
O que já acontece com o infantil Princesas do Mar, co-produção da Flamma Filmes com produtoras na Austrália e na Espanha. "Já vendemos para 47 países, entre eles, a Alemanha, Suíça, Itália e França", comemora Reynaldo Marquezini, diretor da empresa.
Vários fatores contribuem para que as animações fiquem em alta a partir deste ano. O mercado de desenhos movimenta, atualmente, cerca de US$ 51 bilhões no mundo.
Por isso, países da Europa e da Ásia se sentem cada vez mais motivados a investirem na área. E, com o avanço tecnológico, o custo de produção vem caindo gradativamente.
"Atualmente, dá para fazer coisas legais com softwares bem básicos", garante Maurício Ricardo, que se tornou conhecido por suas animações no Big Brother Brasil 9 e no Esporte Espetacular.
No caso de co-produções, a despesa pode ser ainda menor, já que cada país tem sua moeda e preços de mão-de-obra distintos. "Em nações como os Estados Unidos, meia hora de animação custa entre US$ 250 mil e US$ 600 mil. Na Índia, esse valor cai para US$ 70 mil", compara o consultor internacional Jacques Bensimon.
Jacques é um dos consultores que participam do Programa Internacional de Capacitação em Animação. Com inscrições abertas até o dia 6 de março, o PIC é fruto de uma parceria entre a Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos e a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura.
A idéia é preparar pequenas produtoras para concorrerem no mercado exterior e, assim, fazer com que o país aproveite a abertura existente hoje nesse segmento.
E, para Jacques, os brasileiros levam vantagem diante de vários outros países. "O Brasil tem um charme diferente. E, além de ser novidade no mercado, é conhecido por sua criatividade na televisão", opina o ex-presidente do National Film Board do Canadá. O regulamento do PIC pode ser encontrado no site www.braziliantvproducers.com.
Para estabelecer uma co-produção internacional, os profissionais precisam de, inicialmente, três coisas: a idéia, uma produtora estrangeira interessada e um canal de veiculação em cada país envolvido.
Depois disso, é preciso adequar o projeto às leis fiscalizadas pelas agências reguladoras governamentais. André Breitman, produtor executivo da carioca 2D LAB, passou por todas essas etapas quando começou o projeto de O Amigaozão, desenho animado baseado na amizade entre um menino e um elefante, que co-produz com a canadense Breakthrough.
A produção nasceu de um dos projetos do Curta Criança, parceria entre o Ministério da Cultura e a TV Brasil. Na época, o pequeno clipe recebeu R$ 10 mil de incentivo.
E se transformou no embrião da série animada produzida atualmente com 52 episódios de 11 minutos, ao custo de US$ 6 milhões. "Fazer tudo sozinho é melhor, mas nós não teríamos de onde tirar essa quantia para que o desenho fosse 100% nacional", avalia André.
Apesar do entusiasmo de alguns, outros não têm tantas esperanças assim em relação ao futuro. Para Ziraldo, a iniciativa de ganhar o mercado é válida. Mas as produções nacionais dificilmente chegarão no nível de qualidade que, segundo o desenhista, as americanas conseguem atingir.
"Como você concorre com sucessos como Toy Story? Vão passar mil anos e ninguém vai produzir algo igual", opina. Já Maurício de Sousa mostra mais entusiasmo com as tentativas de produtoras daqui de buscar mercado exterior.
Isso porque, segundo ele, é a saída para alavancar a produção diante da falta de credibilidade que as animações nacionais têm por aqui. "Ou planejamos desenhos animados para o exterior ou continuaremos sabendo fazer, mas não podendo", opina o criador da Turma da Mônica.
Conteúdo universal
Os desenhos animados têm mais facilidade para ganhar o mercado internacional por sua universalidade. Primeiro, porque nem sempre as animações têm, em seus cenários, características específicas do local onde a história se passa.
Na maioria das vezes, inclusive, os personagens vivem em espaços fictícios, como as próprias Princesas do Mar, que moram embaixo do mar. E, também porque, com a dublagem, é mais fácil criar uma relação entre o desenho e seu país de exibição.
"Se Eu Fosse Você 2 pode ser um sucesso de bilheteria no Brasil, mas dificilmente atingiria os mesmos números em lugares onde o Tony Ramos e a Glória Pires não fossem conhecidos", compara André Breitman.
Reynaldo Marquezini concorda que essa seja uma das maiores vantagens ao se trabalhar com animações no mercado estrangeiro. E confessa que já se surpreendeu com a aceitação de Princesas do Mar em diferentes lugares do mundo. "Nossa série é exibida tanto em Israel quanto na Al Jazeera Children's Channel, do Oriente Médio", enaltece.
Instantâneas
# Além de contemplar as produtoras interessadas em animações, o PIC também terá, no segundo semestre, uma fase de capacitação para projetos de documentários.
# Muitos desenhos animados de sucesso não começaram sua jornada na TV. "Pucca" saiu de cartões virtuais que circulavam pela Internet e Pokemon teve origem em jogos eletrônicos.
# O preço que cada emissora paga por meia hora de exibição de uma animação varia de acordo com o país que está comprando. Na Alemanha, a média é de US$ 25 mil, enquanto na Hungria esse preço dificilmente ultrapassa os US$ 7.500. Um dos melhores valores é do Reino Unido, que gira em torno de US$ 50 mil.
# Poucos são os investimentos em animações nacionais voltadas para o público adulto. Jimmy Leroy, diretor de programação do canal pago VH1, deixa claro que a emissora tem interesse nesses produtos. "É um grande filão, mas poucos se aventuram", alerta.
# Mauricio de Sousa estuda uma parceria com alguma universidade para criar cursos de extensão para preparar novos animadores.
# A maioria das co-produções de animações brasileiras é feita com empresas canadenses.