'Velhos Bandidos' é presente para Fernanda Montenegro: 'Ela é linda. Ela é pop'; leia entrevistas
Em 'Velhos Bandidos', novo filme de Claudio Torres estrelado por sua mãe, Fernanda Montenegro, um casal nonagenário planeja um assalto a banco e dá lição sobre não subestimar os mais velhos; leia entrevistas
Se você nunca imaginou Fernanda Montenegro e Ary Fontoura premeditando um assalto a banco, então chegou o momento. Esta é a premissa de Velhos Bandidos, comédia idealizada e comandada por Claudio Torres dirigindo a mãe — que, aos 96 anos, "trabalha mais que eu, você e o Lázaro Ramos juntos", sintetiza o próprio filho.
Torres confirma que a ideia do filme surgiu como uma forma de homenagear Dona Fernanda, neste que é, possivelmente, seu último longa-metragem para o cinema. Ele recorda uma entrevista anterior concedida à coluna Alice Ferraz, em que disse que a mãe estava fazendo muito papel de "velha acabada".
"As velhas acabadas que ela fez foram tão incríveis quanto o resto de toda a obra que ela já botou nesse mundo", pondera o cineasta, em entrevista ao Estadão. "Mas, realmente, ela andava fazendo bastante papel de velhas acabadas. E eu via aquela mulher incrível, poderosa, aos 96 anos. Ver minha mãe linda, entrando na CCXP, com a juventude explodindo. Ela é linda daquele jeito, ela é pop. Parte [do projeto] foi pensar em um filme em que ela estivesse linda. Então, é um filme, de alguma maneira, totalmente edipiano."
Na história, Fernanda e Ary interpretam Marta e Rodolfo, que se unem a um casal de jovens assaltantes, Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta) para realizar o assalto planejado por anos. No entanto, a nova equipe de ladrões não contava com a insistência de Oswaldo (Lázaro Ramos), um investigador que fará de tudo para acabar com os planos.
"Eu tinha que me policiar para não ficar só de espectadora assistindo a ela atuar, porque é muito difícil", admite Bruna Marquezine, em seu primeiro projeto com a dama do cinema. "Eu a amo, tenho uma admiração profunda e acho ela mágica. Ela abre a boca e eu tenho vontade de abrir o bloco de notas e começar a anotar tudo o que ela fala."
A atriz de 30 anos forma com Brichta o casal mais novo da história, dois ladrões que ganham dinheiro dando golpe em pessoas mais velhas. Os dois não escondem que havia certo desafio em se manter a compostura durante as filmagens.
"As coisas são plenas com ela, e nada é aleatório", continua Vladimir. "Tem uma expressão que ela usa com alguma frequência: 'Isso é extraordinário'. Ela tira do campo do ordinário porque ela tem esse encantamento que é muito tocante e inspirador. É difícil sair desse lugar de encantamento e conseguir contracenar. Era desafiador mas, ao mesmo tempo, um baita privilégio."
Quem não vive uma experiência tão nova assim é Lázaro Ramos, que já contracenou tantas vezes com Fernanda que a chama, carinhosamente, de "mamãe". Os dois já atuaram juntos em títulos como Pastores da Noite, primeiro trabalho de Lázaro na TV, O Tempo e o Vento, Mister Brau e Doce de Mãe.
"Eu acho que aquilo que está ali é um espelho um pouco dessa ligação que a gente criou na vida", conta o ator, que recebe um elogio de Claudio durante a entrevista: "Eu acho que a cena mais bonita do filme é a cena da minha mãe com o Lázaro", elege Torres. A cena é um dos breves momentos em que os personagens aparecem juntos.
"Eu não vou fazer mítica de ator nenhum, eu estava disperso conversando com Dona Fernanda", admite Lázaro ao recordar os bastidores do momento. "Mas eu acho que essa relação de mãe, porque eu roubei a mãe dele, é alimento para o trabalho."
'Só tenho o presente'
Além de Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, Claudio Torres montou um elenco de coadjuvantes veteranos de respeito. Tony Tornado, Vera Fischer, Teca Pereira, Reginaldo Faria, Hamilton Vaz Pereira e Nathália Timberg interpretam um grupo heterogêneo de especialistas em diversas áreas, pessoas cujos anos de carreira concederam uma qualidade técnica hoje escanteada.
"Em um determinado momento do filme, [o Claudio] resolveu chamar toda uma geração com quem nós trabalhamos. Há uma hora em que, quando estamos todos, chegamos, o que, a mil anos?", brinca Montenegro, durante a entrevista coletiva, também com a presença do Estadão.
