Kleber Mendonça Filho foi de crítico de cinema ao Oscar com filmes sobre 'Brasil pouco visto'
O cineasta é o diretor de O Agente Secreto, que concorre a quatro estatuetas na premiação deste ano
Após a vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar de 2025, o público brasileiro está na expectativa de repetir o feito e trazer uma estatueta para o país novamente com uma das quatro indicações de O Agente Secreto. O longa é dirigido por Kleber Mendonça Filho, que ao longo da última década se tornou um dos principais nomes do cinema brasileiro.
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Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Kleber atuou como crítico de cinema para diferentes veículos de comunicação e começou no cinema na década de 1990 com curtas-metragens.
"O cinema do Kleber é um cinema de gênero. Um cinema único. Conheço o Kleber desde os curtas. Sempre fui muito fã dos curtas do Kleber. Ele condensou e mostrou um Brasil pouco visto. Tudo isso pelo olhar dele, porque ele é um cara que tem uma linguagem própria", diz Bárbara Paz, atriz e diretora-secretária da Academia Brasileira de Cinema, que selecionou O Agente Secreto como representante do Brasil para a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar, uma das quatro estatuetas em que o filme pode ser premiado.
Em um Brasil que até hoje tem uma produção cinematográfica concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo, o diretor desloca esse olhar para Pernambuco. O cineasta nasceu e passou a maior parte da vida no Recife, e o amor dele pela capital pernambucana transparece em obras como O Agente Secreto (2025), sobre um professor universitário que precisa esconder a própria identidade em meio à ditadura militar brasileira, e também no documentário Retratos Fantasmas (2023), sobre os cinemas de rua da cidade.
"Kleber olha para o Brasil com muita precisão, mas ao mesmo tempo com muita sensibilidade. Existe um cuidado enorme com os personagens, com os ambientes, com as camadas históricas e políticas que atravessam as histórias. Sempre admirei muito o trabalho dele. É um diretor que constrói filmes muito autorais, muito comprometidos com o país e com a memória. Fazer parte desse universo foi um privilégio muito grande para mim", descreve Alice Carvalho, que interpreta a personagem Fátima em O Agente Secreto.
De 2008 a 2026, Kleber Mendonça Filho lançou oito longa-metragens: Crítico (2008), Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019), Retratos Fantasmas (2023) e O Agente Secreto (2025). Yanet Aguilera, professora de história do cinema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera que Bacurau foi um ponto de virada na carreira de Kleber.
O filme — gravado no interior do Rio Grande do Norte e que conta a história de um povoado que some do mapa e onde situações misteriosas e violentas começam a acontecer — conquistou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes, um dos principais do mundo, e levou mais de 700 mil brasileiros ao cinema. "Bacurau foi o grande filme dele que gerou um debate nacional. Penso que tudo cria debate nacional precisa ser visto", diz a professora.
Yanet analisa que Kleber Mendonça Filho foi ao longo de sua filmografia aprimorando técnicas e habilidades que o levaram até o resultado final em O Agente Secreto, que foi premiado no Festival de Cannes e no Globo de Ouro.
Segundo a pesquisadora de cinema, Kleber mostra um trabalho com o som raro de se ver em toda a América Latina e se tornou mestre em filmar multidões, mas ela considera que um dos maiores trunfos no diretor está no uso do humor para tratar temas difíceis, como faz ao abordar a ditadura militar brasileira em O Agente Secreto.
"Ele alia o humor e o grotesco de uma forma magistral. É um tema muito forte e pesado sobre uma memória que ainda está presente no Brasil. Os processos de tortura e morte são práticas ainda comuns ainda dos Estados da América Latina. É muito difícil tratar isso com humor, porque você pode cair na banalização. Mas, quando ele introduz um pouco de leveza nessa história tão pesada, ele traz perspectivas interessantes sobre esse momento histórico."
Para a professora, Kleber Mendonça Filho se econtra em "uma grande fase", algo em Bárbara Paz concorda. "Todo país carrega muitas histórias e memórias. O Brasil principalmente. Aquela era a história que o Kleber queria contar, e ele contou brilhantemente", conclui a atriz e diretora de cinema.