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Marjorie Estiano classifica debate de 'Precisamos Falar' como 'atemporal, universal e necessário'

Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Emílio de Mello e Hermila Guedes falaram à Rolling Stone Brasil sobre filme que coloca duas famílias em confronto por causa de um crime

24 set 2026 - 14h34
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Resumo
O drama "Precisamos Falar", dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, acompanha dois casais que descobrem que seus filhos mataram uma mulher em situação de rua. Estrelado por Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Emílio de Mello e Hermila Guedes, o longa expõe o dilema moral entre proteger os jovens ou entregá-los à Justiça. O elenco destaca que a obra reflete sobre privilégios de classe, a falência das instituições, a desumanização social e a crescente polarização do mundo contemporâneo.

O que um pai ou uma mãe faria ao descobrir que o próprio filho participou de um crime? É a partir dessa pergunta que Precisamos Falar, drama psicológico que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (24), coloca quatro adultos diante de uma decisão: proteger os adolescentes ou entregá-los à Justiça.

Marjorie Estiano classifica debate de 'Precisamos Falar' como 'atemporal, universal e necessário'
Marjorie Estiano classifica debate de 'Precisamos Falar' como 'atemporal, universal e necessário'
Foto: Rachel Tanugi / Rolling Stone Brasil

Na trama, Sandra (Marjorie Estiano, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada) e Paulo (Alexandre Nero, Nos Tempos do Imperador) descobrem que seu filho, ao lado do filho de Celso (Emílio de Mello, Raquel 1:1) e Anna (Hermila Guedes, Céu de Suely), participou de um ataque que causou a morte de uma mulher em situação de rua. As imagens das câmeras de segurança não permitem identificar os responsáveis, mas os pais sabem a verdade. A partir daí, os dois casais precisam decidir o que fazer — e cada conversa revela algo sobre a forma como enxergam os filhos, a vítima e a si mesmos.

Dirigido por Pedro Waddington (Gilda, Lúcia e o Bode) e Rebeca Diniz (Sob Pressão), o longa é baseado no romance O Jantar, de Herman Koch. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, os quatro protagonistas falaram sobre as contradições dos personagens e as discussões que o filme provocou durante sua realização. Confira a seguir:

Um debate que começou antes das filmagens

As conversas sobre o filme não surgiram apenas depois que Precisamos Falar ficou pronto. Marjorie Estiano conta que Rebeca Diniz e Pedro Waddington a procuraram quando o roteiro ainda estava em desenvolvimento. Conforme o elenco foi sendo definido, os atores passaram a participar das discussões sobre o texto e sobre a construção de cada personagem.

"Foi um processo bem artesanal", descreve a atriz. "A gente foi debatendo muito a construção do roteiro em si e depois dos personagens." Para a atriz, o trabalho coletivo continuou a transformar o longa mesmo após as filmagens, primeiro na montagem e depois no encontro com o público.

Emílio de Mello destaca o tempo dedicado à preparação. O elenco fez leituras com os diretores e com Sérgio Goldenberg, que pôde ouvir os atores dando voz ao roteiro. Depois, as conversas prosseguiram em sala e no set, quando figurino, iluminação e fotografia acrescentaram novas camadas ao trabalho.

"A gente teve um tempo para trabalhar, para se ouvir, para trocar entre nós, atores, com os diretores", lembra. Emílio elogia a abertura da dupla de direção a essa colaboração e defende que o cinema incorpore cada vez mais o hábito de ensaiar: "Quanto mais se ensaia, eu acho que melhor é."

O ator diz ter visto o filme quatro vezes com públicos diferentes e percebido como cada plateia reage de outra maneira às discussões. "É tão bacana isso no cinema. Você compartilhar essa experiência numa sala é tão importante", afirma.

Os personagens e seus valores

Os pais de Precisamos Falar têm convicções distintas. Para Marjorie Estiano, no entanto, o crime testa não apenas aquilo que cada um diz acreditar, mas a base sobre a qual essas crenças foram construídas.

