No geral, tudo correu mais ou menos na faixa da normalidade neste Oscar 2026
Perder ou ganhar faz parte da disputa, desde que se esteja concorrendo entre os finalistas. Mas, sem dúvida, o maior flop da premiação foi 'Marty Supreme', que chegou com nove indicações e não emplacou nenhuma
Desta vez não deu. Das quatro indicações de O Agente Secreto, nenhuma redundou em prêmio. Adolpho Veloso, que concorria pela fotografia de Sonhos de Trem, também não foi o escolhido. Chato, mas, por outro lado, entendo que não existe razão para tristeza. Sem dar uma de Poliana, aquela personagem que via sempre o lado bom das coisas, entendo que o cinema brasileiro teve boa presença nessa disputa. O que importa é continuar presente nos principais festivais de cinema do mundo, como tem feito ultimamente. E também voltar a disputar o Oscar, normalmente e sem afobação. Perder ou ganhar faz parte da disputa. Desde que se esteja concorrendo entre os finalistas. Que nem sempre são os melhores, como sabe quem entende um pouco de cinema, e um pouquinho da vida.
De resto, Uma Batalha após a Outra era mesmo favorito para vencer em várias categorias, como de fato aconteceu. Melhor filme, direção (Paul Thomas Anderson), ator coadjuvante (Sean Penn), direção de elenco, roteiro adaptado e montagem. Eis aí uma sólida seleção de prêmios a contemplar essa obra densa, que reintroduz a política em filmes de grande orçamento com uma temática da hora em boa parte do mundo industrializado - o preconceito e perseguição aos imigrantes. Não há fenômeno que ponha mais a nu as disparidades do nosso mundo que esses grandes deslocamentos de pessoas em busca de vida melhor. São eles que se tornam os bodes expiatórios desse mundo distópico, em boa parte governado por pessoas que não passariam num exame superficial de sanidade mental.
O segundo colocado, Pecadores, também tem boas qualidades. Com os prêmios de melhor roteiro original, trilha sonora original, fotografia e ator (Michael B. Jordan) qualifica-se pela força e originalidade com que mescla denúncia do racismo, música de raiz e uma estética de gênero terror, mix que tem agradado bastante às plateias mais jovens. Porém, como se sabe, Hollywood não nutre grande apreço pelo gênero terror. Reconhece as qualidades de Pecadores, mas nega-lhe seu prêmio principal, como muita gente desejava.
Valor Sentimental, que derrotou O Agente Secreto na disputa por filme internacional, foi esnobado por brasileiros. Ouvi que era chato, frio, nórdico demais, convencional, banal, etc. Um crítico lhe colocou o selo de "white people problem". Como se abaixo do Equador não tivéssemos nada a ver com questões de relacionamento entre pai e filhas, angústias existenciais, dúvidas e hesitações. Ora, outro nórdico (frio?) nos mostrou que a matéria humana é feita tanto de matizes de angústia particulares quanto de traços universais. Por isso tanto devemos a Bergman. Saibamos perder. Também na minha opinião Valor Sentimental, de Joachim Trier, pode não ser superior a O Agente Secreto, mas é um belíssimo filme.
No geral, tudo correu mais ou menos na faixa da normalidade neste Oscar 2026. Por exemplo, o prêmio bastante justo como aquele para a atriz Jessie Buckley, a comovente senhora Shakespeare no drama Hamnet - antes de Hamlet, de Chloé Zhao. Ou os troféus técnicos para Frankenstein, de Guillermo del Toro, que faturou maquiagem & cabelo, figurino e direção de arte. Ninguém estranha que efeitos visuais tenha ido para Avatar, e som para o ronco dos motores em F1 - o Filme. Ou melhor canção e melhor filme de animação para o sucesso adolescente de Guerreiras de K-Pop.
Na parte documental, duas escolhas acertadas. O curta Quartos Vazios é o comovente registro de como famílias conservam intactos os quartos dos filhos assassinados nos tiroteios em escolas americanas. Entre os longas, Mr. Nobody Against Putin, que se poderia traduzir para Zé Ninguém contra Putin, põe em cena o professor que coleciona registros da militarização das escolas russas no decorrer da guerra contra a Ucrânia.
A política, tão presente em alguns dos concorrentes, apareceu de maneira tímida na cerimônia. Uma das raras exceções foi o ator espanhol Javier Bardem, que trazia na lapela um ostensivo broche com os dizeres "Não à guerra" e "Palestina Livre". Ao apresentar a premiação de melhor filme internacional, ele se pronunciou em favor do Estado Palestino. Para o atual estado do mundo, foi pouco.
A parte da cerimônia que relembra os mortos do ano é sempre tocante. Foi emocionante, em especial, a homenagem a Rob Reiner e esposa, mortos tragicamente no início do ano. Robert Redford foi homenageado por Barbra Streisand e um suspiro percorreu a plateia quando surgiu na tela a imagem da divina Claudia Cardinale. Mas foi mal terem deixado Brigitte Bardot de fora do in memoriam.
O maior flop do Oscar 2026 foi Marty Supreme, que chegou com nove indicações e não emplacou nenhuma. Inclusive a de ator, que parecia moldada à feição de Timothée Chalamet, mas não se concretizou. Arrogante e mimado, Chalamet perdeu o troféu para Michael B. Jordan, que interpreta papel duplo em Pecadores. Foi bem-feito.