Olivia Wilde entrou na sua fase 'não estou nem aí'
Após um período afastada dos holofotes, a atriz e cineasta retornou à cena pública neste verão com dois filmes de sucesso: 'O Convite' e 'I Want Your Sex'. Ela fala sobre seu renascimento criativo e pessoal
Após um período de afastamento motivado por crises pessoais e profissionais, Olivia Wilde vive um renascimento criativo no cinema. Marcando uma fase mais autêntica e despretensiosa, a artista se destacou no Festival de Sundance com dois projetos aclamados sobre relacionamentos: o longa I Want Your Sex, de Gregg Araki, e a comédia O Convite, que ela dirigiu e estrelou ao lado de grande elenco. O sucesso dessas obras consolida sua maturidade artística e abre caminho para seus novos trabalhos.
Olivia Wilde seria a primeira a admitir que não entende nada de agricultura. Mas, recentemente, a atriz que se tornou cineasta conversava com um amigo quando surgiu o assunto do pousio — a prática de deixar a terra descansar. "É quando os agricultores dão uma pausa de um ano e o solo é revolvido", explica. "Ele volta a ficar rico em nutrientes. Ouvi meu amigo descrever a necessidade artística de dar um tempo e deixar tudo se renovar." Ela faz uma pausa. "Depois do que passei, eu poderia ter simplesmente voltado à ativa imediatamente. Mas tirei um tempo para revolver o solo."
Claramente, o tempo que Wilde passou afastada valeu a pena, transformando 2026 em um ano maravilhoso para a sua criatividade. Tudo começou no Festival de Sundance, em janeiro, com a estreia não de um, mas de dois projetos de Wilde sobre amor, sexo e o campo minado emocional dos relacionamentos modernos.
O primeiro foi I Want Your Sex, o trabalho mais recente do diretor cult Gregg Araki (Mistérios da Carne), centrado em um relacionamento de BDSM sem restrições entre uma artista performática — interpretada por Wilde — e seu assistente muito mais jovem (Cooper Hoffman).
https://www.youtube.com/watch?v=kjkTmTmC1iA&vl=pt-BR
O segundo foi O Convite, um remake do filme espanhol de 2020 Sentimental, sobre um jantar entre dois casais que sai dos trilhos. Wilde dirigiu essa comédia de costumes e atua ao lado de Seth Rogen (O Estúdio), Penélope Cruz (Mães Paralelas) e Edward Norton (Asteroid City).
https://www.youtube.com/watch?v=BxUAprjqbuw
O Convite chegou aos cinemas brasileiros em julho, e a O2 Play anunciou que I Want Your Sex será disponibilizado em outubro. Ambos são responsáveis por recolocar Wilde em uma posição de grande destaque. Mais importante ainda: ambos representam uma espécie de renascimento para a artista. Wilde não apenas se recuperou de crises de imagem pública — um divórcio conturbado; fofocas e julgamentos sobre o relacionamento seguinte, com Harry Styles; rumores de tumultos nos bastidores de seu segundo longa como diretora, Não Se Preocupe, Querida (2022) —, mas também retornou com força total, entregando uma dobradinha que marca os melhores trabalhos de sua carreira.
"Acho que o que você talvez perceba na tela, em ambos os papéis, é uma verdadeira atitude de 'não estou nem aí'", diz Wilde, rindo. "O tipo de vulnerabilidade necessária para O Convite, em particular, não teria sido possível se eu não tivesse levado um tombo daqueles."
Wilde nunca tinha visto o filme original no qual O Convite se baseia; ela havia recebido o roteiro de Will McCormack e Rashida Jones, contratados para escrever uma nova versão em inglês da obra. Ela acabara de passar um ano viajando, lendo muitos livros, assistindo a muitos filmes e "deixando a poeira baixar". Inicialmente, Wilde não tinha certeza se voltaria a atuar, mas aceitou participar de um episódio de O Estúdio — a comédia sobre o mundo do entretenimento criada por seu amigo Seth Rogen para a Apple TV — e, em seguida, do filme de Araki. Esses dois papéis — um sendo uma paródia de si mesma como uma egomaníaca, e o outro uma artista sensual que agia como "o diabo no meu ombro" (vagamente inspirada na Madonna da era Na Cama com Madonna, 1991, segundo ela) — ajudaram-na a superar uma certa insegurança que sentia diante das câmeras no passado.
Ainda assim, quando O Convite chegou às suas mãos, Wilde não queria estrelar o filme; ela queria dirigi-lo. Viu nele a oportunidade perfeita para realizar vários desejos de sua lista de metas no cinema: desde filmar sequencialmente em película de 35mm até "ter a minha experiência à la Sidney Lumet: um único ambiente, ensaiar aquela droga e deixar a coisa evoluir conforme avançamos".