"É uma comunhão de vida muito especial que esse diretor tem de vivência com essa arte cênica. Eu destaco do grupo Nathalia Timberg, uma atriz da minha idade com quem trabalhei a vida inteira. Todos eles são referenciais do melhor que se possa criar em matéria de interpretação no nosso País", analisa.
Diante da emoção do que chama de "agrupamento histórico" de artistas renomados do Brasil, Montenegro se emociona com o simbolismo do filme e reforça a felicidade de poder ser digirida pelo próprio filho em um contexto cinematográfico que valoriza a velhice.
"Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro. Sem morbidez. Tem só o presente. Eu acho que eu só tenho o presente", reflete. "E, no presente, eu ter a oportunidade de estar junto com essa família de opção e ter o meu filho me comandando, não de filho para mãe, mas como um diretor e uma atriz, é um momento especial da minha vida. E um presente do meu filho nessa altura de nossas vidas."
Construção em grupo
Marquezine e Brichta contam que, apesar de viverem um casal que tem seus altos e baixos, o grande diferencial do filme, na construção dos personagens, era compreender que o romance entre eles não era o centro da história.
"Desde o primeiro momento era claro que tem romance na história, mas não é sobre esse casal", continua Brichta. "Em nenhum momento está em xeque o que um sente pelo outro, tampouco em relação ao casal mais velho."
O ator conta que o filme propõe uma comparação em relação ao nível de intimidade em cada relacionamento — uma construção gradual que evolui com o tempo. "A única lembrança que tenho do Claudio me dando uma indicação de atuação foi em uma cena muito íntima [com Bruna]. Eu fiz uma proposta e o Claudio me pediu um pouco mais de sutileza. Ali eu percebi que ele queria um nível de delicadeza nesse romance."
Para Bruna, há algo de natural nessa espécie de hierarquia. "Muito desses afetos da vida real e dessa admiração nós emprestamos para os nossos personagens, principalmente na dinâmica com o casal mais velho", admite.
Já Lázaro, que tem poucas cenas com o quarteto de ladrões, confessa que em determinado momento até estranhou o tom do seu personagem, mas diz que o grande diferencial de Claudio Torres foi o fato de ele ser um realizador sem medo de dirigir seus atores.
Curiosamente, é o quarto policial que eu faço", brinca. "Eu me permiti ser levado. Em um primeiro momento, eu queria fazer um personagem que tivesse o mesmo tom de comédia dos outros, mas o Claudio disse que não. Eu estava nesse projeto muito querendo estar perto de Fernanda, Ary, Vlad e Bruna, conviver com essas pessoas e desfrutar desse momento. Mas eu queria muito ser dirigido também. Depois de um tempo em que você trabalha tanto, tem diretor que quer que você resolva a cena e não diz nada. Eu queria que alguém me dirigisse, e a construção do Oswaldo existe muito nessa relação."
Lições para o futuro
Para além das risadas e das muitas reviravoltas na história, Velhos Bandidos propõe uma reflexão sobre o tratamento — e os olhares — destinados a pessoas mais velhas na sociedade. Quando conta a história de um casal nonagenário planejando um assalto a banco, Claudio Torres diz que nunca é tarde.
"Na minha família, meus mais velhos estão numa fase de ficar muito em casa no celular. Para mim é um drama, porque é a mesma relação que tenho com os meus filhos", começa Lázaro, ao refletir sobre as lições deixadas pelo filme para a nossa sociedade. "Acho que o filme é inspirador para quem é mais velho e está se apequenando, se encostando, para falar que o tempo deles ainda é agora. Não é que o tempo foi no passado, o tempo deles é agora."
"Há até uma fala da Dona Fernanda no filme sobre subestimar pessoas mais velhas", completa Bruna. "O que eu acho que é um traço lamentável das gerações mais novas, porque justamente é essa geração que a gente deveria estar escutando. E justamente eles, que têm tanto a dizer, têm menos espaço e não têm a plataforma que tantos mais jovens, como eu, têm."
Torres finaliza com um ensinamento que recebeu dos próprios pais — Claudio e Fernanda Torres são filhos de Fernanda Montenegro com o ator, produtor e diretor capixaba Fernando Torres.
"A gente é que nem tubarão: se parar de nadar, afunda. Então, o segredo da longevidade, desse milagre que minha mãe é, é não parar de trabalhar. Ela trabalha mais do que eu, você e Lázaro juntos, é ridículo", brinca. "Eu não sei como acontece, mas acontece. E isso eu acho que é o grande ensinamento. Não pare de trabalhar, de sonhar."
Velhos Bandidos estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, 26.