'Elefantes na Névoa' rejeita o exotismo para revelar intimidade de comunidade trans no Nepal
Premiado em Cannes, longa de estreia do cineasta Abinash Bikram Shah fez parte da programação da 50ª Mostra de Cinema de São Paulo
Vencedor do Prêmio do Júri na mostra Um Certo Olhar em Cannes, "Elefantes na Névoa", estreia de Abinash Bikram Shah, retrata com intimismo uma comunidade de mulheres trans no Nepal. Centrado na matriarca Pirati, dividida entre deveres familiares e o amor, o drama ganha contornos de mistério com o sumiço de sua filha. Elogiado pelo domínio estético e uso da luz natural, o filme rejeita o exotismo e foca na humanidade, afetos e conflitos das personagens, evitando reduzi-las apenas à marginalização.
Em sua estreia na direção de longas-metragens, Abinash Bikram Shah demonstra que apresentar uma realidade pouco conhecida pelo público ocidental não significa necessariamente transformá-la em algo exótico. Em Elefantes na Névoa, o cineasta acompanha uma comunidade Kinnar, formada por mulheres trans que constroem entre si os laços de afeto, proteção e sobrevivência frequentemente negados pela sociedade nepalesa.
No centro dessa estrutura está Pirati (Pushpa Thing Lama), uma matriarca respeitada que, apesar das responsabilidades com sua família, sonha em abandonar aquela realidade para viver o próprio amor. O conflito entre esses desejos conduz uma narrativa que encontra sua maior força na intimidade dessas relações, tratando suas personagens como pessoas complexas, e não como representantes de uma cultura a ser apresentada ao espectador.
Shah acerta especialmente ao não reduzir a experiência dessas mulheres a uma sucessão de violências ou a um discurso explicativo sobre a marginalização de pessoas trans. Existe uma vida acontecendo ali, com códigos próprios, pequenas disputas, demonstrações de carinho, tradições e contradições. A comunidade não é apresentada como um bloco homogêneo, mas como uma família cujos integrantes também precisam negociar interesses, afetos e responsabilidades. É justamente essa dimensão cotidiana que afasta o filme de um olhar meramente antropológico: antes de pedir ao espectador que compreenda uma realidade cultural diferente, o diretor permite que ele se aproxime das pessoas que a constituem.
O desaparecimento de Apsara, filha de Pirati, acrescenta uma camada de mistério que ajuda a deslocar a narrativa de seu eixo inicial. Acusada de negligenciar a família em nome de seus desejos pessoais, Pirati precisa enfrentar a desconfiança de pessoas que dependem dela e rever o lugar que ocupa naquela comunidade.
A investigação pelo paradeiro da garota funciona como um caminho para explorar as tensões que já existiam sob a aparente união do grupo. Nesse sentido, os elefantes selvagens que ameaçam constantemente a vila também assumem uma dimensão interessante: a convivência com uma natureza imprevisível reforça a sensação de vulnerabilidade de pessoas que, dentro da própria sociedade, já vivem em uma condição de permanente insegurança.
A personalidade do longa também passa por suas escolhas visuais. Shah demonstra um domínio especialmente interessante da luz natural, inclusive nas sequências noturnas, quando consegue preservar detalhes e construir imagens expressivas sem depender de uma iluminação artificial excessivamente evidente. É uma qualidade que merece atenção, considerando a dificuldade de trabalhar com ambientes tão escuros sem comprometer a experiência visual.
As cores, a direção de arte e a composição dos espaços fazem de Elefantes na Névoa um filme surpreendentemente vivo. A floresta, as casas e os ambientes coletivos têm presença e textura, enquanto o desenho de som amplia a sensação de imersão. Esse cuidado estético também é fundamental para a proposta do diretor: em vez de enquadrar aquela comunidade como uma paisagem distante, ele constrói um mundo habitado, cheio de particularidades e vida própria.
Há, evidentemente, algo de bastante característico do cinema de festivais em Elefantes na Névoa. É o tipo de produção que encontra na descoberta de uma comunidade e de costumes pouco conhecidos pelo Ocidente parte de seu encanto. Isso não é um demérito, mas existe sempre o risco de que filmes assim sejam recebidos como janelas para um universo exótico, quase inacessível. O mérito de Shah está justamente em evitar essa armadilha.
Suas personagens não são curiosidades de uma realidade distante, mas mulheres atravessadas por dilemas reconhecíveis, como o desejo de amar, a necessidade de pertencimento e a busca por autonomia. Vencedor do Prêmio do Júri na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, Elefantes na Névoa é uma estreia contundente, que revela um cineasta atento às particularidades de sua própria cultura e interessado em encontrar humanidade onde o olhar estrangeiro poderia enxergar apenas diferença.
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