'The History of Concrete': Como John Wilson misturou concreto, filmes da Hallmark e Michael Imperioli em um só documentário
O cineasta excêntrico fala sobre sua estreia em longa-metragem, 'The History of Concrete', e a missão maior por trás de seu trabalho
Em "The History of Concrete", John Wilson expande o estilo de sua série da HBO para criar um documentário ambicioso. Motivado por uma rachadura na fundação de seu prédio, o cineasta investiga o concreto e os ciclos humanos de repetição. A narrativa combina seu humor observacional e imagens do cotidiano a desvios imprevisíveis, conectando temas como oficinas de roteiro da Hallmark, viagens a Roma, uma conversa com o ator Michael Imperioli e o vínculo com um músico desconhecido.
Conversar com John Wilson é, de certa forma, muito parecido com assistir aos seus documentários. Com sua voz levemente anasalada e o sotaque característico de Long Island, Wilson percorre o cotidiano, oferecendo observações simples que também contêm percepções profundas sobre o mundo ao seu redor. Ele começa abordando um tópico e, então, faz uma mudança brusca de direção — uma "saída da rodovia", como ele mesmo chama — para um assunto totalmente diferente, antes de retornar ao ponto original, mas já munido de alguma comparação ou significado mais profundo.
Ele diz coisas como: "Se você passar tempo suficiente com alguém, algo vai acontecer. Algo acontece com todo mundo todos os dias". Ou: "Há muitos exemplos de pessoas que precisam de estrutura e ordem impostas às suas vidas como forma de dar sentido ao caos de possibilidades infinitas ao seu redor". Ou ainda: "Acho que a rejeição e a decepção podem ser, às vezes, as maiores motivadoras de todas".
É claro que alguns aspectos de uma conversa pessoal com Wilson são diferentes. Na conversa, ele não enquadra tudo na segunda pessoa, discutindo as coisas a partir de um "você" hipotético. Além disso, ao falar com ele, é possível ver as expressões que ele faz, algo que ele geralmente mantém fora de seu trabalho. Por fim, seus pensamentos não são pontuados por clipes do dia a dia gravados por ele mesmo — uma prática que ele descreve quase como uma compulsão e que, ao mesmo tempo, ilustra o que ele diz e frequentemente justapõe isso à loucura comum da vida.
No entanto, a combinação de todos esses elementos — as reflexões filosóficas, os comentários humorísticos, os clipes contrastantes e o tom de "pessoa comum" de sua narração — é o que tornou o trabalho documental de Wilson tão cativante, conquistando uma legião de fãs, uma série de sucesso na HBO e um novo filme, The History of Concrete, com lançamento previsto nos EUA para 18 de setembro e ainda sem data para chegar ao Brasil.
Depois de começar com curtas-metragens feitos praticamente sem orçamento no início da década de 2010, Wilson lançou How To With John Wilson em 2020, e a série rapidamente deslanchou; cada episódio começa abordando um tipo de tutorial, mas logo se desvia por caminhos inesperados. O episódio "Como Reciclar Suas Pilhas" (da segunda temporada), por exemplo, começa com a busca por um local em Nova York que aceite baterias de lítio usadas, mas logo envereda por temas como reencarnação, segurança de garis, recalls de brinquedos perigosos, a seção de itens gratuitos do Craigslist, o filme de Natal que ele fez no ensino médio, bandeiras nazistas, animais empalhados contrabandeados, depósitos de lixo radioativo e moradias para condenados por crimes sexuais, antes de, de alguma forma, retornar ao ponto de partida — as pilhas —, tudo isso em menos de 30 minutos.
The History of Concrete, que estreou no Festival de Sundance no início deste ano, funciona como uma versão estendida da série. Mas, sem as limitações do formato de 30 minutos, esse "pulo de um assunto para outro" — como Wilson descreve — assume uma forma nova e mais ambiciosa.
"Eu realmente apresentei o filme como um documentário bem convencional sobre concreto, com a ressalva de que ele tomaria rumos inesperados, como meu trabalho costuma fazer", diz. Ainda assim, logo surgiram problemas. "Apresentei a ideia para a A24 e eles disseram: 'Ah, sentimos muito, mas já temos um filme sobre concreto que será lançado em breve'." A própria ideia de existirem dois filmes sobre concreto já parece intrigante; Wilson, por outro lado, acha estranho que tal situação impeça um estúdio de aprovar um projeto. (No fim das contas, o filme foi adquirido pela produtora independente Bronxburgh e pela Central Pictures, de Josh Safdie.)
"É como dizer que só pode haver um filme de ação ou uma comédia romântica por ano", diz. "É ridículo." Como Wilson explica no filme, The History of Concrete surgiu devido a uma rachadura na fundação do prédio de apartamentos de que ele é proprietário em Ridgewood, no Queens.
"A maioria das pessoas simplesmente chamaria um empreiteiro quando a fundação de sua casa estivesse comprometida, mas decidi pegar alguns livros sobre concreto e tentar entendê-lo em um nível mais molecular, para descobrir por que esse material falha, afinal", diz. Ele começou a refletir sobre "a ideia de ciclos intermináveis de renovação", explica. "Eu queria passar um tempo investigando se o comportamento cíclico é algo que praticamos por um impulso primitivo — algo que nos mantém ocupados, produtivos ou coisa do tipo — ou se esse comportamento cíclico era uma muleta da qual precisamos nos libertar."
