Assistir a 'Cara-de-Barro' é como comer massinha de modelar
Um clássico vilão do Batman que muda de forma ganha uma versão de terror corporal. Você é que sai perdendo
Cara-de-Barro, novo filme da DC dirigido por James Watkins, adapta o vilão do Batman ao focar no ator Matt Hagen, que ganha poderes metamórficos instáveis após um tratamento para recuperar o rosto desfigurado. Ao buscar vingança contra gângsteres, o protagonista vive uma espiral de horror corporal inspirada em David Cronenberg. No entanto, a obra falha ao tentar conciliar o terror com as fórmulas dos filmes de heróis, resultando em um longa genérico, decepcionante e incapaz de entreter.
A galeria de vilões do Batman é extensa. Considerando que um certo Príncipe Palhaço do Crime ganhou não um, mas dois filmes solo, e que o chefão de Gotham associado às aves aquáticas protagonizou sua própria série dramática de prestígio, faz sentido começar a resgatar outros antagonistas de peso para projetos próprios. Pessoalmente, teríamos escolhido alguns nomes mais populares antes de chegar ao Cara de Barro, personagem que surgiu nos quadrinhos do Batman ainda nos anos 1940. A versão original era simplesmente um ator que também levava uma vida criminosa. Já a encarnação mais conhecida foi apresentada na década seguinte: um metamorfo capaz de assumir a aparência de qualquer pessoa, mas que geralmente se manifestava como uma enorme e disforme massa de barro. Em termos de fama, ele está em algum lugar entre Crocodilo (Killer Croc) e Solomon Grundy. (Se você sabe, você sabe.)
Mas Mike Flanagan — admirador de longa data de Stephen King, responsável por uma nova versão de Carrie e futuro encarregado da franquia O Exorcista — teve a ideia de usar esse personagem menos conhecido da DC Comics como protagonista de um possível filme de body-horror. James Gunn, recém-empossado como co-CEO da DC Studios, gostou da proposta de Flanagan e aprovou o projeto, que serviria como uma vitrine para o vilão e, provavelmente, apresentaria o homem maleável ao universo cinematográfico live-action reformulado da DC. (Cara de Barro já faz parte do universo de animação da franquia.) A história, porém, tomou outro rumo: Flanagan precisou abandonar o projeto. O roteirista Hossein Amini (Drive) e o diretor James Watkins (Eden Lake) assumiram a produção. O filme seguiu conforme o planejado, mas teve o azar de chegar às telas em um momento no qual a nova fase da DC enfrenta alguns problemas de controle de qualidade.
Cara-de-Barro não vai reverter essa trajetória. Na verdade, a tentativa de agradar aos dois lados — fazer um filme de terror ambientado no universo da DC e, ao mesmo tempo, uma produção da franquia capaz de atrair o público do gênero — pode ter rebaixado ainda mais o resultado. Só o tempo dirá se este é realmente um experimento isolado de mistura de gêneros ou uma obra concebida para inserir o grandalhão no panorama cinematográfico mais amplo da DC.
O que podemos confirmar é que assistir a essa história, intrigante no papel, sobre um supervilão do Batman novamente transformado em um anti-herói trágico, que precisa lidar com as consequências psicológicas de sua nova condição física completamente insana, é como comer um punhado de massinha Play-Doh — só que com metade do sabor.
O astro Matt Hagen (Tom Rhys Harries) está no auge da carreira. Jovem, bonito e recém-indicado ao Oscar, ele viaja a Gotham City para participar de um programa de entrevistas e divulgar um projeto que está por vir. Aproveitando a passagem pela cidade, Hagen e Corey (Joshua James), também ator e seu melhor amigo desde a infância, decidem curtir a noite nas boates locais. Uma mulher com um vestido provocante começa a dançar com ele. Trata-se de Theresa (Ruby Sear), namorada de Markos Szabo (David Dencik), o gângster mais poderoso de Gotham no momento. Matt acaba se envolvendo com a mulher errada. Uma lâmina é sacada e, em pouco tempo, o galã já não tem mais nada de galã.
