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'Não queremos mais ser cota', afirmam organizadores do Festival Perifericu

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, fundadores defendem que pessoas negras, trans, indígenas e periféricas estejam não apenas nas telas, mas também nos espaços de decisão do audiovisual

2 set 2026 - 17h19
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Resumo
Em sua 2ª edição na Zona Sul de SP, o Perifericu exibe mais de 35 filmes e propõe mudar a visão sobre a periferia, superando estigmas de violência. Realizado pela Maloka Filmes com foco LGBTQIA+, o evento rejeita o papel de mera cota e defende o protagonismo periférico nas decisões do cinema nacional. Gratuito, o festival valoriza a vanguarda e a pluralidade das margens, oferecendo mostras escolares, cachês aos artistas e disputando a narrativa para afirmar a quebrada como centro cultural.

Durante muito tempo, quando a periferia apareceu no cinema brasileiro, foi principalmente associada à violência, à pobreza e à ausência. O Perifericu - Festival Internacional de Cinema e Cultura de Quebrada surge justamente para mudar esse imaginário. Mais do que apresentar filmes produzidos nas quebradas, o festival busca colocar esses territórios, seus artistas e suas comunidades no centro das decisões sobre como suas histórias são contadas.

'Não queremos mais ser cota', afirmam organizadores do Festival Perifericu
'Não queremos mais ser cota', afirmam organizadores do Festival Perifericu
Foto: Victoria Alves / Rolling Stone Brasil

Em sua segunda edição, o festival realizado pela Maloka Filmes acontece até o dia 6 de setembro no Jardim Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, e recebe gratuitamente uma programação dedicada ao cinema e às expressões culturais LGBTQIA+ e periféricas, com a exibição de mais de 35 filmes de diferentes regiões do Brasil e de países da América Latina.

Rolling Stone Brasil conversou com exclusividade com Rosa Caldeira e Nay Mendl, dois dos organizadores do festival ao lado de Well Amorim. Confira a conversa a seguir:

"Não queremos mais ser cota"

Rosa Caldeira começa o papo sendo contundente: "Estamos cansados de falar sobre violência e queremos valorizar as quebradas, periferias, comunidades e favelas também pela sua riqueza cultural, de comunidade, de vanguarda e dessa diversidade", afirma.

Para ele, a periferia deve ser entendida também como um espaço de criação, inovação e produção de conhecimento. "A quebrada é tecnologia social pura de empreendedorismo e criatividade e é isso que estamos trazendo para o centro com o festival."

A proposta passa também por questionar a maneira como o cinema brasileiro tradicionalmente seleciona, financia e reconhece seus realizadores. Segundo Caldeira, pessoas LGBT+, negras ou indígenas não devem ocupar esses espaços como uma espécie de cota, mas como parte central da construção do próprio circuito cinematográfico.

"Não queremos mais ser cota dentro dos espaços tradicionais do cinema ou nem sermos representados, seja na equipe curatorial, na direção artística ou nos filmes selecionados", explica. "No Perifericu, a lógica é outra: pessoas LGBT+, negras ou indígenas não são parte de uma cota, e sim a maioria, pois também são essas identidades que organizam o festival. E é apenas dessa forma que podemos mudar realmente o imaginário social sobre as quebradas. Afinal, para nós, a quebrada é o centro!"

Cinema feito a partir da quebrada

Essa mudança de perspectiva está no próprio conceito de curadoria do Perifericu. Para Nay Mendl, não basta que uma produção tenha a periferia como tema ou cenário. É necessário observar de onde aquela obra parte, quem está envolvido em sua realização e qual é a relação da equipe com o território.

Mendl também aponta uma diferença fundamental entre fazer um filme "sobre" a periferia e fazer um filme "a partir" dela. "O território não é apenas cenário ou objeto. Ele participa da construção da obra. As pessoas que vivem ali também podem estar envolvidas na produção, na narrativa, na linguagem e nas decisões", afirma.

A questão é também uma crítica à lógica histórica de produções que chegam a determinados territórios para registrar uma realidade e depois deixam a comunidade sem participação nos benefícios gerados por aquela representação. Para o Perifericu, a construção comunitária e o chamado aquilombamento são fundamentais para criar outras formas de produzir imagens e narrativas.

