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O fim de um mundo: 'Vermiglio' retrata a transformação da sociedade italiana em tempos de guerra

Cineasta Maura Delpero falou ao 'Estadão' sobre os desafios de fazer um filme que fala sobre guerra, mas sem qualquer cena de violência

15 jul 2025 - 20h11
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Vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza e selecionado pela Itália para representar o país no Oscar 2025, Vermiglio chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 10, como uma obra que transcende a aparente simplicidade.

O segundo longa de ficção da diretora Maura Delpero é, ao mesmo tempo, um retrato íntimo de uma família e um olhar panorâmico sobre as transformações sociais que moldaram o mundo contemporâneo.

'Vermiglio' parece uma pintura. E Maura Delpero levou um ano para acertar o tom exato na pós-produção
'Vermiglio' parece uma pintura. E Maura Delpero levou um ano para acertar o tom exato na pós-produção
Foto: Synapse Distribution/Divulgação / Estadão

A narrativa, ambientada em uma remota vila italiana durante a Segunda Guerra, surge de uma experiência pessoal da cineasta. "Tudo começou com um sonho que tive sobre meu pai logo após sua morte. Ele não era o pai que eu conhecia, mas um menino de seis anos, muito feliz, brincando na casa da infância em Vermiglio", diz ela, em entrevista ao Estadão.

Essa imagem onírica, mesclando imaginação com relatos familiares, desencadeou um processo de escrita que ela descreve como "uma mistura de conhecimento muito íntimo e, ao mesmo tempo, uma ignorância que você precisa preencher com dramaturgia".

O filme acompanha a família de Cesare (Tomaso Ragno), professor da vila, cuja rotina é alterada pela chegada de Pietro (Giuseppe De Domenico), soldado desertor em busca de refúgio. O relacionamento entre Pietro e Lucia (Martina Scrinzi), filha mais velha, gera uma série de eventos que expõem as tensões latentes da comunidade e desafiam tradições.

A guerra dos que ficaram

Diferentemente das convenções do cinema bélico, Vermiglio opta por uma abordagem que privilegia as consequências silenciosas. "Vimos tantos filmes de guerra com muitas batalhas e sangue. Pensei que não precisávamos de mais um", explica a diretora. "Queria falar sobre quem ficou em casa, quem sofreu a guerra sem ser o herói que celebramos nos livros de história. Todas essas mulheres que lutavam para que seus bebês permanecessem vivos."

Essa escolha narrativa revela uma preocupação contemporânea da cineasta com a representação da violência. "Tenho uma dúvida: um jovem que assiste a filmes de guerra hoje pode realmente se emocionar com muita adrenalina e querer ser aquele soldado, porque ele é um herói e tem uma vida fantástica. Mas uma guerra é uma merda", afirma Delpero, demonstrando uma consciência sobre a responsabilidade social do cinema.

No final, a força universal de Vermiglio reside em sua capacidade de iluminar o presente através do passado. A diretora encontra paralelos surpreendentes entre a experiência retratada no filme e a realidade atual, especialmente quando comparada com produções contemporâneas (e até mesmo inusitadas) como a série Adolescência, da Netflix.

"Um diretor de cinema na Colômbia fez uma comparação muito interessante", conta Delpero. "Ele disse que, naquela época em Vermiglio, você nunca estava sozinho. Sempre estava com pessoas, compartilhando até sua cama, sua intimidade. Mas você não podia ver o mundo, participar do mundo. Em Adolescência, nós estamos sempre sozinhos agora e sempre conectados com o que está fora do mundo. É exatamente o oposto."

Um antigo mundo: 'Vermiglio' reflete sobre solidão, pertencimento e mudança de costumes
Um antigo mundo: 'Vermiglio' reflete sobre solidão, pertencimento e mudança de costumes
Foto: Synapse Distribution/Divulgação / Estadão

Essa observação revela uma das principais reflexões do filme: a transformação radical da sociedade. "Mudamos de um extremo ao outro. De um compartilhamento físico e ausência absoluta de compartilhamento com o que está fora da sua pequena vila para uma ausência de compartilhamento físico e um compartilhamento absoluto com o resto do mundo", diz.

O fim de uma era

Vermiglio documenta o que Delpero identifica como "o fim de um mundo, o fim de uma comunidade e de um mundo comunitário". A narrativa se passa no momento de transição entre a sociedade tradicional e a modernidade individualista, simbolizada pela trajetória de Lucia, que "vira uma mulher moderna que tem que se despedir do bebê para ir trabalhar".

A família de dez pessoas retratada no filme representa um modelo social em extinção. "Todas as famílias grandes têm muitas histórias", observa a diretora, que buscou recriar não apenas os aspectos materiais da época, mas também sua dimensão emocional e social.

O processo de criação envolveu um ano inteiro dedicado à pesquisa da identidade visual da obra. "Trabalhei em duas direções opostas. Muita pesquisa, registros fotográficos, entrevistas com pessoas muito idosas, incluindo minhas tias. E, do outro lado, trabalhando na estética e encontrando a cor do filme", explica Delpero.

Assim, para ela, a universalidade temática de Vermiglio transcende sua especificidade histórica. "O filme fala sobre os eventos capitais da vida: vida, desejo, decepção e determinação. O que acontece quando a vida é ruim? Como você se levanta depois de levar um tapa na cara?", questiona a diretora. "É uma história de amor. Ela sofre porque não recebe uma carta. É o mesmo sofrimento de não receber um WhatsApp em 2025."

Estadão
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