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'Nem Tudo é Paz e Amor' mostra o que ficou da revolução nos filhos da contracultura

Documentário de Betão Aguiar conta com nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção

27 ago 2026 - 11h25
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Resumo
O documentário "Nem Tudo é Paz e Amor", de Betão Aguiar, investiga o legado da contracultura brasileira sob a ótica dos filhos de seus grandes ícones, como Moreno Veloso e Sarah Sheeva. Longe da pura nostalgia, o filme revisita infâncias marcadas pela liberdade e pela quebra de tabus, expondo traumas, contradições e a busca por limites. A obra mostra como essa geração ressignificou a herança dos pais para construir caminhos próprios, revelando a complexidade de crescer em meio a revoluções.
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O que acontece quando uma geração decide que "é proibido proibir" e seus filhos precisam aprender a viver dentro dessa liberdade? É a partir dessa pergunta que o diretor Betão Aguiar constrói Nem Tudo é Paz e Amor, documentário que troca os protagonistas habituais da contracultura brasileira por aqueles que cresceram dentro dela. Os primogênitos Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto LeeAnelis Assumpção e outros entrevistados revisitam uma infância cercada por música, experimentação, comportamento libertário e personagens que ajudaram a transformar a cultura brasileira. Mas, em vez de simplesmente celebrar essa geração, Betão investiga o que restou dela em seus filhos: afetos, traumas, referências e também a necessidade de construir caminhos próprios.

'Nem Tudo é Paz e Amor' mostra o que ficou da revolução nos filhos da contracultura (Divulgação)
'Nem Tudo é Paz e Amor' mostra o que ficou da revolução nos filhos da contracultura (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

Essa escolha de perspectiva é o grande mérito do filme. Há algo especialmente interessante em ouvir pessoas que foram criadas sob valores que, para seus contemporâneos, pareciam completamente fora da curva. O que para os pais significava liberdade podia, para uma criança, significar ausência de referências conhecidas. Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, relembra, por exemplo, entre outros assuntos, a convivência com os pais andando nus pela casa. O relato não surge como condenação, mas como uma tentativa de compreender aquela experiência a partir da maturidade de quem hoje consegue reconhecer a nudez como algo natural e, ao mesmo tempo, perceber que liberdade também pressupõe limites.

São essas pequenas fricções que tornam o documentário mais rico: cada filho encontrou uma maneira particular de organizar o legado recebido. Sarah se aproximou da religião; Moreno encontra encanto na ciência; outros parecem buscar justamente aquilo que faltava naquele universo de permanente improvisação — como uma simples gaveta para guardar suas roupas, um sofá e uma mesa de jantar para uma simples refeição em família.

Betão, que é filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, não esconde a dimensão pessoal do projeto. Pelo contrário, sua própria experiência parece funcionar como ponto de partida para uma investigação que se amplia para toda uma geração. A ideia original, concebida ao lado da amiga de adolescência Jasmin Pinho, morta em 2020, ganha ainda uma camada de memória e homenagem.

O resultado, porém, não se limita ao exercício autobiográfico. Ao reunir diferentes vozes, o diretor percebe que não existe uma única maneira de ser filho da contracultura. Há encantamento, vergonha, orgulho, estranhamento, gratidão e ressentimento — às vezes tudo isso dentro da mesma lembrança. O filme entende que os filhos não precisam necessariamente rejeitar os pais para se diferenciar deles; podem também reconhecer aquilo que receberam e, ainda assim, decidir o que não querem carregar adiante.

A construção audiovisual reforça essa viagem ao passado sem transformar os anos 1970 em uma espécie de postal nostálgico. Entre os depoimentos, Betão utiliza fotografias, registros pessoais, músicas e cenas de filmes da Boca do Lixo, criando um diálogo entre a memória íntima dos entrevistados e o imaginário de um período em que a cultura brasileira parecia experimentar novas formas de existência. As imagens ajudam a transportar o espectador para aquele ambiente de psicodelia, sexualidade e ruptura, mas os relatos impedem que essa reconstrução seja idealizada.

Por isso, é especialmente importante quando o documentário expõe também as contradições internas daquele movimento, como acontece a partir do relato de Anelis Assumpção sobre seu pai, Itamar Assumpção. A promessa de liberdade da contracultura não eliminava automaticamente as desigualdades e os conflitos raciais que existiam fora — e também dentro — dela. É justamente a partir de questionamentos desse tipo que Nem Tudo é Paz e Amor ultrapassa a curiosidade sobre os filhos de artistas famosos e encontra sua questão mais universal. O documentário fala sobre herança familiar, mas também sobre a possibilidade de interromper heranças.

Os pais daquela geração lutaram para que seus filhos tivessem mais liberdade; esses filhos, décadas depois, podem usar justamente essa liberdade para escolher algo diferente. Talvez seja essa a ironia mais bonita do filme: a contracultura não deixou apenas uma geração de herdeiros, mas pessoas capazes de questionar aquilo que herdaram. Se a música insiste que somos como nossos pais, Betão Aguiar responde, com delicadeza, que não necessariamente. Podemos amar nossos pais, reconhecer suas revoluções e ainda assim seguir por outro caminho. Porque, afinal, compreender o passado também é descobrir que nem tudo era paz e amor.

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