Elenco de 'Quincas Berro D'Água' conversa sobre filme
Existe uma excêntrica gia no elenco do filme Quincas Berro D'Água, de Sérgio Machado. Durante as filmagens - nas quais quatro gias idênticas "interpretavam" a mesma personagem - esse pequeno anfíbio foi carinhosamente apelidado de GIA Paz, Preta GIA, GIAnecchini, ReGIA Duarte e Elis ReGIA. A brincadeira é boba e fora de contexto sobre a história do filme em si, mas é ela que representa um pouco do ambiente de brincadeira, sintonia e, simultaneamente, seriedade com que o elenco do longa lidou com a missão de adaptar o texto de Jorge Amado.
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Quincas Berro D'Água, adaptação do livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, estreia nos cinemas no próximo dia 14 e, em coletiva realizada nesta segunda-feira (3) sobre o filme, o diretor Sérgio Machado e os atores da produção conversaram sobre o processo de realização do longa. Do elenco, se encontravam os gaúchos Paulo José e Flávio Bauraqui, os baianos Luis Miranda e Frank Menezes e o pernambucano Irandhir Santos. Mas segundo Paulo José, no fundo, "todos são baianos" no que diz respeito à incorporação dos personagens de Jorge Amado.
Paulo José, naturalmente, se referia à amizade que se firmou entre os atores que guiam, um tanto bêbados, loucos e carentes, a história da vida caótica e engraçada que surge quando o personagem-título morre. Quando Quincas bate as botas, ele passa a ser carregado pelas ruas de Salvador por esses quatros personagens que eram, além de amigos, devotos do falecido boêmio.
Foram dois meses de preparação e, nas duas primeiras semanas, Paulo José não esteve presente. "Quando ele chegou para os ensaios foi como se esse corpo formado por nós quatro finalmente tivesse achado sua cabeça e isso fala muito do que é o filme também, porque quando Quincas morre, é como se esse corpo de quatro pessoas perdesse sua cabeça e ficasse vagando por aí sem consciência", teoriza Irandhir Santos, o Cabo Martim do filme. "Havia uma gaiatisse coletiva entre nós, mas era uma gaiatisse engraçada, séria e um pouco trágica também", diz Luis Miranda, o Pé de Vento.
O trágico e simultaneamente terapêutico dos bastidores dessas filmagens pode ser melhor esclarecido com o que aconteceu com o ator Flávio Bauraqui. Filho de um pai baiano que ele pouco conheceu e cujo relacionamento foi distante, Bauraqui confessa que projetou na figura de Paulo José o pai que ele não teve. Não à toa, seu personagem, Pastinha, chora o tempo inteiro a morte de seu "painho". "Aquelas eram lágrimas de verdade", lembra o diretor Sérgio Machado, cuja relação com a obra e a figura de Jorge Amado é bem antiga.
"Minha relação com Jorge Amado já vem de muitos anos. Há muito tempo ele viu um curta meu na Bahia e pouco tempo depois recebi uma ligação da secretária dele, dizendo que ele queria me conhecer. Ele enviou então um VHS do meu filme pro Walter Salles, que tinha acabado Terra em Transe na época e aí foi que tudo começou", diz Sérgio.
O filme traz ainda no elenco Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladmir Britcha e Milton Gonçalves. Além, é claro, daquela que, segundo os atores do filme, foi a grande atriz da trama: a gia. "Ela não errava um take sequer", garante o diretor Sérgio Machado.