"Você construiu uma ideia sua de uma pessoa consciente da desigualdade social e aí, de repente, aquilo se coloca em conflito. Esse valor é construído em que base? É uma base sólida? Ou ele é, às vezes, uma performance de progressista ou de conservador?", questiona a atriz.

Marjorie acredita que as pessoas são movidas por seus valores, mas também podem usá-los para justificar uma solução quando já não conseguem sustentar seus argumentos. O confronto, diz, traz a possibilidade de rever as próprias escolhas. "O fato de a gente ser colocado de frente com os nossos valores, ou ser questionado sobre eles, permite que a gente se reveja, se reavalie e faça novas escolhas. Ou ampare melhor as mesmas que a gente tem."

Emílio de Mello observa que os quatro personagens defendem pontos de vista distintos, sem que a discussão se limite a uma oposição simples entre cumprir a lei e proteger os filhos. "Eles discutem, eles argumentam. Não só o amor pelos filhos, a maneira como eles educam, como querem preparar os filhos para a sociedade, mas também a questão da lei, a questão social", diz.

É essa sobreposição de argumentos que, para o ator, torna difícil responder à pergunta que o filme apresenta ao público. "É uma questão extremamente complexa, que envolve amor, valores e o limite moral de cada um", afirma. "É muito difícil as pessoas falarem: 'Eu faria tal coisa.' Acho que a pessoa que fala isso está muito longe da situação."

Marjorie acrescenta que a confiança na Justiça também pesa sobre a decisão dos pais. Segundo ela, nenhum dos lados parece inteiramente seguro sobre o que acontecerá aos filhos caso sejam entregues ao Estado. A atriz considera compreensível o medo de Sandra de que seu filho sofra violência sob a tutela do sistema, embora ressalte que a personagem também expressa ideias distorcidas ao comparar a realidade dele à de jovens acostumados à violência.

"O argumento da Sandra é plausível quando ela fala: 'Vou entregar o meu filho para a Justiça correndo o risco de ele ser morto lá dentro?'", explica. A questão, para a atriz, torna o dilema ainda mais difícil: os personagens discutem responsabilidade pelo crime enquanto também desconfiam das instituições às quais teriam de recorrer.

"Foi preciso uma brutalidade para que esses pais enxergassem seus filhos"

Para Hermila Guedes, o crime rompe uma distância que os adultos talvez ainda não tivessem percebido dentro de casa. "Foi preciso uma brutalidade para que esses pais enxergassem seus filhos", afirma. A descoberta leva os personagens a questionar que responsabilidade tiveram pelas atitudes dos adolescentes fora do ambiente familiar.

Anna, sua personagem, defende que a Justiça seja feita, posição com a qual a atriz se identifica. Hermila, porém, reconhece os limites do controle dos pais sobre os filhos. "Como pai, como mãe, você não tem controle de tudo. Você não pode estar a tiracolo o tempo todo dizendo o que é certo ou errado", diz. "Em algum momento da vida e da educação, você precisa confiar que fez sua parte."

Alexandre Nero acredita que Paulo começa a perceber o quanto se afastou do filho. "Ele vai se dando conta de um filho que não conhecia", afirma o ator. "Tenho a ideia de que um homem com aquele temperamento narcísico não se dá conta de que ele é o espelho do filho."

Uma vítima distante da classe média retratada

A mulher morta no ataque não participa da discussão entre os pais da mesma forma que os adolescentes. Questionados sobre essa ausência, Hermila Guedes e Alexandre Nero relacionaram o tratamento dado à vítima ao valor que a sociedade atribui a determinadas vidas.

Hermila lamenta: "A gente tem discutido sobre o valor da vida humana. É válida essa discussão, mas às vezes dá uma pena de que a gente discuta sobre isso ainda", afirma. Para a atriz, participar do filme também significou confrontar as próprias crenças. "Ler esse roteiro me fez questionar meus valores, o que eu acredito ou não."

