'O Primata' é terror em que o animal tem mais QI que as pessoas
Novidade é estrelada por Troy Kotsur, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por CODA - No Ritmo do Coração
Estudos já comprovaram que chimpanzés podem ser animais violentos, capazes de ataques brutais — sobretudo quando são tirados de seu habitat natural, colocados em ambientes domésticos e tratados como brinquedos exóticos. O cinema, claro, já se aproveitou desse medo ancestral: basta lembrar o choque da sequência do chimpanzé em Não! Não Olhe! (2022), de Jordan Peele. Mas O Primata, que chega aos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (29), leva essa premissa ao limite: aqui, o animal não é apenas agressivo, mas praticamente um psicopata, com uma crueldade que parece ir além do instinto e flertar com o sadismo.
A proposta do diretor Johannes Roberts (Medo Profundo), a partir do roteiro que co-escreveu com Ernest Riera (Destinos à Deriva), deixa isso claro desde o primeiro minuto. Não há mistério ou construção gradual: o espectador não está diante de um "bicho fora de controle", mas de um assassino em ação. O macaco Ben faz sua primeira vítima de forma chocante, como se o filme já avisasse: "é isso aqui mesmo". Em seguida, a narrativa retrocede algumas horas para mostrar como aquele chimpanzé de estimação chegou a tal ponto. E a resposta, embora envolva a raiva que contamina o animal, passa por algo ainda mais preocupante, que acaba se tornando divertido: a estupidez generalizada dos adolescentes, incapazes de tomar qualquer decisão minimamente racional quando a situação começa a degringolar.
Na história, a universitária Lucy (Johnny Sequoyah, Dexter: New Blood) volta para casa nas férias e aproveita a ausência do pai (o vencedor do Oscar, Troy Kotsur, CODA - No Ritmo do Coração) para organizar uma festa na piscina. O problema é que Ben, o chimpanzé de estimação, surge irreconhecível e agressivo, transformando a festinha em pesadelo. A partir daí, o grupo de adolescentes tenta sobreviver ao ataque do animal — e, principalmente, às próprias escolhas ruins.
O cenário, como manda o manual do diretor, é limitado: uma mansão, uma piscina, corredores e quartos que deveriam sugerir conforto, mas que rapidamente viram um local de caça para nosso protagonista. Esse gosto por confinamento não é novidade na filmografia de Roberts. Mesmo com a vastidão do mar, seus filmes Medo Profundo (2017) e Medo Profundo: O Segundo Ataque (2019) funcionam como cápsulas claustrofóbicas, com personagens isolados diante de um tubarão: uma ameaça mais rápida, mais forte e mais preparada. Em Os Estranhos: Caçada Noturna (2018), o cineasta também aposta nesse aprisionamento, com uma família cercada por assassinos mascarados em um parque de trailers.
Agora, com O Primata, ele mantém essa lógica e entende bem o prazer cruel do "jogo de caça", filmando com objetividade e senso de espaço — algo essencial para o terror da situação funcionar. E Roberts é competente na mise-en-scène: ele explora bem os ambientes da casa, principalmente nas cenas da piscina, usa a iluminação escura para sustentar uma sensação constante de ameaça. A geografia é clara e a tensão nasce justamente da possibilidade de Ben surgir a qualquer momento para atacar suas vítimas.
O problema é o roteiro, que insiste em personagens burros demais para despertar empatia. Isso vira um tiro no pé e, ao mesmo tempo, que se torna seu grande diferencial involuntário, já que o que faz o filme andar é uma cadeia de burrices que o espectador acompanha rindo, mesmo quando devia estar horrorizado. Ou seja: o mistério passar a ser "quem vai fazer a próxima idiotice?".
No fim, O Primata funciona menos como um filme para dar medo e mais como um slasher de choque, que diverte pela estupidez humana — um terror em que o animal, ironicamente, é o único que parece ter algum QI em cena.