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'Coyote vs. Acme' é uma das maiores (e melhores) surpresas nos cinemas em 2026

Longa-metragem, que tinha sido engavetado pela Warner Bros., chega aos cinemas com um frescor inesperado

31 ago 2026 - 12h08
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Resumo
Após quase ser engavetado pela Warner Bros., "Coyote vs. Acme" chegou aos cinemas como uma das grandes surpresas de 2026. Dirigida por Dave Green, a comédia mistura atores reais e animação ao mostrar o Coyote processando a corporação Acme por seus produtos defeituosos. Com Will Forte e John Cena, o longa resgata com inteligência o humor absurdo dos Looney Tunes, usando uma divertida batalha de tribunal para satirizar o poder corporativo e celebrar a persistência.
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A estreia de Coyote vs. Acme nos cinemas é, por si só, uma história de superação — e uma daquelas em que a realidade parece ter sido escrita pelos próprios Looney Tunes. Produzido pela Warner Bros., o filme foi engavetado pela antiga direção do estúdio durante o processo de fusão com a Discovery, em uma decisão que também atingiu projetos como Batgirl e Scoob! Holiday Haunt. O longa, que já estava pronto e havia recebido boa recepção nas sessões de teste, parecia destinado ao mesmo limbo. A pressão do público, dos atores, da equipe e até de James Gunn, porém, ajudou a mudar o destino da produção. A Warner acabou vendendo o filme e, agora, ele finalmente vê a luz do dia.

Com o lançamento, a decisão de enterrá-lo fica ainda mais difícil de compreender. Dirigido por Dave Green (As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras) e inspirado em conto escrito por Ian Frazier e publicado na The New Yorker em 1990, Coyote vs. Acme é um acerto surpreendentemente seguro. O filme resgata a essência dos Looney Tunes sem transformar os personagens em peças de museu ou tentar modernizá-los à força. Há uma compreensão muito clara de que o absurdo, a violência cartunesca e a lógica completamente torta daquele universo não precisam ser explicados: basta deixá-los funcionar.

Coyote vs. o mundo

A história parte justamente de uma premissa que poderia facilmente dar errado. Depois de passar a vida tentando capturar o Papa-Léguas e sendo vítima das próprias armadilhas, Coyote decide processar a Acme, fabricante dos produtos que utiliza em suas perseguições. Para isso, encontra o advogado Kevin, interpretado por Will Forte, e os dois embarcam em uma batalha judicial contra a empresa e seu diretor jurídico, vivido por John Cena. É uma ideia absurda. Como deve ser.

O filme acerta porque não tenta tornar a premissa mais racional do que ela precisa ser. Ao contrário: aceita a lógica dos desenhos e a transforma em combustível para uma comédia de tribunal. Coyote não está simplesmente cansado de fracassar. Ele está cansado de viver em um mundo em que as regras parecem ter sido feitas para que ele sempre perca e decide, pela primeira vez, questioná-las.

Nesse sentido, Coyote vs. Acme encontra uma maneira particularmente inteligente de transportar a lógica dos Looney Tunes para o cinema de carne e osso. Há ecos de Uma Cilada para Roger Rabbit, Space Jam: O Jogo do Século e, mais recentemente, Tico e Teco: Defensores da Lei. Mas, em vez de criar uma nova realidade na qual humanos e desenhos precisam aprender a conviver, o filme simplesmente aceita que os dois universos sempre estiveram no mesmo espaço. A questão é que essa convivência não é exatamente equilibrada.

É aí que o longa encontra sua melhor ideia. O processo contra a Acme funciona como pano de fundo para uma história sobre relações de poder: de um lado, um coiote solitário, sem dinheiro e aparentemente sem qualquer influência; do outro, uma corporação gigantesca, cercada de advogados e capaz de controlar as regras do jogo. A velha história de Davi contra Golias ganha, aqui, a forma mais improvável possível: a de um animal de desenho animado processando a empresa que fabrica as ferramentas usadas para destruí-lo.

O mais curioso é que, por baixo da estrutura de comédia, existe uma crítica bastante reconhecível ao poder corporativo. A Acme não é apenas uma fabricante de produtos defeituosos. É uma instituição que parece operar acima das consequências, enquanto seus consumidores são deixados para lidar com os estragos. O governo americano, o lobby, os tribunais e outras instituições também entram na mira do filme, que encontra humor justamente na percepção de que ninguém parece completamente capaz de enfrentar um sistema que funciona mal.

E tudo isso sem transformar Coyote vs. Acme em uma aula sobre capitalismo ou em uma sátira pesada demais para o próprio universo. Dave Green mantém o filme leve, veloz e, principalmente, engraçado.

Esse talvez seja seu maior mérito. Coyote vs. Acme entende que uma comédia precisa, antes de qualquer coisa, fazer rir. A rivalidade entre Coyote e Papa-Léguas continua sendo uma fonte inesgotável de humor, mas o filme também sabe explorar a quantidade impressionante de personagens disponíveis naquele universo. A participação de Patolino, em especial, rende uma das sequências mais engraçadas da produção e mostra o quanto ainda existe de potencial nos Looney Tunes quando os personagens são tratados com alguma imaginação.

Coyote vs. Warner

Há, ainda, uma espécie de melancolia discreta em tudo isso. Coyote é um personagem cuja função sempre foi perder. Seu destino é fracassar, ser esmagado, explodir, cair de um precipício e levantar alguns segundos depois para tentar novamente. Coyote vs. Acme faz algo inesperado com essa repetição: transforma a insistência do personagem em uma forma de resistência. Ele continua perdendo, mas agora resolveu perguntar por que sempre perde.

Talvez seja justamente por isso que a história de bastidores do filme seja tão irônica. Um longa sobre um personagem tentando enfrentar uma corporação quase invencível passou anos enfrentando uma corporação quase invencível. A diferença é que, no mundo real, não havia uma Acme fictícia para culpar.

É difícil saber exatamente o que levou a Warner Bros. a decidir pelo engavetamento de um filme que agora se mostra tão funcional. O que se sabe, porém, é que qualidade não parece ter sido o problema. Coyote vs. Acme é uma das boas surpresas de 2026 — um filme leve, engraçado e muito mais esperto do que sua premissa sugere.

No fim, talvez a maior ironia esteja justamente aí: o filme que a Warner Bros. tentou fazer desaparecer é também uma pequena defesa da persistência. Coyote continua correndo atrás do Papa-Léguas. O filme continua correndo atrás de uma plateia. E, depois de tudo, os dois finalmente chegaram ao destino.

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