Abençoadas e perseguidas: "Elefantes na Névoa" revela o lado hostil do Nepal para as mulheres trans
Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme nepalês revela uma das comunidades trans mais antigas do mundo e tem estreia prevista no Brasil entre janeiro e fevereiro.
Premiado no Festival de Cannes, o longa nepalês "Elefantes na Névoa", de Abinash Bikram Shah, expõe a violência e a transfobia contra as Kinnar, antiga comunidade de mulheres trans sagradas. Na trama, a busca aflita de uma mãe por sua filha desaparecida na floresta revela a hipocrisia e a hostilidade dos moradores locais. Com estética crua e ritmo tenso, o filme traça um paralelo místico com os elefantes para denunciar o ódio e o perigo que cercam essas vidas no Nepal e em todo o mundo.
O longa-metragem nepalês "Elefantes na Névoa", de Abinash Bikram Shah, conquistou o prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes deste ano. A honraria é, de fato, plenamente merecida, pois o filme cumpre à risca os requisitos dessa seção do festival francês, criada para dar palco a obras que escapam ao padrão ocidental de cinema: aquelas que apresentam um tema ou uma característica artística disruptiva, ou que apostam em narrativas fora do comum.
No filme, acompanhamos um grupo de mulheres trans que vive em um pequeno vilarejo localizado no Nepal. Elas integram uma comunidade chamada Kinnar, desconhecida do grande público mundial até a exibição da obra em Cannes. Trata-se de uma das comunidades de mulheres transgênero, pessoas intersexo e de terceiro gênero mais antigas do planeta, com raízes culturais que se estendem, além do Nepal, à Índia e a Bangladesh. Sua importância é histórica, visto que há registros dela em textos sagrados hindus, como o "Mahabharata".
O papel das membras dessa comunidade consiste, sobretudo, em abençoar casamentos e nascimentos, concedendo prosperidade e fertilidade aos envolvidos por meio de cantos e danças. Tudo isso porque, segundo a tradição, elas possuem poderes outorgados pelos deuses Bahuchara Mata e Bhagwan Ram. Quando se sentem ameaçadas, também podem amaldiçoar seus inimigos. Para concluir a contextualização, as Kinnar são comandadas por uma líder e, logo abaixo dela, estão as "mães", que oferecem abrigo e formam famílias com as demais integrantes.
É uma dessas mães, Pirat (interpretada com notável intensidade pela atriz amadora Pushpa Thing Lama), a protagonista de "Elefantes na Névoa". Sua missão consiste em encontrar Apsara (Aliz Ghimire, também não profissional), uma de suas filhas, desaparecida em meio à floresta que, como sugere o título do filme, está repleta de elefantes selvagens, supostamente uma ameaça à vida dos moradores.
A jornada dessa mulher trans revela-se árdua, já que os habitantes do vilarejo começam a exibir seu verdadeiro rosto transfóbico, antes disfarçado pela falsa gentileza de quem apenas desejava usufruir das proteções divinas oferecidas pelas Kinnar. É a partir daí que o diretor Bikram Shah, também roteirista do longa, desenvolve uma história de tensão que cresce a cada minuto. Sua câmera, muitas vezes sem qualquer estabilização, corre ao lado dos personagens e transmite ao público todo o nervosismo das cenas em plena floresta fechada. Soma-se a isso a razão de aspecto reduzida e a fotografia granulada, de aparência envelhecida, que conferem a "Elefantes na Névoa" uma sensação de prisão isolada e rústica de extremo perigo.
Os chamados à liberdade dessas grades surgem nos momentos em que as Kinnar cantam, gritam e batem palmas, ou quando os elefantes são ouvidos, em um som estridente captado por profissionais brasileiros, e que fazem tremer as cadeiras da sala de exibição. O paralelo entre esses seres quase místicos, os elefantes, e aquelas mulheres sagradas é traçado nessas passagens.
Essas escolhas narrativas e estéticas são fundamentais para demonstrar o quanto aquele lugar é hostil às mulheres trans, e esse é o ponto mais importante e contundente do filme, pois leva o espectador a perceber que o Nepal, assim como qualquer outro lugar do mundo, trata sua comunidade LGBTQIA+ com muito ódio e violência. Dessa forma, cada pessoa sentada nas poltronas dos cinemas brasileiros é lembrada de que somos, lamentavelmente, campeões em assassinar pessoas trans.
A conclusão catártica desse belo longa talvez sugira uma saída possível para que consigamos pôr fim a esse massacre, seja para o bem, seja para o mal, dependendo das concepções éticas de cada pessoa na plateia.
"Elefantes na Névoa" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
O filme tem estreia prevista no circuito comercial brasileiro entre janeiro e fevereiro, segundo informou o coprodutor presente na sessão a que assistimos.
Video: Reprodução/Youtube (@imovision)
Imagem destacada de "Elefantes na Névoa": Divulgação/Imovision
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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