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'As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você' aposta nos clichês adolescentes para falar de luto

Novo filme de Diego Freitas é protagonizado por Any Gabrielly e Giulia Be e insere o Brasil nos clichês a lá John Green

29 out 2026 - 13h34
(atualizado às 13h46)
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Resumo
Baseado no livro de Fernanda de Castro Lima e dirigido por Diego Freitas, o filme "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você" adapta fórmulas consagradas do drama jovem à realidade brasileira. Estrelado por Any Gabrielly e Giulia Be, o longa foca no luto adolescente por meio de desafios deixados em cartas. Embora peque pela pressa narrativa e pela superficialidade de alguns personagens, a obra se sustenta pelo carisma do elenco e pela abordagem acolhedora sobre superar perdas na juventude.

Com o destaque brasileiro nas últimas edições do Oscar, por Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025), o público geral percebeu que o cinema brasileiro pode ter um grande apelo internacional, indo além das comédias besteirol. Já estava na hora dos clichês adolescentes ganharem seu toque de brasilidades. Se histórias à la John Green conquistam o público jovem mesmo ao retratar realidades americanas distantes das nossas, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você (2026) mostra que também é possível adaptar a fórmula de A Culpa é das Estrelas (2014) às nossas próprias vivências.

'As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você' aposta nos clichês adolescentes para falar de luto (Reprodução)
'As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você' aposta nos clichês adolescentes para falar de luto (Reprodução)
Foto: Rolling Stone Brasil

Baseado no livro de mesmo nome de Fernanda de Castro Lima, o longa acompanha Gabi, interpretada pela carismática Any Gabrielly (Habeas Corpus), que precisa lidar com a morte da melhor amiga, Julia (Giulia Be, Depois do Universo), vítima de um acidente de carro. Antes de partir, a jovem, conhecida por sua energia e disposição para se jogar na vida, deixa dez cartas para Gabi, cada uma acompanhada de desafios que a incentivam a enfrentar a perda e seguir em frente. A proposta funciona quase como uma cartilha para atravessar o luto — um passo a passo que, embora simplifique um processo complexo, pode ser eficiente segundo o próprio diretor.

A jornada de luto é entrecortada por flashbacks em que Gabi conversa com uma Julia imaginária. Embora algumas cenas flertem com o exagero, elas funcionam ao traduzir a dificuldade da protagonista em aceitar a ausência da melhor amiga. A dor de Gabi, bem representada por Any Gabrielly, é palpável, mas a fórmula deixada por Julia acaba sem espaço para se aprofundar em todas as dez cartas. À medida que os desafios são apresentados, novas subtramas ganham espaço, como a chegada de Lorena (Pamela Germano, O Mistério da Carne), que surge para ocupar o posto de nova amiga de Gabi. Com isso, o filme por vezes apressa etapas de uma reconstrução emocional que merecia mais tempo em cena.

Lorena é uma das personagens mais cativantes do filme. Mesmo quando os diálogos recorrem a frases que soam artificiais — um problema que atravessa o roteiro como um todo —, Pamela Germano consegue dar vida, humor e carisma à personagem. O mesmo vale para a amizade entre Gabi e Julia: a química entre Any e Giulia torna convincente a relação das protagonistas e ajuda a dar peso emocional à perda. Saber que as duas atrizes também são grandes amigas na vida real torna essa conexão ainda mais especial, embora a força dessa relação evidencie o quanto o filme poderia ter explorado melhor as contradições e os conflitos que atravessam as amizades femininas, principalmente o ressentimento.

Depois de dirigir Caramelo (2025), apontado por parte do público como uma espécie de comercial de margarina — emocionante, mas sem uma história particularmente complexa por trás —, Diego Freitas repete em As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você uma certa superficialidade narrativa. O filme demora a fazer com que a perda da melhor amiga de Gabi ganhe o peso emocional que merece, e a sucessão de desafios propostos pelas cartas nem sempre é suficiente para aprofundar a jornada da protagonista. O longa, porém, encontra um contraponto interessante no casal de idosos gays que acolhe Gabi e a ajuda a atravessar o luto. Interpretados por Leo Jaime e Arthur Kohl, os personagens conquistam logo de primeira e roubam a cena, protagonizando uma trama paralela mais bem desenvolvida e envolvente do que a própria dinâmica das cartas deixadas por Julia.

O filme acerta ao abordar o luto na adolescência, especialmente a incompreensão que jovens enfrentam ao tentar expressar a própria dor para adultos que nem sempre sabem como acolhê-los. Visualmente, a produção é impecável — talvez até demais. O excesso de fundos desfocados, como no modo retrato do iPhone, acaba tirando espaço de paisagens belíssimas de São Paulo, cuja presença poderia aproximar ainda mais o espectador da história.

Além de conduzir com competência cenas de maior impacto, como o salto de paraquedas e o acidente de carro, Diego Freitas recorre a metáforas visuais para representar o sofrimento de Gabi, especialmente nos momentos em que a personagem parece chegar ao fundo do poço. São cenas que sugerem caminhos mais inventivos para a narrativa, mas nem sempre encontram continuidade no restante do filme. Algumas dessas passagens parecem deslocadas, como se a história ensaiasse sair do lugar-comum para, logo depois, retornar à fórmula conhecida dos dramas adolescentes.

O problema fica mais evidente na pressa em cumprir as dez tarefas deixadas por Julia. Ao cronometrar a jornada de Gabi para dar conta de cada desafio, o filme sacrifica justamente o aprofundamento emocional que sua premissa promete. Missões mais complexas, como se permitir apaixonar novamente ou até seus conflitos com os pais, recebem resoluções simplórias, que expõem a falta de camadas dos personagens secundários. A presença de figuras populares nas redes sociais, como Juliano Floss e Felipe Bertuol, também nem sempre ajuda a naturalizar essas relações: em alguns momentos, as interpretações parecem (e são) artificiais, reforçando a impressão de que os coadjuvantes existem mais para cumprir uma função no roteiro do que para se estabelecer como pessoas de verdade.

A trilha sonora reforça o apelo adolescente da narrativa, reunindo músicas das próprias protagonistas, Ecoar de Any Gabrielly e Te Olhando Daqui de Giulia Be, gravadas especialmente para o longa, e artistas internacionais como Billie Eilish. A seleção ajuda a aproximar a história do universo jovem que pretende retratar e reforça a identidade pop da produção.

No fim, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é, sim, um clichê — mas isso não precisa ser encarado como um defeito. Em um cinema brasileiro que ainda oferece pouco espaço para histórias centradas nas experiências e nos dilemas dos adolescentes, apostar em uma fórmula conhecida também pode ser uma forma de criar identificação e fomentar a ida ao cinema. Apesar das simplificações e das oportunidades perdidas de aprofundar seus personagens, o filme entende algo importante: é preciso mostrar aos jovens que o fundo do poço não precisa ser o fim do mundo.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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