'A Terra do Meu Pai' transforma as ruínas da guerra em um drama íntimo
Novo longa de Paweł Pawlikowski (Guerra Fria) explora a impossibilidade de voltar para casa e constrói um retrato sensível sobre as feridas deixadas pela guerra na Alemanha
Em exibição na Mostra de SP e premiado em Cannes, "A Terra do Meu Pai", dirigido por Paweł Pawlikowski, acompanha o escritor Thomas Mann e sua filha Erika pela Alemanha devastada de 1949. Filmado em preto e branco e formato 4:3, o drama intimista retrata o retorno do autor após o exílio, enfrentando o ressentimento dos compatriotas e o distanciamento familiar. Representante polonês no Oscar, a obra destaca atuações de Hanns Zischler e Sandra Hüller em uma reflexão sobre culpa, trauma e identidade.
Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A Terra do Meu Pai pode mudar a forma como você enxerga a história alemã. Este drama contido em preto e branco, de apenas 82 minutos, troca os grandes discursos políticos por um retrato das feridas mais íntimas de uma nação destruída.
A Terra do Meu Pai se passa no verão de 1949, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Na trama, o escritor Thomas Mann (Hanns Zischler) retorna à Alemanha natal para receber um prêmio literário e leva consigo sua filha, Erika (Sandra Hüller). A viagem parte de Frankfurt, que está sob domínio estadunidense, até a Weimar, na zona de ocupação soviética. De volta ao lar após 16 anos de exílio nos EUA, Mann é forçado a confrontar não apenas os conflitos de uma nação dividida, mas também as fraturas de sua própria família.
Vencedor do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, o longa é dirigido por Paweł Pawlikowski (Guerra Fria) e é distribuído no Brasil pela MUBI em parceria com a Imovision. A produção também foi selecionada pela Polônia como representante oficial do país na disputa pelo Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional.
A Terra do Meu Pai se afasta dos padrões mais convencionais dos filmes de época para entregar um estudo melancólico sobre a impossibilidade de encontrar pertencimento em um país que já não existe da mesma maneira antes. O longa explora, em especial, a culpa e o ressentimento que os personagens enfrentam.
Quando Thomas Mann retorna para a Alemanha, em vez de ser recebido de braços abertos como uma voz que se opôs ao nazismo, ele enfrenta certa hostilidade dos compatriotas, que o consideram um "covarde" por abandonar sua nação no pior momento. Enquanto isso, os filhos do escritor se sentem sem pátria ou identidade, evidenciando que a reconstrução afetiva é ainda mais complexa do que a reconstrução das cidades.
A divisão ideológica da Guerra Fria, por sua vez, não se manifesta apenas nos discursos políticos, mas também nos longos silêncios do filme. A relação entre pai e filha acrescenta uma dimensão íntima a esse cenário: enquanto atravessam um território marcado pela destruição, os dois também parecem incapazes de superar as distâncias emocionais que os separam. O passado é como um elemento tóxico que contamina todos os vínculos.
A Terra do Meu Pai também questiona se erudição, arte literatura têm alguma utilidade para curar os traumas e reconstruir a dignidade de um povo devastado. O trabalho de Thomas Mann sobreviveu ao colapso político do país, mas não pôde impedi-lo nem remediar os danos que restaram.
O poder da estética
Em A Terra do Meu Pai, a fotografia em preto e branco, assinada por Łukasz Żal, trabalha em conjunto com a proporção de tela 4:3 para transpor a atmosfera de isolamento e desilusão do pós guerra. Mesmo nas cenas de estrada, com Thomas e Erika a bordo do Buick preto, há uma certa rigidez visual; o espectador não tem aquela sensação de liberdade e as paisagens abertas de um típico road movie.
Pawlikowski retrata a Alemanha de 1949 como um cenário fantasmagórico. Essas escolhas estéticas e narrativas podem tornar o filme frio demais em alguns momentos, e o espectador precisa se acomodar ao ritmo mais lento. Mas, ao mesmo tempo, a contenção é uma das maiores forças de A Terra do Meu Pai: o cineasta não precisa recorrer a grandes cenas dramáticas para evidenciar a tragédia. A tragédia está nas ausências.
Esta versão bastante particular e densa de um road movie culmina em um dos finais mais arrebatadores do ano: um momento catártico entre pai e filha, antes separados por uma barreira que parecia intransponível. A Terra do Meu Pai serve como um lembrete de que talvez seja impossível voltar para casa — não porque ela desapareceu do mapa, mas porque as pessoas (e ela) já não são mais os mesmos.
Com alguns (bem posicionados) toques de comédia, o longa também prova que Sandra Hüller — que já entregou atuações fantásticas em Anatomia de uma Queda (2023), A Zona de Interesse (2023) e no queridinho Devoradores de Estrelas (2026) — é uma das melhores atrizes da atualidade.
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