"Precisamos contratar e incluir a quebrada nas decisões narrativas que estão sendo feitas sobre ela", defende Caldeira. "Precisamos encontrar formas de retornar para a quebrada aquilo que é produzido a partir dela."

Para além da representatividade

O festival também questiona a expectativa de que artistas periféricos e pessoas trans sejam chamados aos espaços culturais apenas para falar sobre dor, violência ou identidade. Caldeira lembra que, muitas vezes, esses artistas são convidados a dar testemunhos sobre suas próprias experiências, mas raramente têm a oportunidade de discutir cinema e criação em seus próprios termos.

"A gente quase nunca é convidada para falar de cinema: o circuito abre a porta para o artista periférico e trans quando quer testemunho temático: conte da tua dor, explique o teu corpo, justifique a sua existência", afirma. "O que acontece é que a gente vira depoimento, simplesmente vira objeto."

Por isso, a curadoria do Perifericu não estabelece que os filmes selecionados precisem necessariamente tratar de questões LGBTQIA+. O critério está relacionado a quem produz essas obras e à relação que mantém com seus territórios.

"A nossa seleção reúne realizadores LGBT+ de periferia, mas não é uma mostra temática LGBT+. E isso é importante porque pessoas LGBT+ de quebrada não vivem uma vida de um único tema. A nossa vida é plural", explica Mendl.

Assim, a programação reúne histórias sobre família, morte, amor, futuro, educação, autoaceitação, racismo e preconceito, além de filmes que simplesmente tratam da experiência humana. A diversidade de temas também ajuda a desmontar a ideia de que determinados corpos só podem produzir narrativas sobre sua própria identidade.

Uma vanguarda produzida nas margens

Na segunda edição, o Perifericu selecionou 34 curtas-metragens das cinco regiões do Brasil. A curadoria foi realizada por Well Amorim, Stheffanny Fernanda e Izzi Vitório, três cineastas do cinema contemporâneo brasileiro.

Para Mendl, a diversidade dos filmes recebidos foi um dos aspectos mais importantes do processo. "Mais do que um filme específico me surpreender, o que mais me atravessou nesse processo foi perceber a quantidade e a diversidade dessa produção. Existe muita coisa acontecendo simultaneamente, e muitas vezes ela simplesmente não chega aos circuitos que tradicionalmente concentram o reconhecimento."

A própria noção de "periferia" também é ampliada. Não se trata apenas da favela localizada no Sudeste: existem periferias ribeirinhas, indígenas, do interior, de diferentes regiões brasileiras e também experiências periféricas fora do país.

Da mesma forma, não existe uma estética única. Mendl aponta que o cinema produzido nesses territórios incorpora linguagens como rap, slam, poesia, maracatu, funk, samba e reggae, além de formas comunitárias de criação.

"Quando essas linguagens entram no cinema, elas transformam o próprio cinema", afirma. "É por isso que eu considero o cinema periférico um cinema de vanguarda: ele não está simplesmente reproduzindo uma linguagem cinematográfica que já existe. Está misturando, tensionando e criando outras possibilidades."

Caldeira compartilha dessa visão e afirma que algumas das perguntas formais mais interessantes do cinema contemporâneo estão sendo feitas por pessoas trans, travestis, negras, indígenas e faveladas. Para ele, é necessário olhar para essa produção para além da ideia de representatividade.

"Existem realizadores, produtores e profissionais fazendo cinema de qualidade fora do circuito hegemônico, e existe também um público interessado nessas produções", afirma.

O território como espaço de cultura

A primeira edição do Perifericu aconteceu em 2022, depois de integrantes da Maloka Filmes circularem por grandes festivais de cinema no Brasil e no exterior. A experiência revelou não apenas como seus filmes eram recebidos, mas também como os próprios corpos periféricos e trans eram tratados nesses espaços.

"Era muito comum lidarmos com transfobia nas cidades e dentro da própria produção dos festivais, além de percebermos uma dificuldade muito grande desses espaços em lidar com corpos trans, pretos e periféricos", conta Mendl.

A resposta foi levar o festival para o próprio território. A primeira edição aconteceu de forma itinerante durante seis dias, passando pelo Capão Redondo, Jardim Ibirapuera e Piraporinha.

