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Como Flávio Bolsonaro conseguiu um cargo de R$ 13,5 mil na Câmara aos 19 anos?

Vaga foi ocupada pela então esposa do pai dias antes de ser substituída pelo filho; cargo não aparece em nenhum currículo público de Flávio

8 out 2026 - 13h16
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Resumo
Aos 19 anos, Flávio Bolsonaro ocupou um cargo comissionado na liderança do PPB na Câmara, em Brasília, substituindo sua então madrasta com salário atual de R$ 13,5 mil e ponto flexível. A função exigia 40 horas presenciais, mas coincidiu com a faculdade de Direito e um estágio que ele cursava no Rio de Janeiro, gerando dúvidas sobre a compatibilidade das rotinas. O vínculo, omitido em seus currículos públicos oficiais, foi confirmado por registros fiscais; sua assessoria não comentou o caso.

Antes de se tornar senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro começou sua trajetória no serviço público de uma forma que gerou questionamentos. Aos 19 anos, em dezembro de 2000, ele assumiu um cargo comissionado de assistente técnico de gabinete na liderança do PPB na Câmara dos Deputados, o mesmo partido pelo qual seu pai, Jair Bolsonaro, havia sido eleito para seu terceiro mandato.

Quem abriu a vaga para Flávio?

O que chama atenção não é apenas a idade, mas quem deixou o cargo para ele entrar. A então esposa de Jair, Ana Cristina Siqueira Valle, ocupava o mesmo posto na mesma liderança. Ela saiu uma semana antes de ser substituída pelo enteado. A contratação de parentes em cargos públicos só foi proibida pelo STF em 2008. À época, a movimentação era legal, mas a sequência familiar no mesmo posto chamou atenção.

O salário e as atribuições

O cargo de assistente técnico de gabinete é preenchido por indicação política. Os escolhidos costumam ser militantes do partido, servidores concursados ou apadrinhados de deputados. As normas da Câmara determinam que a função só pode ser exercida em Brasília, com jornada de 40 horas semanais. Pela função, Flávio recebeu R$ 56.548,63 apenas em 2001, equivalente a cerca de R$ 13,5 mil mensais em valores atualizados. Entre as atribuições do cargo estavam acompanhar reuniões plenárias, prestar assistência regimental a deputados e executar instruções do chefe de gabinete.

Foto: Mais Novela

Como ele teria conciliado tudo ao mesmo tempo?

O problema é que, no mesmo período em que ocupava esse cargo em Brasília, Flávio também declarava, em seus currículos, duas outras atividades no Rio de Janeiro: o curso de Direito na Universidade Candido Mendes, com chamada diária e frequência mínima obrigatória de 75%, e um estágio voluntário na Defensoria Pública, duas vezes por semana. As duas cidades estão a mais de 1.000 km de distância, ou quase uma hora e meia de voo.

A investigação da BBC News Brasil não encontrou uma explicação para como Flávio teria conseguido cumprir simultaneamente as exigências de presença física nas três frentes. A Câmara confirmou que o cargo não tem prerrogativa de ser exercido fora de Brasília.

Foto: Mais Novela

O controle de ponto flexível

Diferentemente da maioria dos servidores, Flávio não tinha registro de ponto diário. A frequência era anotada mensalmente por meio de uma folha enviada pela chefia do gabinete à direção da Casa, um modeloo flexível previsto nas normas internas, que abria margem para menos controle sobre a presença do servidor.

Cargo fantasma?

Apesar de ter ocupado o posto por quase dois anos, a experiência nunca foi listada em nenhum currículo público de Flávio, nem no LinkedIn, nem no site da Assembleia Legislativa do Rio. A existência do vínculo só pode ser confirmada pela declaração de Imposto de Renda entregue à Justiça Eleitoral, pelo portal de transparência da Câmara e pelo Diário Oficial da União.

Procurada pela BBC News Brasil, a assessoria de Flávio Bolsonaro se recusou a responder qualquer questionamento sobre o caso.

Foto: Mais Novela
Mais Novela
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