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Ape Out: o jogo mais interessante de 2019 até aqui

Game independente traz jogabilidade simples e desafiadora, visual cativante e trilha sonora de primeira

26 mar 2019
05h11
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Gorilas não são figuras tão presentes nos videogames, mas há pelo menos um deles que marcou o ideário dos jogos eletrônicos: Donkey Kong. No princípio, era o vilão: era o macaco que impedia o humano de encontrar a glória - ou, no caso, a Princesa. O jogo mais interessante de 2019 até aqui inverte essa lógica com primazia: em Ape Out, do desenvolvedor americano Gabe Cuzillo, o jogador é o gorila e os humanos são os inimigos. No lugar de uma princesa, um objetivo mais simples - e, paradoxalmente, também mais complexo: a liberdade.

O jeito mais fácil de entender como Ape Out está organizado é compará-lo a um disco de vinil de jazz dos anos 50: toda fase é um disco, composta de dois lados diferentes. Em cada lado, quatro "faixas" - ou níveis menores -, que servem como pontos de salvamento do jogo. Na primeira faixa de cada disco, o desafio é o mesmo: o jogador é um gorila enjaulado por humanos e que deseja escapar.

Para se defender, o primata tem apenas duas armas: correr e socar para longe os atiradores de tranquilizantes, que querem abatê-lo para retornar ao confinamento. Conforme os níveis vão passando, os atiradores vão ficando mais poderosos - alguns deles têm granadas, outros têm metralhadoras de tranquilizantes ou são menores, e portanto, mais rápidos que o gorila para correr pelo cenário.

Como se pode perceber, morrer é algo que acontece bastante - e nisso Ape Out se aproveita de um ensinamento de outros jogos recentes que fizeram sucesso para além do mundo indie, como Super Meat Boy e Celeste: a cada falha, o jogador retorna mais empolgado para superar o desafio. Quanto mais vezes tropeçar, mais satisfatória será a vitória no final da fase - ou do disco.

O que faz de Ape Out um jogo único, porém, não é só a sua jogabilidade - que é tão simples quanto divertida, não requerendo prática sequer a um novato jogador. Mas sim sua "atmosfera" - a comparação lá de cima com um disco de vinil de jazz dos anos 50 não é à toa: a trilha sonora do jogo é toda inspirada no bebop, ritmo dominante do gênero na época. Sua dinâmica varia conforme o jogador desfere golpes em adversários, o que dá a Ape Out uma aura musical, como se cada nível fosse um solo de bateria digno de nomes como Art Blakey ou Joe Morello (o baterista do quarteto de Dave Brubeck). Jogar Ape Out sem som é como chupar bala com papel.

O aspecto visual do jogo também é uma característica à parte. Primeiro, ao investir numa perspectiva superior, na qual o jogador tem uma visão "aérea" do cenário, Gabe Cuzzillo consegue fazer muito com poucos recursos.

Mas ele vai além: opta por uma paleta de poucas cores, mas todas elas fortes, e traços sem grandes floreios, que remetem ao estilo de animações do diretor de arte Saul Bass - o responsável por aberturas clássicas do cinema como Anatomia de Um Crime (esta embalada por trilha marcante de outro jazzista, Duke Ellington), Um Corpo Que Cai, Psicose e O Pecado Mora ao Lado. A sensação de se jogar Ape Out é como se fosse um jogo feito nos anos 50, em termos de estética - tal como Cuphead, outro hit indie recente, também se aproveita das animações dos anos 30 e 40.

Dito de tal forma, pode parecer que trata-se de um jogo que apenas pega elementos de outras ideias e as une. É mais que isso, claro: é uma mistura que tem personalidade própria - e que envolve muita liberdade artística para conseguir empreender, longe da jaula da indústria "tradicional". Homem primata, capitalismo selvagem, já diziam os Titãs.

Vale a pena?

Bastante. Com comandos acessíveis, visual cativante e trilha sonora de primeira, Ape Out é um jogo para morar na sua coleção de games para PC ou Nintendo Switch. Sua estrutura de fases permite partidas pequenas e alto fator "replay" - isto é, quando o jogador tem o desejo de voltar ao game para tentar melhorar seus resultados em uma fase específica. (Pontos ainda para Cuzzillo por ter elaborado uma "versão demo" de cada nível, mais difícil que a "versão final). É um jogo para se jogar por alguns minutos ou mergulhar por horas, como um longo solo de jázz (em pronúncia abrasileirada mesmo, como Carlos Lyra cantou).

Ape Out

Editora: Devolver Digital

Plataformas: Nintendo Switch e PC

Preço: R$ 28 (Steam), US$ 15 (Nintendo eShop)

Já disponível no Brasil

Estadão
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