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Academia Militar Vira Centro de Detenção Durante Golpe no Chile em Filme Inspirado em Fatos Reais

"O Hangar Vermelho" acompanha um capitão que precisa decidir entre obedecer aos superiores e questionar a violência contra prisioneiros durante o golpe de 1973

10 out 2026 - 20h00
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Resumo
Inspirado em fatos reais, o filme chileno "O Hangar Vermelho", de Juan Pablo Sallato, retrata o golpe militar de 1973 ao acompanhar o capitão Jorge Silva, que vê a Academia da Força Aérea virar um violento centro de detenção. Diante da brutalidade do coronel Jahn, Silva entra em crise ética sobre os limites da obediência militar. Filmado em preto e branco com forte trabalho sonoro, o drama destaca-se pela tensão constante e a atuação contida de Nicolás Zárate ao expor os horrores do regime.

Exibido no Festival do Rio 2026, "O Hangar Vermelho" (Hangar Rojo) revisita um dos períodos mais violentos da história do Chile. Dirigido por Juan Pablo Sallato, o filme se passa em Santiago, no dia 11 de setembro de 1973, quando o golpe militar derrubou o governo de Salvador Allende e abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet.

Inspirado em acontecimentos reais, o longa tem aproximadamente 82 minutos e foi filmado inteiramente em preto e branco. A escolha visual chama atenção logo de início e combina muito bem com o ambiente militar apresentado. A história acompanha um capitão que vê o local onde trabalha ser transformado em um centro de detenção, enquanto percebe que as ordens recebidas estão levando a situações cada vez mais violentas.

O filme não demora para apresentar esse conflito. A tensão cresce conforme os militares assumem o controle das instalações e o protagonista começa a perceber o que realmente está acontecendo ao seu redor.

Imagem: Divulgação/Villano (Chile)
Imagem: Divulgação/Villano (Chile)
Foto: Divulgação/Villano (Chile) / Woo! Magazine

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Um capitão diante da violência dos próprios militares

Jorge Silva, interpretado por Nicolás Zárate, é um capitão da Força Aérea que já ocupou o cargo de chefe da Inteligência militar e agora trabalha no treinamento de jovens cadetes. Com o início do golpe, ele recebe a ordem de transformar a Academia da Força Aérea em um espaço destinado à detenção e ao interrogatório de prisioneiros.

Inicialmente, Silva acredita que aquela situação será passageira. Porém, a chegada do coronel Jahn, interpretado por Marcial Tagle, muda completamente a rotina do local. Caminhões começam a trazer prisioneiros, os interrogatórios se tornam cada vez mais violentos e o capitão passa a enfrentar um conflito com aquilo que está presenciando.

O interessante é acompanhar essa mudança de comportamento. Silva faz parte da estrutura militar, conhece suas regras e entende o peso da hierarquia. Mesmo assim, chega um momento em que cumprir uma ordem significa aceitar práticas que entram em conflito com seus princípios.

O roteiro de Luis Emilio Guzmán trabalha bem essa situação, principalmente porque o personagem não pode simplesmente abandonar suas responsabilidades sem enfrentar consequências. Ele precisa continuar convivendo com os superiores enquanto tenta descobrir até onde pode questionar o que está acontecendo.

Nicolás Zárate transmite muito sem precisar falar tanto

Nicolás Zárate é um dos grandes destaques de "O Hangar Vermelho". Sua interpretação é bastante contida, o que combina com a personalidade e a posição militar de Jorge Silva. O personagem não demonstra abertamente tudo o que sente, mas seus olhares e pequenas reações deixam claro o desconforto diante da violência.

Essa escolha funciona principalmente nas cenas em que Silva precisa ouvir ordens ou acompanhar situações com as quais não concorda. Ele tenta manter a postura de capitão, mesmo quando fica evidente que está cada vez mais incomodado.

Marcial Tagle também entrega uma boa atuação como o coronel Jahn. Sua chegada muda o comportamento das pessoas dentro da Academia e aumenta a sensação de perigo. É um personagem que utiliza a autoridade para impor suas decisões e não demonstra a mesma preocupação de Silva com o tratamento dado aos prisioneiros.

A relação entre os dois sustenta boa parte do filme. Enquanto um começa a questionar os limites da obediência, o outro representa a violência praticada por quem acredita ter poder para fazer o que quiser.

Imagem: Divulgação/Villano (Chile)
Imagem: Divulgação/Villano (Chile)
Foto: Divulgação/Villano (Chile) / Woo! Magazine

O preto e branco é um dos maiores acertos

A fotografia de Diego Pequeño está entre os pontos mais fortes da produção. O preto e branco combina muito bem com o período histórico e deixa os ambientes militares ainda mais frios. A iluminação, as sombras e os contrastes ajudam a criar imagens bonitas, mesmo quando aquilo que está sendo mostrado é extremamente desconfortável.

Os corredores, as salas e o próprio hangar ganham uma aparência ameaçadora conforme a situação piora. Como boa parte da história acontece dentro dessas instalações, a fotografia ajuda a evitar que os espaços pareçam repetitivos. A maneira como a câmera utiliza os ambientes reforça a sensação de que os personagens estão presos àquela realidade.

Outro aspecto que merece destaque é o som. O trabalho de Javier Ruiz e Stefano Polidoro utiliza passos, tiros, movimentações militares e ruídos vindos de outros ambientes para aumentar a tensão. Existem momentos em que ouvir o que está acontecendo fora do enquadramento já é suficiente para deixar a cena desconfortável.

A música de Alberto Michelli e Matteo Marrella acompanha bem essa atmosfera. A trilha aparece sem exagerar e permite que os próprios sons das instalações militares tenham importância.

A direção de Juan Pablo Sallato também merece elogios. Mesmo sendo seu primeiro longa de ficção, ele conduz a história com segurança e aproveita bem o tempo disponível. Os 82 minutos passam sem que a narrativa fique arrastada, e a violência vai ganhando espaço conforme Silva percebe a gravidade das ordens que precisa cumprir.

Um drama histórico que mantém a tensão até o final

"O Hangar Vermelho" é um filme que funciona muito bem pela maneira como reúne um episódio histórico, um conflito pessoal e uma construção visual bastante cuidadosa. A história não precisa mostrar todos os acontecimentos do golpe militar para transmitir o clima de medo e violência daquele período. A transformação da Academia em um centro de detenção já permite compreender a gravidade da situação.

Nicolás Zárate sustenta muito bem o protagonista, enquanto Marcial Tagle ajuda a tornar o ambiente cada vez mais ameaçador. A fotografia em preto e branco é excelente e o trabalho sonoro contribui bastante para as cenas mais tensas.

O que mais chama atenção é acompanhar Jorge Silva percebendo que continuar obedecendo pode significar participar de algo que considera errado. Ele pertence àquela instituição, mas começa a enxergar a violência que está sendo praticada em nome dela.

Com boas atuações, fotografia marcante e uma duração que favorece o ritmo, "O Hangar Vermelho" apresenta um retrato duro do golpe chileno. É um filme que incomoda pelo que mostra e também pelo que deixa acontecer fora da câmera, especialmente quando o silêncio e a obediência dos militares passam a ter consequências tão graves quanto as ordens recebidas.

Vídeo: Reprodução/Youtube(@StoryboardMedia)

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

Woo! Magazine
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