Nero chama atenção primeiro para o fato de os autores do crime serem meninos. Na leitura do ator, a necessidade de demonstrar poder diante dos outros, somada ao machismo e à competição entre eles, ajuda a entender a violência retratada. "É de se provar quem é o líder, quem é o fodão da turma", diz.

O ator aponta, em seguida, para a diferença de classe entre os adolescentes e a vítima. "A classe média ali, naquele caso, tem um distanciamento de uma mulher sem teto. Aquilo não é nem gente para eles. Não tem empatia alguma, porque aquilo é distante da vida deles", afirma.

Na interpretação de Nero, os meninos tratam o ataque como uma brincadeira, sem dimensionar a vida da pessoa que escolheram como alvo. "Eu acredito sinceramente que não foi: 'Vamos matar.' Não era para matar, era para brincar", diz. Para o ator, esse distanciamento permite que os adolescentes deixem de enxergar a mulher como alguém cuja vida tem o mesmo valor que a deles.

Debate "atemporal, universal e necessário"

A ideia de viver em uma bolha reapareceu quando Nero foi questionado sobre a polarização e sobre a dificuldade de reconhecer mérito no argumento de alguém com quem se discorda. O ator vê uma relação entre a desumanização da vítima pelos adolescentes e a maneira como as pessoas passaram a se tratar nos debates públicos.

"Acho que a gente está com uma grande dificuldade de fazer isso. E isso tem se agravado com os algoritmos das redes sociais, onde as pessoas têm vivido cada vez mais em suas bolhas", afirma.

Para explicar seu raciocínio, Nero recorre à imagem de alguém que reage com violência a outro motorista no trânsito. Dentro do carro, diz, é mais fácil enxergar o outro como um veículo do que como uma pessoa. Nas redes, acredita que algo semelhante acontece quando o conflito é mediado por uma tela. "Você está brigando com uma máquina. E isso fez com que as pessoas se polarizassem. Cada um fica na sua bolha como se o outro fosse um inimigo mortal."

O resultado, segundo ele, é a perda da disposição para ouvir. "A gente perdeu essa habilidade de tentar entender o outro. Os argumentos são sempre agressivos, sempre violentos", diz. Nero entende que Precisamos Falar apresenta posições em confronto para provocar essa discussão, mais do que para afirmar uma única posição política.

Marjorie Estiano também vê a divergência entre os personagens como parte de um debate "atemporal, universal e necessário". Para ela, o desacordo entre pessoas com valores opostos é um tema duradouro, mas se intensificou nos últimos anos. "O país, o mundo, tem ficado muito mais dividido em dois polos", afirma. A atriz diz que trabalhar com essa questão lhe permitiu refletir sobre ela também fora da atuação, "como cidadã".

Os personagens são caricatos? Alexandre Nero discorda

Questionado sobre críticas que consideram alguns personagens caricatos, Alexandre Nero rejeitou a avaliação. Para o ator, comportamentos que podem parecer exagerados na ficção são encontrados com facilidade na vida pública. Ele cita Donald Trump e Elon Musk como exemplos e provoca: "O mundo, a vida, é uma caricatura."

"Qualquer coisa que você faça de bizarro na ficção jamais chegará aos pés da vida real", afirma. "Nada é mais caricato do que a vida." Nero também critica uma tendência que percebe no cinema em direção a atuações cada vez mais minimalistas. Em sua avaliação, essa contenção não é a única maneira de representar pessoas de forma convincente.

Hermila Guedes concorda com o colega, mas ressalta o caminho que procura seguir ao criar uma personagem. "Quando a gente busca construir personagem, pelo menos eu, tento buscar a humanidade dela", diz. A atriz reconhece, ao mesmo tempo, que cada espectador terá sua própria leitura sobre o resultado.

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