Ela imediatamente convidou Rogen para interpretar Joe, um ex-músico ácido casado com a ansiosa Angela. Norton, que em certo momento cogitara refazer Sentimental, disse a Wilde que faria qualquer coisa para interpretar Hawk, o vizinho com uma pegada "New Age". Para o papel da esposa dele, uma terapeuta chamada Piña, Wilde pensou em Cruz, que ela sempre considerou uma comediante de primeira linha. O quarto papel mostrou-se mais complicado. Quando um ator que estava cotado para viver Angela desistiu, Wilde começou a sugerir várias candidatas a Rogen e Norton.
Foi meio que o meu 'foda-se' para todas as vezes em que senti que fui forçada a ser um objeto de desejo.
"Nós três mantínhamos um grupo de mensagens de texto", conta Norton por telefone, em uma entrevista separada. "[Olivia dizia:] 'E quanto a essa pessoa? Ela não é ótima? Deveríamos ver se ela topa!' O Seth e eu ficávamos pensando: 'O que está acontecendo aqui?' Até que finalmente dissemos a ela: 'Olivia, a resposta óbvia é que você deveria interpretar a Angela. Não é só o melhor papel da sua carreira — você é perfeita para ele'."
Wilde concordou, relutante, em assumir a função dupla — uma decisão da qual hoje ela se alegra muito. "Eu me senti... liberta", diz. Em parte, isso aconteceu porque Angela — uma moradora urbana na casa dos quarenta anos, tensa e desesperada para impressionar seus vizinhos sexualmente aventureiros — acabou sendo, ironicamente, um "papel fisicamente libertador. Foi uma espécie de 'que se danem' para todas as vezes em que senti que fui forçada a ser um objeto de desejo". Em parte, também, porque, mesmo com a pressão de desempenhar dois papéis distintos no mesmo projeto, "ao estar tão imersa na energia das atuações, eu conseguia sentir melhor quando estávamos no caminho certo. Acho que teria sido mais difícil perceber isso estando atrás da câmera".
Interpretar Angela também ofereceu a chance de transformar O Convite em um projeto muito pessoal — de criar um espaço onde ela e seus colaboradores pudessem não apenas ser engraçados, mas também verdadeiramente vulneráveis.
Antes das filmagens, Wilde reuniu seus colegas de elenco e os roteiristas, e o grupo passou duas semanas trabalhando o material. Esse processo envolveu muitas conversas sobre suas próprias experiências, medos e arrependimentos, e sobre o que constitui um relacionamento saudável a longo prazo depois que a euforia inicial do romance se transforma em algo mais complexo. Sempre que alguém trazia uma ideia interessante, Jones e McCormack começavam a incorporá-la ao roteiro. Quando a produção começou, eles já haviam transformado radicalmente O Convite em algo que parecia menos um remake e mais uma obra totalmente autoral.
O filme resultante foi aplaudido de pé em Sundance e gerou uma disputa de lances que terminou com a A24 comprando O Convite por US$ 12 milhões. (A Magnolia adquiriu I Want Your Sex logo após o fim do festival.) Wilde insistiu em um lançamento nos cinemas como parte de seu acordo, suspeitando que as digressões extremamente francas e engraçadas do filme — abordando desde o mal-estar da meia-idade até os benefícios do pegging — funcionariam melhor diante de um público reunido no escuro da sala de cinema. Ela provou estar certa quando O Convite acabou se tornando um sucesso inesperado após chegar aos cinemas naquele verão.
"Compartilhar essas conversas em um fórum público é algo que ainda nos deixa um pouco nervosos", diz Wilde. "Mas esse nervosismo é o que torna tudo divertido."
Fica claro que, mesmo que O Convite não tivesse feito tanto sucesso quanto fez, o filme certamente abriu novos caminhos para Wilde. Ela já está preparando seu próximo longa em Londres; reluta em entrar em detalhes, limitando-se a dizer que, assim como O Convite, é uma comédia. E o projeto reflete o momento atual de sua vida, à medida que ela transita para o que parece ser um segundo ou talvez um terceiro ato.
"Miles Davis não disse que 'leva muito tempo para você aprender a soar como você mesmo'?", diz Wilde. "Acho que, no meu caso, sinto que amadureci e cheguei a um ponto em que entendo o que faço, e estou me divertindo muito mais com isso. Me sinto muito tranquila em relação a isso. Só espero poder continuar."
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