A escolha desses lugares também representa uma disputa pela narrativa sobre a região. Mendl lembra que o território chegou a ser associado, nos anos 1990, ao chamado "Triângulo da Morte", em razão dos altos índices de homicídio. O Perifericu procura apresentar outra possibilidade de leitura.

"Hoje, a gente quer disputar essa narrativa e mostrar esse mesmo território como um espaço de cultura, lazer, criação, potência e vida", afirma.

Para ele, o território não deve ser visto como um espaço vazio ao qual é necessário "levar cultura". Pelo contrário: manifestações como maracatu, samba, poesia e diferentes movimentos culturais já fazem parte da história dessas comunidades. "O cinema não é diferente. Ele já estava sendo construído aqui."

Cinema também é acesso

A descentralização do festival não acontece apenas simbolicamente. O Perifericu aposta na ocupação física dos territórios e na aproximação com públicos que normalmente enfrentam dificuldades para acessar o circuito cinematográfico.

"Para a periferia, ir ao cinema muitas vezes é caro. É caro sair de casa, pegar transporte, chegar a um shopping, pagar um ingresso e ainda conseguir levar a família", explica Mendl.

Nesta edição, o festival promove uma Mostra Escolar que levará filmes para mais de 800 estudantes dentro de escolas públicas, durante o horário de aula, acompanhados de mediações pedagógicas. A intenção é discutir temas como território, diversidade, direitos e futuro, mas também apresentar o cinema como uma possibilidade concreta de atuação profissional.

"A gente quer que esses jovens possam olhar para a tela e pensar: 'eu também posso fazer isso', 'eu também posso contar uma história', 'eu também posso ser artista'", afirma.

O festival também criou o Desafio Cine-Corre, uma maratona audiovisual voltada para moradores de periferias. Os participantes terão três dias para produzir um filme de até três minutos, gravado no Jardim Ibirapuera, a partir de desafios visuais e sonoros. A iniciativa prevê ainda premiação em dinheiro.

A remuneração é uma questão central para a organização. Nesta edição, os filmes selecionados recebem cachê de exibição — uma decisão que Mendl considera parte fundamental da proposta do festival.

"Para nós, pagar os artistas também é parte do que significa construir um festival periférico", afirma. "A gente quer que os filmes cheguem ao público, mas também quer que exista uma dignidade mínima para quem faz cinema neste país."

Um festival que não quer ser plano B

Embora tenha surgido a partir da percepção de que os grandes festivais não ofereciam espaço suficiente para determinados realizadores, o Perifericu não se coloca como uma alternativa temporária até que o circuito tradicional se transforme. "O nosso festival não é um substituto de ausência, ou seja, não é um festival de consolação até que os grandes melhorem", afirma Caldeira.

Para ele, mesmo que os grandes festivais se tornassem mais diversos, continuaria sendo necessário exibir cinema em bairros como Jardim Ângela, Jardim Ibirapuera e São Luís. "Democratizar a cidade também é pensar sobre isso. Cineclube na quebrada não deveria ser o plano B de nenhum festival."

Essa ideia resume um dos principais objetivos do Perifericu: não apenas inserir determinados filmes em um circuito já estabelecido, mas questionar quem constrói esse circuito e quais lugares são reconhecidos como legítimos para a produção e circulação cinematográfica.

"Quem escolhe os filmes? Quem decide os prêmios? Quem pensa as curadorias? Quem está nas mesas, nas masterclasses e nos espaços que definem o que é reconhecido como cinema brasileiro?", questiona Mendl.

A resposta do festival está na própria existência do evento. Para a organização, a produção periférica não sofre com falta de criatividade ou de histórias para contar, mas com falta de acesso a recursos, circulação, imprensa e espaços de decisão.

"Existe uma vanguarda sendo produzida nas periferias brasileiras há muito tempo, mas que nem sempre têm acesso às plataformas que poderiam reconhecê-la", afirma Mendl.

No fim, o Perifericu reivindica mais do que visibilidade. Reivindica autonomia para produzir, decidir, circular e ser reconhecido. "Escolher continuar sendo artista, continuar fazendo cinema, principalmente quando você vem de um contexto periférico e tem tantos outros corres e tantos leões para matar no cotidiano, já é um ato de resistência e de invenção", conclui Mendl. "Para nós, celebrar esses artistas também é celebrar essa escolha."

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