Cachorro, Vizinho e Falta de Luz Transformam Entrevista Em Comédia de 70 Minutos
"O Resto é Ruído" aposta em situações comuns e no humor do desconforto para acompanhar uma gravação em que praticamente tudo começa a dar errado
Exibida no Festival do Rio, a comédia "O Resto é Ruído", dirigida por Nicolás Pereda, aposta no minimalismo ao retratar uma caótica entrevista de TV em um apartamento na Cidade do México. Com apenas 70 minutos, o longa constrói seu humor no constrangimento e nas interrupções cotidianas, como latidos, vizinhos e falta de luz. Sem piadas óbvias, a naturalidade do elenco e o foco nos ruídos transformam falhas banais em uma divertida e sutil sátira sobre o próprio meio artístico.
Exibido no Festival do Rio 2026, "O Resto é Ruído" é uma comédia que precisa de muito pouco para ser engraçada. Dirigido por Nicolás Pereda, que também assina a fotografia e a montagem, o longa tem apenas 70 minutos e se passa quase inteiro dentro de um apartamento na Cidade do México. É ali que uma entrevista para televisão deveria acontecer normalmente, pelo menos até cachorro, vizinhos, falta de luz, equipamentos e as próprias pessoas envolvidas começarem a atrapalhar.
A graça está justamente nessas pequenas situações. Não há grandes acontecimentos ou uma sequência de piadas esperando a próxima oportunidade para arrancar risadas. O humor aparece no meio das conversas, nas respostas curtas demais para determinadas perguntas, nos silêncios constrangedores e na dificuldade de manter uma entrevista minimamente organizada. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma gravação simples vira uma grande confusão, mesmo sem ninguém precisar sair do apartamento.
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Uma entrevista em que praticamente tudo dá errado
Rosa, interpretada por Rosa Estela Juárez Vargas, é uma compositora contemporânea que aceita conceder sua primeira entrevista para televisão na casa da colega Tere, vivida por Teresita Sánchez. A gravação precisa acontecer escondida do marido de Rosa, o que já adiciona uma preocupação ao encontro antes mesmo de os problemas começarem.
Luisa, filha de Tere e interpretada por Luisa Pardo, também está no apartamento, enquanto o jornalista Lázaro e o cinegrafista Paco tentam fazer a entrevista acontecer. A situação começa a ficar engraçada justamente quando fica claro que aquela gravação dificilmente seguirá qualquer planejamento.
Algumas perguntas parecem não levar a lugar nenhum. Outras recebem respostas tão simples que praticamente matam qualquer possibilidade de continuação. Enquanto isso, surgem problemas com o cachorro, reclamações de vizinhos, falhas nos equipamentos e outras interferências domésticas. São coisas pequenas, mas que juntas deixam a entrevista cada vez mais estranha.
O desconforto rende algumas das melhores cenas
Boa parte do humor de "O Resto é Ruído" vem daquele constrangimento que faz o espectador sentir um pouco de vergonha por quem está na cena. Em alguns momentos, a graça está apenas em observar uma pergunta ruim sendo respondida da maneira mais direta possível e acompanhar o silêncio que aparece logo depois.
Esse tipo de humor combina muito bem com a naturalidade do elenco. Teresita Sánchez, Rosa Estela Juárez Vargas e Luisa Pardo conversam e reagem às situações de um jeito que faz várias cenas parecerem improvisadas. Francisco Barreiro, José Rodríguez López e Lázaro G. Rodríguez seguem pelo mesmo caminho, sem transformar os personagens em caricaturas apenas para tentar fazer graça.
Pereda ainda aproveita a entrevista para brincar com algumas figuras do próprio meio artístico. Vaidade, rivalidade, pretensão e sexismo aparecem durante as conversas, mas entram no mesmo tom das situações cotidianas. O filme não interrompe a comédia para explicar suas críticas. Elas surgem dentro das próprias interações entre os personagens.
O barulho do cotidiano faz parte da história
A abertura já prepara muito bem aquilo que virá depois. Antes de entrar no apartamento, a câmera permanece observando o trânsito do lado de fora. Carros passam, buzinas aparecem e a cidade continua se movimentando normalmente. É uma cena simples, mas que combina diretamente com o título: o ruído está sempre presente.
Dentro da casa, Nicolás Pereda mantém uma fotografia igualmente simples. A câmera costuma permanecer parada, os planos são longos e os enquadramentos não tentam transformar o apartamento em um lugar visualmente mais bonito do que ele realmente é. Quando falta energia, por exemplo, a mudança na iluminação simplesmente passa a fazer parte da cena.
O som acaba tendo ainda mais importância. Cachorros latindo, carros, vozes, falhas elétricas e silêncios ocupam espaços que normalmente receberiam uma trilha sonora. Embora Violeta García e Gerardo Kalmar sejam responsáveis pela música, boa parte do longa dispensa uma trilha de fundo constante e deixa os próprios sons daquele apartamento conduzirem as cenas.
Essa escolha combina bastante com o tipo de comédia que está sendo feita. Uma música tentando avisar que determinada situação é engraçada poderia acabar prejudicando justamente a naturalidade que torna aqueles momentos tão divertidos.
Uma ideia simples que funciona muito bem
"O Resto é Ruído" não precisa inventar uma situação absurda para fazer uma comédia absurda. Uma entrevista, algumas pessoas dentro de um apartamento e uma sucessão de problemas comuns já são suficientes. O resultado é engraçado justamente porque várias dessas situações poderiam acontecer durante qualquer gravação ou conversa dentro de casa.
Os 70 minutos também ajudam. A história termina antes que a ideia comece a se repetir demais e mantém a simplicidade que funciona desde o início. Há espaço para o constrangimento, para algumas críticas ao meio artístico e para momentos em que praticamente nada acontece além de pessoas tentando conversar enquanto alguma coisa ao redor atrapalha.
"O Resto é Ruído" encontra graça em cachorro latindo, vizinho reclamando, equipamento falhando, pergunta ruim e resposta ainda mais inesperada. Parece pouco para sustentar um filme inteiro, mas Nicolás Pereda mostra que, dependendo de como se observa uma situação comum, o cotidiano já oferece confusão suficiente para uma boa comédia.
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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