Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

'Virtuosas' transforma busca pela mulher perfeita em um pesadelo de humor ácido

Dirigido por Cíntia Domit Bittar, filme acompanha retiro para mulheres e transforma discursos sobre feminilidade, fé e submissão em matéria-prima para o terror

24 set 2026 - 18h12
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O filme "Virtuosas", dirigido por Cíntia Domit Bittar, estreia nos cinemas mesclando humor ácido e terror ao retratar um retiro de mulheres em busca da "versão perfeita" baseada em valores ultraconservadores de submissão e fé. Lideradas pela manipuladora coach Virgínia, vivida por Bruna Linzmeyer, as participantes caem em uma espiral de controle e hipocrisia. A obra vai além da sátira simples para explorar as complexidades, contradições e o horror das imposições sociais sobre a feminilidade.

No começo, parece até uma boa ideia: um grupo de mulheres se reúne em uma mansão para se tornar uma versão melhor de si mesma. Há regras, ensinamentos, uma mentora carismática e a promessa de que, seguindo os passos certos, será possível chegar perto de um modelo ideal de mulher. Só que, em Virtuosas, o caminho para a perfeição passa rapidamente a parecer uma armadilha.

O filme dirigido por Cíntia Domit Bittar, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 24, acompanha um retiro exclusivo para mulheres que buscam se tornar a chamada "melhor versão" de si mesmas. Ali, elas entram em contato com uma ideia de feminilidade baseada em uma interpretação de Provérbios 31, com valores de submissão, dedicação à família e comportamento considerado exemplar. O que poderia render apenas uma sátira ganha contornos cada vez mais estranhos, até desembocar em um terror que encontra o horror menos em monstros do que nas pessoas.

"Esse universo das mulheres ultraconservadoras, sejam as tradwives, sejam muitos desses grupos dos quais se diz 'mulher virtuosa', explora o terreno da contradição, da ambiguidade, dos dilemas e da hipocrisia", afirma Cíntia em entrevista ao Estadão. Para ela, esse material já carregava uma série de possibilidades dramáticas. O terror serviu para levá-las adiante.

A busca pela virtude esconde jogos de poder e controle

A mansão onde ocorre o retiro ajuda a criar essa sensação. Isolado, quase fora do mundo, o lugar concentra mulheres submetidas à influência de Virgínia Heinzel, personagem de Bruna Linzmeyer. A coach fala sobre família, fé e submissão com a segurança de quem conhece exatamente o que seu público quer ouvir. E é justamente aí que o filme começa a apertar o parafuso.

Bruna, porém, não enxerga Virgínia como uma mulher simplesmente convencida pela própria doutrina. Na interpretação da atriz, há algo mais calculado naquela postura. "Eu não acho que a Virgínia acredita no que prega. Eu acho que ela não acredita em Deus, não acredita na religião, não acredita na submissão", afirma. "Ela se usa desses artifícios para manipular as pessoas, para manipular a fé das pessoas."

A sensação de rir e imediatamente se arrepender do próprio riso é parte importante do filme. Cíntia queria que Virtuosas tivesse uma experiência semelhante àquela provocada pelas redes sociais: o absurdo aparece, provoca uma gargalhada, vira assunto, mas pode revelar algo muito menos engraçado quando observado por mais alguns segundos.

"A gente acha ridículo, acha absurdo, compartilha rindo ou fazendo graça. E, às vezes, a gente se assusta com aquilo, com os desdobramentos daquilo que uma vez subestimou ou ridicularizou", diz a diretora.

Sarah Motta, que interpreta outra "virtuosa", sentiu isso especialmente em uma das cenas mais comentadas do filme, quando Virgínia discursa sobre submissão. O que poderia parecer absurdo ganha força justamente porque parte de experiências reconhecíveis. "Eu fiquei: 'Nossa, pode ser que seja isso mesmo?'", conta. A atriz percebeu que um discurso de manipulação não precisa soar absurdo para funcionar. "Se eu quisesse manipular as pessoas, eu usaria essas palavras também."

Essa ambiguidade acompanha as personagens. Bárbara, vivida por Sarah, chega ao retiro entusiasmada, acreditando que aquela jornada poderá transformá-la. Depois, começa a perder o brilho. "Ela vai acreditando muito, acho que muito mais do que as outras mulheres, que essa jornada vai fazê-la se tornar uma mulher melhor, e vai se decepcionando e perdendo aquele brilho aos poucos", conta.

Para Brisa Marques, uma das "virtuosas" mais complexas da história, o filme parte justamente da necessidade de desconfiar de uma definição única de feminilidade. "Eu acredito que o gênero é uma imposição social, que ele é uma forma de controle", afirma. Colocar a ideia de mulher perfeita em xeque, diz ela, permite explorar os limites das expectativas que são impostas às mulheres.

A pesquisa do elenco aproxima a ficção da vida real

A preparação para o filme também fez com que as atrizes olhassem de outra maneira para as mulheres que existem fora de suas próprias bolhas. Sarah conta que ficou surpresa ao perceber a diversidade dentro desses grupos. "Eu sempre soube que existiam as mulheres cristãs, mas não tinha uma dimensão de que essas mulheres que seguem esse Provérbios 31 tinham a minha idade, faziam faculdade de arte, estavam do meu lado", diz.

Juliana teve uma percepção parecida. Para ela, pesquisar aquele universo fez com que ela percebesse o quanto era fácil olhar para pessoas que pensam de maneira diferente e simplesmente reduzi-las a uma caricatura. "Eu redimensionei muito o meu julgamento", afirma.

É nesse ponto que Virtuosas se distancia de uma sátira simples. O filme não parece interessado apenas em apontar o absurdo daquele modelo de feminilidade, mas em entender por que ele pode ser sedutor - e por que mulheres diferentes podem encontrar nele coisas que procuram.

Cíntia chama essa abordagem de uma forma de construir mulheres "monstruosamente humanas". O termo resume a escolha de não transformar suas personagens em símbolos de uma discussão. Elas são contraditórias, manipuláveis, ambiciosas, vulneráveis e, em determinados momentos, assustadoras.

"Quando a gente cria personagens mais unidimensionais ou planas, ou com uma índole muito previsível, acaba, de certa forma, desrespeitando essas personagens", afirma. Para a diretora, é justamente nessa complexidade que o terror encontra sua força: "As pessoas são, sim, capazes de tudo e muitas vezes mais assustadoras que demônios ou qualquer coisa embaixo da sua cama."

Estadão
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra