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Mônica Martelli e Ingrid Guimarães levam amizade real ao cinema em 'Minha Melhor Amiga'

Comédia dirigida por Susana Garcia nasceu de vídeos das viagens das atrizes com as filhas e transforma parceria de décadas em história sobre mulheres de 50 anos

5 set 2026 - 18h06
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Resumo
Inspirada em suas viagens reais que viralizaram na internet, a comédia "Minha Melhor Amiga" marca a estreia de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães juntas nos cinemas. Dirigido por Susana Garcia e criado por uma equipe majoritariamente feminina, o longa retrata duas amigas na faixa dos 50 anos em busca de mudanças pessoais na Europa. O projeto aproveita a espontaneidade da amizade de décadas da dupla para apresentar um olhar otimista, alegre e transformador sobre a maturidade feminina.

Quando Susana Garcia começou a rodar uma cena de Minha Melhor Amiga, as protagonistas Mônica Martelli e Ingrid Guimarães continuaram conversando. Já maquiadas e caracterizadas, as duas estavam em uma loja, no começo da manhã, prontas para filmar. A diretora esperou, deixou a câmera rodando e avisou novamente: "gente, estamos rodando. Ação, silêncio e ação". Elas continuaram até perceber que a cena já havia começado. A situação, que virou uma das histórias favoritas dos bastidores, ajuda a explicar o que Susana encontrou ao colocar diante das câmeras duas amigas de décadas: uma intimidade difícil de ensaiar e impossível de fabricar. É essa relação que está no centro de Minha Melhor Amiga, comédia que marca o primeiro longa de Mônica e Ingrid juntas e chega aos cinemas nesta quinta, 3.

A origem do filme está justamente na vida real. Mônica e Ingrid são amigas, e suas filhas também. Depois que Mônica se mudou para São Paulo, as quatro passaram a organizar viagens anuais para que as meninas continuassem próximas. Durante esses passeios, as adolescentes começaram a filmar as mães em situações cotidianas, muitas delas envolvendo os inevitáveis perrengues de uma viagem internacional.

Ingrid Guimarães e Mônica Martelli nos bastidores de 'Minha Melhor Amiga'
Ingrid Guimarães e Mônica Martelli nos bastidores de 'Minha Melhor Amiga'
Foto: Desirée do Valle/Divulgação / Estadão

Os vídeos começaram a ser publicados nas redes sociais e rapidamente ganharam repercussão. O público passou a acompanhar aquelas férias e a pedir que a história chegasse ao cinema. "De tanto ouvir 'faz um filme dessas viagens', nós fizemos", resume Ingrid ao Estadão.

O projeto, porém, não seria simplesmente uma transposição das viagens para a tela. A partir da repercussão dos vídeos, as três começaram a pensar em que história poderiam contar. Mônica e Ingrid partiram das próprias experiências, da observação sobre outras mulheres e daquilo que queriam discutir. "A gente partiu das nossas vivências, do que a gente observa das mulheres e daquilo em que acredita, do que está com vontade de falar", contou Mônica.

O resultado são Julia (Mônica), jornalista divorciada que deixou de acreditar no amor e se sente pouco valorizada profissionalmente, e Clara (Ingrid), corretora de imóveis presa a uma rotina que já não a desafia e a um casamento em crise. As duas estão na casa dos 50 anos e atravessam um momento de insatisfação pessoal. Quando as filhas, Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral), de 16 anos, partem para um intercâmbio em Portugal, as mães se veem diante de uma nova realidade. Para escapar do baixo astral e surpreender as meninas, decidem viajar para a Europa. E tudo, claro, vira uma viagem de descoberta e mudança.

Uma dupla sem ensaio

Para Susana Garcia, de Minha Vida em Marte e Minha Irmã e Eu, dirigir Mônica e Ingrid juntas significava lidar com uma particularidade que ela conhecia bem. A diretora já havia trabalhado com as duas separadamente e sabia que, quando estão juntas, elas tendem a esquecer o que acontece ao redor. "Elas conversam o tempo inteiro, são empolgadas uma com a outra, esquecem do mundo e ficam só entre elas", conta Susana. O desafio era justamente levar essa espontaneidade para a tela.

'Minha Melhor Amiga' nasceu da própria amizade entre Ingrid e Mônica
'Minha Melhor Amiga' nasceu da própria amizade entre Ingrid e Mônica
Foto: Desirée do Valle/Divulgação / Estadão

Em vez de tentar controlar a dinâmica, a diretora preferiu preservá-la. "Eu não as engesso jamais, porque, se eu engessar, elas não vão estar nessa coisa gostosa", diz. Para ela, a espontaneidade das duas não significa falta de rigor. Mônica e Ingrid, afirma, são "operárias da arte": repetem a cena quantas vezes forem necessárias e permanecem no set até chegar ao resultado desejado.

A experiência também foi favorecida por uma maturidade profissional que, segundo Susana, mudou a maneira como as três trabalham juntas. Mônica e Ingrid se ajudam durante as filmagens, sem transformar a cena em uma disputa por espaço. "Não existe competição. Às vezes, as pessoas são muito amigas na vida, mas, quando estão em cena e ouvem 'ação', cada uma tenta ficar bem. Aqui não: é uma levantando a outra.", afirma Susana.

