'Honestino' reconstitui a história de um homem que a ditadura tentou apagar
Longa conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e um dos mais importantes desaparecidos políticos da Ditadura Militar
A história de Honestino Guimarães poderia facilmente ser contada apenas pela dimensão política de sua trajetória: líder estudantil, presidente da UNE, militante perseguido, preso diversas vezes e desaparecido pela Ditadura Militar aos 26 anos. Mas Honestino, filme de Aurélio Michiles (Que Viva Glauber), encontra justamente na combinação entre documentário e ficção uma maneira mais potente de devolver ao personagem aquilo que a repressão tentou lhe tirar: sua presença.
O filme é certeiro ao reconstruir a imagem de Honestino a partir de depoimentos, cartas, poemas, fotografias e imagens de arquivo, costurando diferentes registros para recuperar não apenas o militante, mas o jovem, o amigo e o homem por trás do símbolo. Há algo particularmente forte na escolha de contar a trajetória do líder e militante sem reduzi-lo à condição de vítima.
Honestino deixa evidente que sua importância para a ditadura estava justamente na capacidade de mobilizar pessoas e enfrentar um sistema construído para desarticular qualquer forma de resistência. O jovem pertencia a um grupo de opositores que representava uma ameaça não apenas pela possibilidade de confronto direto, mas pela capacidade de manter viva uma ideia de mudança diante de um regime que apostava no medo, no silêncio e no apagamento.
Por isso, seu desaparecimento ganha uma dimensão ainda mais brutal: não bastava capturá-lo, era preciso também tentar apagar os vestígios de sua existência. É dessa forma que Honestino prova seu maior valor ao fazer o movimento contrário: reúne as peças deixadas por ele e por aqueles que conviveram com sua história, transforma a ausência em presença e a tentativa de esquecimento em memória.
É também nessa reconstrução que o longa cria uma expectativa que aproxima alguns momentos de um thriller político. As entrevistas e os materiais de arquivo não aparecem apenas como informações sobre um período histórico, mas como partes de uma investigação sobre o que aconteceu com aquele homem e sobre as forças que trabalharam para silenciá-lo.
A dramatização com Bruno Gagliasso (Corrida dos Bichos) contribui para esse efeito, dando corpo a acontecimentos que, muitas vezes, sobreviveram apenas em relatos e documentos. O resultado é um híbrido que consegue renovar uma estrutura já bastante conhecida sem transformar a tragédia em espetáculo. A tensão nasce justamente daquilo que o espectador sabe que está por vir — e da consciência de que, naquele contexto, a violência do Estado era capaz de interromper uma vida e deixar como resposta apenas o vazio.
Como tantas obras que já revisitam a Ditadura Militar brasileira, Honestino olha para o passado porque ainda há perguntas no presente 1 muitas delas ainda mais atuais após os sucessos de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. O filme não trata a memória como um exercício meramente retrospectivo, mas como uma disputa permanente contra o apagamento. Reconstituir a trajetória de Honestino significa também lembrar que os mecanismos de perseguição, censura e violência política não pertencem apenas aos livros de história, e que compreender como eles funcionaram é essencial para reconhecer os riscos de sua repetição.
Há, portanto, uma dimensão política inevitável no longa, mas ela não impede que Michiles construa uma obra sobre pessoas antes de construir uma obra sobre acontecimentos. É justamente por isso que o desaparecimento de Honestino provoca tanto impacto: quanto mais o filme devolve humanidade ao personagem, maior se torna a violência de tudo aquilo que lhe foi arrancado. Afinal, ele foi filho, pai, marido e, acima de tudo, ser humano.
Essa sensação encontra uma espécie de síntese emocional em O Coro dos Canalhas, música composta por Fafá de Belém que acompanha o subir dos créditos ao final do longa. A canção assume o tom de um lamento, mas não permanece apenas na tristeza: suas batidas de rock psicodélico dão ao encerramento uma energia inquieta, quase como se a memória se recusasse a permanecer em silêncio. Ao evocar amigos mortos, desaparecidos, sonhos interrompidos e a violência que atravessou uma geração, a música amplia o alcance da história de Honestino para além de sua própria biografia.
Quando o filme termina, fica a impressão de que aquele desaparecimento nunca significou ausência completa. Há os documentos, os relatos, as imagens, a memória daqueles que ficaram e, agora, também o cinema. Por fim, Honestino entende que recuperar uma história apagada não é apenas olhar para trás: é impedir que aqueles que tentaram silenciá-la tenham a última palavra.
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