Essa investigação sobre o concreto, assim como sobre o nosso comportamento cíclico, levou-o a lugares surpreendentes. Um deles foi um workshop de roteiro de filmes da Hallmark — claro, era o único curso que o Sindicato dos Roteiristas oferecia na época, mas ele conseguiu encontrar algumas conexões bastante profundas. "Acho que os filmes da Hallmark são um exemplo dos nossos padrões cíclicos de consumo de entretenimento e de como gostamos de contar e assistir às mesmas histórias repetidamente", diz.
Há a Self-Transcendence 3,100 Mile Race, corrida a pé mais longa do mundo que ocorre anualmente no Queens, NY, fundada em 1997 pelo falecido guru espiritual Sri Chinmoy. Os participantes correm ao redor do mesmo quarteirão por 52 dias seguidos.
O filme também mostra Wilson fazendo viagens para fora de Nova York — a Roma, para ver a construção de concreto mais antiga existente, o que estoura o orçamento inicial do filme; a Las Vegas, para uma convenção da indústria do concreto; a Los Angeles, outra cidade do concreto, para onde ele já iria de qualquer forma, já que seu programa havia sido indicado ao Emmy; e a Ohio, para uma estadia de uma semana perto da estrada de concreto mais antiga dos Estados Unidos. (Embora a estrada seja curta e não esteja em ótimas condições, ela lhe proporciona a descoberta de um negócio que preserva as tatuagens de entes queridos falecidos.)
Há uma entrevista bem rápida sobre cinema (e concreto) com Michael Imperioli, estrela de Família Soprano e frequentador assíduo de Ridgewood, em NY, e uma entrevista mais longa com um sujeito que ganha a vida removendo chicletes das calçadas. Cada segmento amplia sua compreensão sobre o concreto, mas também sobre o mundo ao nosso redor.
"Gosto de escolher temas que são extremamente difíceis de tornar engraçados", diz Wilson. "Esse é o tipo de desafio que realmente me faz sair de casa. E, quando as pessoas me dizem que não consigo fazer algo, isso só aumenta a minha determinação."
Mais ou menos na metade do filme, um executivo diz a Wilson que muitos documentários hoje em dia focam em músicos, então por que ele não tenta centrar seu novo filme em um deles? Ele procura por algum tempo, sem sucesso, até encontrar Jack Macco, um dos personagens mais marcantes do filme.
"Certo dia, eu estava filmando buracos na rua, esperando que um deles se abrisse de vez, mas isso nunca acontecia", conta Wilson. Sentindo-se derrotado, ele decidiu passar em uma loja de bebidas. Lá, conheceu Macco, que estava distribuindo amostras grátis de tequila. "Comecei a conversar com ele; o papo fluiu muito bem e ele parecia muito aberto. E acho que isso geralmente é um bom sinal de que é alguém com quem quero passar meu tempo. Eu descobri que ele tocava em uma banda, e acabamos passando o ano e meio seguinte juntos."
Wilson acompanha Macco a apresentações em bares simples de Long Island e festivais em Montauk, conversando sobre a vida, paixão e perda. Embora esses trechos não abordem diretamente o concreto, em si, eles lhe ofereceram um contraponto à sua própria perspectiva. "Eu vivia em uma espiral de insegurança durante todo esse processo; o fato de [Jack] nunca ter duvidado de sua carreira — focando mais na emoção e na satisfação pessoal de se apresentar, independentemente de quão ruim fosse o show — era uma qualidade que eu sentia que me faltava. O otimismo dele era contagiante."
Grande parte do filme, assim como outros trabalhos de Wilson, concentra-se em cenas inusitadas e inesperadas que ele captura com sua câmera Sony FS5. Ao assistir a The History of Concrete, podemos imaginar que o cineasta possua algum sistema de arquivamento avançado — uma maneira de localizar rapidamente imagens de, digamos, um homem tocando um piano de brinquedo minúsculo na rua, ou de uma lata de cerveja que, anos atrás, acabou grudada na lateral de uma prateleira e nunca caiu. Na verdade, não existe tal sistema.
"Eu simplesmente filmava todos os dias, ia para casa e colocava todo o material bruto em uma única sequência cronológica", conta. "Depois, eu selecionava meus trechos favoritos e os reunia em outra sequência, sem qualquer critério de organização. Sempre que eu sofria um bloqueio criativo, ficava passando o vídeo para frente e para trás freneticamente; isso acabava despertando alguma ideia, porque eu pensava: 'Ah, essa imagem é ótima. Não quero perdê-la. Preciso usá-la em algum projeto, senão ela vai acabar esquecida em um disco rígido'."
Segundo Wilson, seu trabalho é a antítese do que a "classe dos criadores" filma com celulares — um fenômeno que ele chama, meio de brincadeira, de "uma praga" na cidade. "Eles filmam o próprio rosto em meio a um ambiente", diz. "Colocam-se no centro de algo, e acho isso um tremendo desperdício de imagem. Para mim, tudo parece igual."
A motivação por trás das filmagens altera o significado delas. "Muito do que eles produzem visa promover alguma coisa", diz. "Às vezes, quando estou filmando algo, as pessoas quase não conseguem assimilar que não estou promovendo nada; é apenas um vídeo caseiro, por assim dizer. Porque é algo que não se vê mais com tanta frequência."
Talvez, então, o trabalho de Wilson não seja tanto um projeto, mas uma missão de vida — uma rejeição, em formato analógico, da ideia de que o vídeo serve apenas para gratificação instantânea. "É uma prática que não tem realmente um começo ou um fim", afirma. "Estou sempre gravando sem saber para quê, e acho isso muito importante: não saber por que você está fazendo o que está fazendo. Porque simplesmente seguir seus instintos e sua intuição sobre o que você acha naturalmente interessante é algo bacana."
https://www.youtube.com/watch?v=w1ePX7HMPw8
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