'Seeds' não é apenas um documentário. É arte de protesto — e poesia
O documentário premiado de Brittany Shynes sobre fazendas centenárias e agricultores negros contemporâneos permite que você caminhe quilômetros com as botas de trabalho de outra pessoa. Só isso já o torna político — e belo
Você não encontrará listas de estatísticas nem aulas introdutórias de Sociologia em Seeds, o documentário premiado de Brittany Shynes sobre fazendas centenárias e agricultores negros contemporâneos. Não há avisos explicativos sobre a lenta erosão da cultura agrária nos Estados Unidos ao longo do último século, nem apresentações em PowerPoint sobre a história do trabalho com a terra do período da Reconstrução até os dias atuais; tampouco clipes de reportagens, depoimentos em estilo "cabeça falante" ou gráficos carregados que destrinchem o quão grave é o panorama geral. Os agricultores falam sobre viver em terras que pertencem às suas famílias há várias gerações, mas, a menos que você preste atenção a trechos de conversas aleatórias ou a algumas placas de lojas, não saberia que os personagens acompanhados vivem, respectivamente, na zona rural de Atlanta e no Mississippi. O documentário começa em um funeral de um morador local que não conhecemos — e nunca conheceremos.
O que Shynes privilegia nesse prólogo silencioso e experiencial não é o quem, o onde ou o porquê da morte dessa pessoa. Ela registra a comunidade se despedindo e, em seguida, volta sua atenção para uma mulher idosa e sua jovem sobrinha-neta, que dirigem de volta para casa após o enterro. A menina pergunta o que acontece depois que morremos. A mais velha fala sobre o Bom Senhor levá-la para seu lar celestial quando a hora chegar. Depois, as duas dividem alguns lanches. "Quer tirar um cochilo?", pergunta a idosa à criança. "Não", ela responde. "Eu também não", diz a mulher. Elas se aconchegam no banco de trás, com as cabeças apoiadas nos ombros uma da outra, enquanto a câmera se posiciona bem ao lado delas.
Filmado ao longo de nove anos em um preto-e-branco nítido e belíssimo, e se desenrolando como uma tarde de domingo entre o culto e o jantar, Seeds não quer encher sua cabeça de dados antes de exigir que você vá às ruas. Nascido como um projeto de pós-graduação de Shynes e cultivado com cuidado ao longo de muitos invernos e primaveras, o filme quer apenas oferecer uma colheita farta de momentos observacionais. Tratores passam lavrando a terra. Dois homens limpam o mato seco com queimadas controladas. Um agricultor octogenário, Willie Head Jr., faz uma pausa no trabalho diário para comprar óculos, após ter feito cirurgia de catarata meses antes; o fato de ele insistir, com relutância, em pedir opções cada vez mais baratas dá uma noção de suas dificuldades financeiras.
Outro personagem, Carlie Williams, mima seus netos e bisnetos, falando com orgulho de todos viverem em suas terras. Ele também não hesita em dar uma bronca em um burocrata anônimo do Departamento de Agricultura dos EUA por causa dos pagamentos de subsídios que nunca chegam aos agricultores negros — ainda hoje o principal exemplo da ineficiência da burocracia, das políticas raciais desequilibradas e da velha e conhecida hipocrisia. (É uma referência à promessa do presidente Joe Biden de liberar US$ 2 bilhões em pagamentos diretos a comunidades agrícolas minoritárias; e podemos garantir que esse retrato daqueles que deveriam se beneficiar da medida não favorece em nada aquela administração.)
A política entra de lado, por meio de uma longa conversa entre Williams e outros moradores da cidadezinha em frente a um mercado, e depois de forma direta, em uma manifestação diante da Casa Branca por causa desses repasses que nunca apareceram. É impossível não trazer à tona toda a história do Sul dos EUA e de seus cidadãos negros ao observar imagens de enormes fardos de algodão e discussões sobre a tutela de terras que pertencem a essas famílias desde o fim do século XIX. Ainda assim, Seeds não quer cutucar nem provocar. Ele quer apenas registrar — e permitir que você caminhe quilômetros com as botas gastas, salpicadas de lama, desses homens e de seus entes queridos. O tom não é nem melancólico, nem ingenuamente otimista, mesmo quando o filme celebra o senso de família e comunidade entre esses sulistas. Shynes oferece espaço para que você entre no mundo dessas pessoas comuns, no trabalho e em casa, dando-lhes a chance de contar suas histórias, expressar ansiedades sobre herança geracional ou simplesmente deixar que os longos planos silenciosos de sua rotina falem por si, como prova de como resistiram ao longo das décadas.
Não é, em outras palavras, um filme com uma agenda — a menos que você considere como agenda a geração de empatia e o ato de conhecer pessoas que raramente recebem tanto tempo e espaço sem filtros na tela, seja no cinema de ficção ou, francamente, fora dele. Ainda assim, Seeds é, em seu coração mais fértil, uma obra de arte de protesto e ativismo político por meio da pura poesia. Atenção é necessária. Em certos momentos, você sente como se estivesse assistindo a um memorial de um modo de vida que corre o risco real de desaparecer. Mais importante, sente que está vendo a vida em si, se desenrolando em toda a sua glória, tristeza, minúcias e momentos de celebração — e é a graça com que Shynes apresenta tudo isso que provoca e comove. Vencedor do Grande Prêmio do Júri de Documentário dos EUA em Sundance no ano passado, e exibido extensamente no circuito de festivais ao longo dos últimos 12 meses, Seeds agora estreia uma temporada em salas no Film Forum, em Nova York. Que ele se espalhe pelo vento e chegue ao resto do país o quanto antes.