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CBLoL: assédio de ex-coach do Fla afastou dupla do cenário

Segundo denúncias, Guilherme "Kake" Morais assediou jovens e menores de idade enquanto era treinador da KaBuM

6 jan 2021
17h44
atualizado às 18h01
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O "exposed" - termo em inglês usado quando há exposição de informações íntimas de uma ou mais pessoas nas redes sociais - da última terça (5), a respeito do ex-treinador do Flamengo Academy, Guilherme “Kake” Morais, fez parte de uma série de outras denúncias no cenário de eSports.

Dentre as denúncias que geraram consequências para os envolvidos estão as contra o coach de LoL. O anúncio da demissão pelo Fla veio quase que em seguida da publicação feita por Marcos "Senshizada" Lacerda no Twitter. Na postagem, o jovem, hoje com 18 anos, relatou o assédio sofrido por Kake durante o período em que treinou na KaBuM. Na época, Marcos era menor de idade, tinha 15 anos, e fazia parte da reserva da equipe. Vale ressaltar que a idade mínima para competir no CBLoL é 17 anos.

Kake tinha um padrão de comportamento, de acordo com os dois depoimentos ouvidos pela reportagem. Durante os treinos e aulas, o coach pedia fotos íntimas, os conhecidos "nudes", de forma insistente. Caso o pedido não fosse atendido, os jovens poderiam sofrer retaliações e ameaças, com a possibilidade de corte dos projetos que ele liderava.

"Quando eu disse que não ia mandar nenhuma foto, ele disse que eu teria que passar a pagar R$ 100 a hora de aula no pós-game, e me tirou do time sem qualquer aviso prévio. Mas todas as vezes em que ele tinha me pedido pedido para mandar fotos foram pelo TeamSpeak e não por mensagem, então eu não tinha provas. Só a minha palavra. Mas aconteceu o mesmo com mais pessoas", contou Marcos em entrevista ao Terra Games.

Luiz "Sonyy1" Carlos, 22, amigo de Marcos, também foi uma das vítimas de assédio. Treinando junto com importantes nomes do cenário, como Tutz e Disave, Sonyy se recusou a enviar fotos sem roupas e foi cortado do time em seguida, da mesma forma que Marcos.

"Eu já tinha 18 para 19 anos, em 2018, na época em que isso aconteceu. Eu já estava com uma idade em que havia cobrança do meu pai em relação a trabalho. Depois que eu perdi a oportunidade, que era praticamente certa,  eu desisti de ser pro player. Eu não queria mais fazer parte disso", relembrou.

Os entrevistados ainda falaram sobre os casos de assédio não serem desconhecidos nos bastidores da KaBuM. Guilherme 'Kake' foi desligado em comum acordo da equipe em março de 2020, mas segundo Marcos e Luiz, um dos motivos seria a relação insustentável pelo comportamento dele.

Procurada pelo Terra, a KaBuM  não respondeu aos questionamentos, mas ressaltou o comunicado oficial emitido pelo time.

Reforçamos que repudiamos qualquer ato de assédio e desrespeito, sempre atuando instantaneamente. Apuramos toda e qualquer denúncia, tomando as providências cabíveis, além de auxiliar e orientar jogadores e staff. O profissional citado não faz mais parte da organização há cerca de um ano. A KaBuM! conta com um código de conduta, treinamentos e um canal oficial de denúncias, disponível 24x7. Encorajamos fortemente que as vítimas busquem as autoridades competentes e denunciem formalmente os fatos.

Traumas e denúncias

A publicação e prints publicados no Twitter também mostram mais jovens em situações semelhantes. No entanto, além do assédio sexual, que se repete várias vezes, inclusive em conversas com outros garotos menores de idade, há relatos de assédio moral. O depoimento de "Dutyz" publicado na rede social expõe agressões verbais e situações de humilhação.

"Eu tive uma experiência esse ano com essa pessoa que me deixou bastante traumatizado e que se não fosse eu procurar ajuda, eu estaria traumatizado até hoje. Em junho eu entrei na Academia de LoL, um projeto criado e administrado pelo Kake. Fiquei lá por 4 meses até um dia onde eu estava em uma call com ele e mais algumas pessoas, onde supostamente para assistir um VOD meu, no meio da análise ele começou a mudar o tom e me atacar, falou coisas como: 'Você é uma criança sem personalidade e precisa amadurecer muito', 'é isso que diferencia eu de você, você não tem personalidade, para mim você é um bosta de ser humano, 'tu é um padrãozinho da sociedade, e eu tenho nojo só de pensar em você", escreveu.

Assim como "Dutyz", Marcos também foi alvo de assédio moral por Kake. Nas aulas e treinos, o  coach em vários momentos o tratava com "falta de respeito". "Ele não ensinava de uma forma normal. Sempre tinha que humilhar", contou.

No entanto, mesmo após o caso que afastou os amigos do competitivo de League of Legends, ainda existia o medo de fazer a denúncia. Isso porque a influência de Kake no CBLoL parecia  imaculável.

"A gente pensava que não ia dar em nada. Nós somos dois 'randoms' [pessoas desconhecidas] e eu ainda era menor de idade. A gente não tem influência. Mas aí outros relatos também apareceram e, depois dessa onda de 'exposeds' das meninas, a gente sabia que tinha que falar. Mas já tinha decidido que ia fazer a denúncia há bastante tempo, só faltava oportunidade", afirmou Marcos.

Guilherme 'Kake' Morais, ex-treinador do Flamengo Academy
Guilherme 'Kake' Morais, ex-treinador do Flamengo Academy
Foto: Riot Games

Cenário tóxico

Dominado pela famosa "masculinidade frágil", o cenário dos eSports no Brasil não é tão diferente de outros tão tóxicos quanto o do futebol, por exemplo. Ambientes onde os homens detém o poder e o destaque. Poucas são as mulheres que conseguem se destacar. Inclusive, ocupam espaços considerados secundários ou competindo em torneios de menor expressão.

Mas não são apenas as mulheres de dentro do competitivo que sofrem com o machismo e a opressão. A onda de denúncias feitas nas redes sociais comprovam isso. Muitos depoimentos de assédio foram publicados por mulheres que tiveram algum tipo de relação com players e streamers, e todos tinham algo em comum: o medo de enfrentar a influência dos homens.

"Comemoramos muito a saída do Kake. Foi muito bom ver que a  nossa denúncia gerou um resultado. Doía muito a gente ver o nome dele só ligado a coisas positivas. Foi muito importante também ver outros assediadores sendo punidos. Essas coisas machucam pessoas e não podem ser deixadas de lado", revelou Marcos enquanto Luiz concordava.

"Todas essas denúncias deram até uma esperança no cenário, de que ainda tem gente que se importa de verdade com o LoL e com os eSports. Vou confessar que até me deu vontade de voltar a competir", acrescentou.
A reportagem tentou contato com o Flamengo e com Kake, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

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Fonte: Equipe portal
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