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Escritor boliviano radicado no Brasil lança na França premiado romance "Seul, São Paulo"

O romance "Seul, São Paulo", vencedor do principal prêmio literário da Bolívia em 2019, acaba de ser publicado na França, pela editora Métailié. O autor Gabriel Mamani Magne nasceu em La Paz em 1987, fez mestrado em literatura comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado em Goiânia, onde mora atualmente.

5 ago 2025 - 08h32
(atualizado às 10h25)
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O romance "Seul, São Paulo", vencedor do principal prêmio literário da Bolívia em 2019, acaba de ser publicado na França, pela editora Métailié. O autor Gabriel Mamani Magne nasceu em La Paz em 1987, fez mestrado em literatura comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado em Goiânia, onde mora atualmente.  

Gabriel Mamani e seu novo livro Séoul, São Paulo
Gabriel Mamani e seu novo livro Séoul, São Paulo
Foto: © Arquivo pessoal/ Editions Metailie / RFI

"Seul, São Paulo" foi traduzido também para o hebreu e para o português. No Brasil, foi publicado pela Todavia em 2024. Este é o primeiro romance de Gabriel Mamani Magne, que já havia escrito livros infanto-juvenis. 

A inspiração para a obra veio quando ele chegou ao Brasil em 2016. A história navega entre a capital paulista, El Alto, também na Bolívia, La Paz e uma Seul simbolizada pelas canções de K-pop e pela comunidade sul-coreana de São Paulo. Para ele, mergulhar na cultura, na política e na academia brasileira foi uma experiência forte e importante.  

"Só o fato de acordar cada dia, falar uma palavra que não estava na minha língua original, que é o espanhol, já me gerava muitas questões, muitas perguntas. O que é legal é que quando você viaja, você é o outro, você vira o outro", explicou. 

A descoberta da comunidade boliviana em São Paulo, uma das maiores da cidade, foi um ponto de partida fascinante. O autor valorizou na narrativa as estratégias históricas de preservação cultural e a mistura linguística dessa comunidade.  

"Foi uma experiência para mim, bem legal. Me ajudou a entender mais a Bolívia do que o Brasil, porque só olhando de fora do país, só pensando a partir de outra geografia, você vai entendendo, você vai se identificando, você vai fazendo perguntas que de repente eu não teria feito se eu tivesse ficado na Bolívia". 

Romance de formação 

Os personagens principais do romance são dois primos: Tyson, que cresceu em São Paulo e volta para a Bolívia, e Pacsi, o narrador, que está fazendo o serviço militar. Os dois exploram as experiências do final da adolescência e descobrem o álcool, o sexo, as paixões. 

A história aborda questionamentos sobre identidade migrante, indígena, boliviana e linguística, sendo um romance de formação. Quando questionado sobre elementos autobiográficos da narrativa, Mamani é taxativo: "Na verdade, não. Seria legal que a minha vida fosse tão interessante quanto a vida dos personagens". 

Ele diz que o mercado editorial sempre busca histórias autobiográficas. "Acho que a editora brasileira, a editora boliviana, francesa, adorariam que eu fosse um migrante que trabalhasse nas oficinas de costura no Brasil, com uma história de superação, mas eu sou uma pessoa padrão. Fui fazer mestrado. Eu tenho a minha história pessoal que não se parece com isso". 

A crítica boliviana elogiou o livro por revelar uma "outra Bolívia", mas Mamani discorda dessa visão. Para ele, o país tem uma tradição cultural historicamente dominada pelas classes privilegiadas, assim como o Brasil e a França.  

"A Bolívia dos mercados, a Bolívia indígena, que é imigrante, é a oficial. Só que esses críticos moram numa bolha tão distante da realidade social que isso parece exótico para eles. Você vai para a rua, você vai para a Avenida Paulista, em São Paulo, tem bolivianos migrantes, tem bolivianos que falam português, tem bolivianos que escutam K-pop", argumenta. Ele considera uma vergonha que seu livro seja um dos primeiros a falar sobre essa realidade. 

Estilo ágil e divertido 

O estilo narrativo de Mamani é ágil e divertido, misturando poesia e falas coloquiais. "Eu penso que a parte mais difícil na tarefa do escritor é encontrar sua voz. Percebi que gosto muito da poesia, mas, ao mesmo tempo, eu gosto também das falas coloquiais, eu gosto do xingamento, eu sinto que a vida real é isso", indica.  

O escritor boliviano acredita que seu estilo foi potencializado pela vivência no Brasil. "Se você acrescentar a isso o que o português faz com o meu espanhol, a gente tem uma coisa bem dinâmica, uma coisa que é quase como uma dança", define. 

O prêmio e as traduções de "Seul, São Paulo" mudaram o dinamismo da carreira de Mamani. "O mundo literário tem estratégias de legitimação e, nesse sentido, o livro conseguiu uma validação da crítica boliviana que me abriu as portas", salienta.  

Ainda não publicano no Brasil, "Refém", o novo romance do escritor, já foi traduzido para o inglês. "Para mim, foi uma mudança de patamar e eu estou vivendo isso agora", ressalta. 

Literatura boliviana 

A literatura boliviana não tem ainda a mesma visibilidade que outras literaturas latino-americanas pelo mundo. Mamani acredita que isto está mudando graças à internet e às redes sociais, além do trabalho militante das editoras independentes. 

Essa pouca visibilidade é resultado, segundo ele, de "interesses econômicos e estruturas históricas", de um passado colonial, que "beneficia algumas literaturas e esconde outras". Por isso, ele convida os leitores a fazer um "gesto político" e "ler literaturas não canônicas, dando chances a autores de países aleatórios". 

Sobre seu futuro no Brasil, país onde "se sente em casa" e que foi fundamental para a sua carreira literária, Mamani acha que está chegando a hora de sair da zona de conforto e voltar a migrar.

"A minha relação com o Brasil já é tão confortável que eu estou começando a suspeitar. Como escritor, como pessoa, é bom ter novas experiências. O Brasil já é minha casa. Em algum momento, você tem que abandonar a casa, tem que sentir saudades da casa. Por enquanto, fico em Goiânia mais uns meses, mas depois acho que vou dar no pé".

Clique na foto principal para ouvir a entrevista completa.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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