A carreira de Hagen despenca. Ninguém tem coragem de testemunhar contra Szabo, e o processo acaba arquivado. Sem dinheiro, amigos ou perspectivas, e com o rosto terrivelmente desfigurado, Hagen se muda para um apartamento decadente no bairro pobre onde cresceu e praticamente desaparece do mapa. É quando se depara com uma reportagem sobre a Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie, fazendo o melhor que pode), cientista que trabalha com nanotecnologia. Embora nunca tenha realizado experimentos em seres humanos, Corr se compadece da situação do ator. Após uma série de tratamentos ao longo de vários meses, Hagen recupera a aparência deslumbrante de antes. É hora de dar a volta por cima!
Naturalmente, há alguns efeitos colaterais. Hagen parece desenvolver poderes extraordinários de regeneração. Quando fica furioso, consegue remodelar a própria aparência e assumir o rosto de qualquer pessoa que imaginar. Seu rosto volta a ser perfeito para as câmeras, mas a pele de seu semblante de galã... digamos apenas que ela se torna instável e, vez ou outra, começa a ceder, despencar ou derreter completamente pelo maxilar como cera quente. Ah, e sua mente também começa a se deteriorar. Isso fica evidente quando ele descobre que Corey o traiu e que seu antigo empresário (Eddie Marsan) agora trabalha para Markos. Com esses novos poderes em mãos, por que não usá-los para uma boa e velha vingança?
Todos esses elementos à la David Cronenberg — as referências a A Mosca (1986) são evidentes, sobretudo quando tudo começa a desandar — entram em choque com os componentes típicos dos filmes de super-heróis de uma maneira que lembra mais um casamento arranjado do que um encontro apaixonado entre gêneros. Watkins e sua equipe constroem algumas cenas perturbadoras e situações que poderiam render bons momentos de terror, mas frequentemente interrompem tudo cedo demais ou parecem simplesmente perder o interesse. É um mistério, por exemplo, por que não explorar ao máximo uma sequência envolvendo um voo turbulento, uma tesoura e as pálpebras de alguém grudadas por uma gosma, transformando-a em um grande momento de impacto, em vez de tratá-la como uma cena tão rápida que mal dá tempo de percebê-la.
De tempos em tempos, o noivo de Corr, um detetive da polícia (Max Minghella), lembra ao público que trabalha para o Departamento de Polícia de Gotham. Em outros momentos, alguém menciona Coast City, cidade natal do Lanterna Verde original. Seria perfeitamente possível eliminar essas referências e ainda teríamos um filme que provoca repulsa de vez em quando, entre as crises de autopiedade, os surtos de raiva e os suspiros românticos de Hagen por sua salvadora científica, agora bastante preocupada com ele.
O fato de Cara-de-Barro precisar se sustentar por seus próprios méritos, sem necessariamente funcionar como mais uma peça de uma intrincada narrativa seriada, é tanto uma qualidade quanto um problema. A esta altura, ninguém precisa de mais filmes de super-heróis que existam apenas para preparar o terreno para o próximo capítulo. Mas também não precisamos necessariamente suportar um filme de terror um tanto barato sobre um sujeito que se transforma em uma espécie de Brundlefly, mudando de identidade a torto e a direito em nome de uma vingança supostamente justa.
É isso que sobra: uma versão genérica e de baixo orçamento de uma fórmula já conhecida, que ainda assim parece servir apenas como um tapa-buraco para a franquia. O Cara de Barro, um pobre coitado condenado a causar muita dor de cabeça ao Cavaleiro das Trevas no futuro (ou não!), pode se transformar em qualquer coisa que quiser. Já Cara-de-Barro, o filme, sequer consegue assumir a única forma de que realmente precisa: a de um entretenimento minimamente satisfatório. De repente, Supergirl nem parece tão ruim assim, não é?
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