'Refém por um Fio' expõe o espetáculo do crime, mas recua diante das próprias questões
Gus Van Sant retorna ao cinema com thriller baseado em caso real que mistura mídia, violência e fascínio por criminosos
Dirigido por Gus Van Sant e estrelado por Bill Skarsgård, "Refém por um Fio" recria o bizarro sequestro real cometido por Tony Kiritsis em 1977. Com elenco de peso e uso de imagens de arquivo, a produção funciona como um competente thriller de época e estudo de personagem. No entanto, embora flerte com a espetacularização da violência pela mídia, o filme peca ao hesitar em aprofundar essas críticas sociais, preferindo ater-se com excesso de reverência aos fatos da história.
Em 8 de fevereiro de 1977, o incorporador imobiliário Tony Kiritsis entrou armado no escritório da Meridian Mortgage Company, em Indianápolis, e prendeu o presidente da empresa, Richard Hall, com um fio amarrado ao gatilho de uma espingarda em sua nuca. Exigiu US$ 5 milhões e um pedido público de desculpas. O que poderia ter sido apenas mais um caso policial esquecido virou espetáculo nacional -- e é justamente esse cruzamento entre crime e mídia que Refém por um Fio, em cartaz nos cinemas, tenta esmiuçar.
Gus Van Sant, de volta às telonas depois de sete anos afastado de longas para o cinema, dirige o roteiro de Austin Kolodny com o mesmo olhar que sempre teve para personagens marginais -- de Drugstore Cowboy a Elefante, o cineasta parece atraído por quem vive à margem do sistema. Bill Skarsgård, como Kiritsis, carrega o filme nas costas com uma atuação nervosa e imprevisível, beirando o cômico sem nunca perder o desespero genuíno do personagem. Ao seu redor, Dacre Montgomery (como Hall), Colman Domingo (como um radialista) e Al Pacino (pai do rapaz sequestrado) completam um elenco que dá densidade a uma história que, por si só, já seria difícil de acreditar se não fosse real.
A verdade por trás do fio
Kolodny, roteirista estreante que passou a última década alternando entre trabalhos como motorista de aplicativo e assistente de produção antes de conseguir viabilizar o próprio filme, não escondeu em entrevista coletiva realizada no ano passado, com a presença do Estadão, o fascínio que teve pela figura de Kiritsis. Segundo o roteirista, tudo começou com um podcast ouvido durante a pandemia, em 2020, e um vídeo de arquivo que mostrava o sequestrador escorregando no gelo, trocando piadas com os policiais e, ainda com a arma em punho, bebendo água feito um passarinho. "Isso, por algum motivo, cristalizou o longa pra mim", contou Kolodny. "Como é que isso nunca virou um filme?"
Essa pesquisa de campo aparece na tela: Van Sant e o diretor de fotografia Arnaud Potier intercalam a reconstituição com imagens de arquivo reais da época, incluindo cobertura de TV genuína dos anos 1970 -- recurso que rende um dos melhores momentos do filme, quando a entrevista coletiva real de Kiritsis interrompe, na tela, a transmissão do primeiro People's Choice Awards, cortando direto para John Wayne no palco. É um detalhe bizarro da história real que o roteiro soube aproveitar bem.
O problema é que essa mesma reconstituição cuidadosa, tão natural a partir dos arquivos, esbarra em uma hesitação constante do filme em ir além da reconstituição. Refém por um Fio flerta o tempo todo com discussões maiores -- a espetacularização de crimes pela mídia, a dificuldade de enxergar violência de forma não-unidimensional, o papel do jornalismo como intermediário entre um homem armado e a sociedade --, mas nunca se aprofunda de fato em nenhuma delas. O próprio Kolodny reconheceu, na entrevista, que sempre quis manter o foco em Tony e Richard, tratando os personagens da mídia como coadjuvantes. "Isso era o feijão com arroz do filme todo", disse. O resultado é um filme que constrói material rico o suficiente para uma discussão sobre como fabricamos heróis populares a partir de crimes reais, mas prefere não se comprometer com ela.
Essa hesitação fica ainda mais evidente quando Van Sant, questionado sobre a coincidência entre o lançamento do filme e o caso do assassino Luigi Mangione -- outro homem comum que, ao atacar o sistema, foi visto por parte do público como uma espécie de justiceiro --, admite que a semelhança foi só coincidência de calendário, e não algo perseguido conscientemente no roteiro. É sintomático: o filme tropeça exatamente nas questões que a realidade ao redor dele insiste em levantar.
O fio que sustenta o filme
Dito isso, Refém por um Fio ainda funciona (e bem) como retrato de época e como estudo de personagem. O estilo de Van Sant, sempre atento a quem carrega desespero silencioso, dá ao filme um tom que nunca soa exploração barata do crime real. E Skarsgård segura a tensão do início ao fim com uma atuação que equilibra humor e genuína instabilidade mental, sem nunca transformar Kiritsis em caricatura ou em herói fácil. O sequestrador é, sem dúvidas, compreendido por Gus Van Sant, mas nunca totalmente endeusado ou glorificado. É uma pessoa com ideias, enfim, mas que precisa ser questionada.
Assim, talvez o problema não seja falta de ambição, mas excesso de reverência ao material real: tanto Van Sant quanto Kolodny parecem mais interessados em preservar a estranheza factual do caso Kiritsis do que em usá-la como ponto de partida para uma crítica mais afiada sobre como consumimos violência pela televisão -- e, hoje, pelas redes. Refém por um Fio entrega um bom thriller de época, competente e bem atuado. Só não tem coragem de puxar o fio até o fim.
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