Ingrid, que tem uma longa trajetória em duplas no cinema e cita a parceria com Heloísa Périssé entre as mais marcantes de sua carreira, admite que tinha uma preocupação inicial. Ela e Mônica têm energias e tipos de humor parecidos — ao contrário de outras duplas que Ingrid formou ao longo da carreira. O receio, porém, não se confirmou. "Deu super certo, porque a gente criou uma dinâmica parecida com a dinâmica da vida. E essa dinâmica é exata: nada foi ensaiado, foi tudo muito naturalmente", conta.

A própria rotina das filmagens acabou alimentando a história. A conversa incessante entre as duas, que quase impediu a gravação daquela cena na loja, virou piada recorrente no set. Mais tarde, a brincadeira daria nome à produtora que Mônica e Ingrid abriram juntas: Concentra.

Ingrid também percebeu essa proximidade ao assistir ao resultado. Segundo ela, a personagem tem muito de sua própria maneira de agir — algo que considera especialmente interessante porque, enquanto Mônica construiu nos cinemas uma persona muito forte associada aos seus filmes, Ingrid costuma trabalhar personagens mais distantes de si. "Tem coisas que eu falo: 'É muito natural'. A gente conseguiu umas coisas que eu acho impressionantes", diz.

Para Susana, é justamente aí que está uma das maiores dificuldades do trabalho das duas. "A sua espontaneidade, a sua verdade, o seu melhor, são muito difíceis. Se fosse fácil, muita gente faria", afirma.

Uma mulher de 50

A amizade entre as personagens é importante para a história, mas Minha Melhor Amiga também nasce de uma inquietação das próprias atrizes sobre a representação de mulheres maduras no cinema.

'Minha Melhor Amiga' busca ser mais honesto e menos estereotipado na representação da mulher de 50 anos
'Minha Melhor Amiga' busca ser mais honesto e menos estereotipado na representação da mulher de 50 anos
Foto: Desirée do Valle/Divulgação / Estadão

Ingrid conta que, nos últimos anos, percebeu uma repetição nos roteiros que recebia. Depois de De Pernas pro Ar, quando passou a ser chamada principalmente para comédias românticas protagonizadas por mulheres solteiras, surgiu outro padrão: mulheres na menopausa, deprimidas, lidando com a saída dos filhos de casa e recorrendo às amigas para enfrentar a solidão. "Os roteiros que chegam às minhas mãos nos últimos dois anos são sempre assim: mulher deprimida, na menopausa, os filhos vão embora e ela deprime e desabafa com um amigo. É sempre uma coisa negativa", afirma.

O desejo, desta vez, era outro. Julia e Clara enfrentam problemas reais — solidão, insatisfação profissional, casamento em crise, filhos crescendo —, mas não são definidas por eles. São mulheres que ainda podem se divertir, se apaixonar, errar, viajar e mudar de vida.

"Eu acho que esse filme tem uma importância muito grande porque é um olhar sobre a mulher de 50 anos, alegre e otimista", diz Ingrid. Para ela, falar de dificuldades não significa necessariamente construir uma personagem marcada pela tristeza. O filme busca olhar para essa fase da vida com humor e possibilidade.

Mônica vê a mesma ideia na trajetória das personagens. Mais do que resolver problemas específicos, elas precisam perceber que ainda podem fazer escolhas. "Sempre você pode modificar a sua vida. Nunca é tarde para mudar", afirma.

A discussão ganha outra camada porque o filme foi escrito e conduzido majoritariamente por mulheres. O roteiro reúne Patrícia Leme, Luisa Capri, Tati Bernardi, Ingrid Guimarães, Mônica Martelli e Susana Garcia, com roteiro final assinado por Andréa Batitucci, Ingrid, Mônica e Susana.

Ocupar esses espaços representa uma mudança na maneira como histórias femininas são construídas, no olhar de Susana. Durante muito tempo, diz ela, desejos e trajetórias de mulheres foram filtrados pelo olhar masculino. Agora, mulheres também estão escrevendo, dirigindo e protagonizando essas histórias. "Eu acho que é um caminho sem volta. A gente tem que cada vez mais colocar isso na mesa, falar e debater mais sobre isso, porque isso precisa se naturalizar, precisa virar normal", afirma.

Para Susana, a presença feminina também amplia as possibilidades de representação. No caso de Minha Melhor Amiga, a amizade real entre Mônica e Ingrid é mais do que uma curiosidade de bastidor: é o motor da história e o que permite que Julia e Clara se ajudem a mudar de vida.

A espontaneidade das duas, que quase atrapalhou a gravação da primeira cena na loja, acabou se tornando uma das forças do filme. Mônica e Ingrid não precisaram aprender a ser melhores amigas para a ficção. Como contou Mônica, quando chegou a hora de filmar, a intimidade entre as três já estava mais do que ensaiada: "A Ingrid perguntou à Susana se não deveríamos ensaiar, e ela respondeu: 'Vocês estão há 30 anos ensaiando!'", diz Mônica, às gargalhadas.

Estadão
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