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Entre a beleza e a devastação, fotógrafa Vilma Slomp revela a Amazônia em exposição em Paris

Após percorrer nove rios e 66 cidades, fotógrafa brasileira Vilma Slomp apresenta no Espaço Krajcberg, em Paris, uma exposição que combina a beleza da vida ribeirinha com a denúncia das queimadas, do desmatamento e do garimpo ilegal.

8 nov 2026 - 09h48
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Resumo
A fotógrafa Vilma Slomp apresenta em Paris a exposição "Amazônia - mergulho caleidoscópico entre dragas e dragões", fruto de 12 anos de viagens pelos rios da região. Em cartaz no Espaço Krajcberg, a mostra contrasta a exuberância natural e o cotidiano de ribeirinhos e indígenas com denúncias sobre o garimpo ilegal, queimadas e o avanço da agropecuária. Inspirada pelo ativismo ambiental, a artista usa suas imagens como instrumento de alerta para a urgência da preservação da floresta tropical.

Durante 12 anos, entre 2014 e 2026, a paranaense percorreu rios e comunidades da Amazônia, viajando em barcos regionais e convivendo com populações ribeirinhas e indígenas. A longa expedição resultou na exposição "Amazônia - mergulho caleidoscópico entre dragas e dragões", apresentada em Paris.

Mais do que um registro da exuberância da maior floresta tropical do planeta, o trabalho revela os contrastes de uma região ameaçada pela exploração econômica. Nas fotografias coloridas e em preto e branco, a beleza das paisagens e a vida cotidiana das comunidades convivem com as marcas das queimadas, do desmatamento e do garimpo ilegal.

"Foi um projeto de vida que transformou os meus sonhos e alguns pesadelos", resume a artista.

Samauma, A muralha, Afuá, 2025
Samauma, A muralha, Afuá, 2025
Foto: RFI

A primeira viagem, em 2014, entre Manaus e Belém, durou 21 dias. Encantada com a experiência, Vilma decidiu continuar explorando a região. No ano seguinte, percorreu mais de 2 mil quilômetros pelo Solimões, de Iquitos, no Peru, até Manaus. Vieram depois o Rio Negro, o Juruá, o Rio Branco, o Madeira, o Tapajós, o Xingu e o Purus.

"É maravilhoso. Você entra num barco e viaja dias e noites estreladas junto à floresta. É muito potente estar junto à natureza, sentir essa energia", conta.

A experiência também exigiu resistência e adaptação. O calor intenso, que frequentemente ultrapassava 30°C, limitava o trabalho fotográfico às primeiras horas do dia. Mas foram sobretudo os encontros com os moradores que marcaram a jornada.

"Para eles, eu era alguém diferente. Pensavam que eu era professora, antropóloga ou missionária, e abriam as portas para mim. As pessoas são muito receptivas e gentis", lembra.

A vida ribeirinha, com sua relação direta com os rios e os recursos da floresta, aparece como contraponto à exploração predatória do território. "As pessoas vivem bem com sua vida simples à beira do rio, plantando sua mandioca, pescando, colhendo frutas. Elas têm sua dignidade", observa Vilma.

A fumaça e as marcas da destruição

Se as noites estreladas e a hospitalidade dos moradores alimentaram o encantamento da fotógrafa, as queimadas se tornaram uma das lembranças mais dolorosas das expedições. Em estados como Rondônia, Pará e Acre, ela testemunhou a dimensão da fumaça que encobre a floresta e chega às cidades.

"Você chega ao aeroporto de Porto Velho e, antes de pousar, o piloto avisa que vai ter que ficar rodando por uma hora porque há muita fumaça. Do aeroporto até a cidade, são 12 ou 15 quilômetros com aquele cheiro o tempo todo. Você chega ao hotel e continua sentindo. É horrível."

Para a artista, os incêndios estão ligados a interesses econômicos que envolvem a expansão da pecuária, das plantações de soja e a ocupação irregular de terras públicas.

"Existem pessoas que querem essas terras para fazer fazendas de gado e plantação de soja. Ao mesmo tempo, têm o apoio de políticos locais e de prefeituras para legalizar áreas que são florestas públicas, pertencentes ao governo brasileiro e a todos os brasileiros."

Dragas de garimpo ilegal, rio Tapajós, Pará, 2024
Dragas de garimpo ilegal, rio Tapajós, Pará, 2024
Foto: RFI

Outra ameaça que ganhou espaço em seu trabalho é o garimpo ilegal, responsável pela contaminação dos rios com mercúrio. Vilma chama atenção também para a circulação internacional do ouro cuja origem nem sempre pode ser identificada.

"Matam e fazem de tudo por causa do ouro. Nós usamos ouro, mas não existe um certificado de origem indicando de onde vem esse mineral vendido para a Europa, para o Canadá ou para o Oriente. O ouro é vendido graças a esquemas que 'esquentam' a documentação, da mesma forma que acontece com a madeira."

Vilma Slomp expõe em Paris a mostra "Amazônia: mergulho caleidoscópico", no Espaço Krajcberg, até 16 de janeiro de 2027.
Vilma Slomp expõe em Paris a mostra "Amazônia: mergulho caleidoscópico", no Espaço Krajcberg, até 16 de janeiro de 2027.
Foto: RFI

Encontro com Frans Krajcberg

A apresentação no Espace Krajcberg tem um significado particular para Vilma. Sua relação com o artista e ativista ambiental Frans Krajcberg começou em outubro de 1981, quando ela trabalhava como fotojornalista no Paraná e preparava uma reportagem sobre a devastação das araucárias.

"Fiquei muito impactada porque, além das esculturas magníficas, ele era um apaixonado por fotografia. Isso nos aproximou: a fotografia, as artes e o amor à natureza e à Amazônia."

A influência de Krajcberg atravessa o conceito da exposição. No texto curatorial, o crítico Marc Pottier estabelece um paralelo entre a famosa declaração do artista - "Não procuro fazer escultura; procuro formas para o meu grito" - e o trabalho de Vilma, que também transforma a arte em instrumento de denúncia.

A preocupação ambiental acompanha a fotógrafa desde a juventude. Nos anos 1970, ela se inspirava nos trabalhos de Claudia Andujar e Maureen Bisilliat sobre os povos indígenas brasileiros.

"Eu tinha uns 18 anos e a questão dos incêndios já era muito pulsante no Brasil. Sempre tive o sonho de conhecer a Amazônia desde aquela época."

Depois de acompanhar diferentes governos, Vilma considera que a preservação da floresta exige medidas que ultrapassem as disputas políticas. Reconhece avanços na questão indígena durante o governo Lula, mas afirma que a destruição continua.

"Não é apenas uma questão de governabilidade entre esquerda ou direita. É uma falta estrutural de educação, de preservação e de colocar a Amazônia como o grande troféu que é para o Brasil."

A fotógrafa defende alternativas econômicas sustentáveis, capazes de gerar riqueza sem depender exclusivamente da pecuária, da soja e da exploração predatória dos recursos naturais.

Coari, rio Solimões, Amazonas, 2016
Coari, rio Solimões, Amazonas, 2016
Foto: RFI

A exposição em Paris marca uma nova etapa do projeto, que deverá circular por outros países. Vilma já planeja novas viagens pelo rio Tocantins, pelo rio Jari e por regiões da Amazônia peruana e boliviana.

"Há muito para conhecer. Precisaria de muitas vidas, mas sigo fazendo o que posso."

A exposição "Amazônia - mergulho caleidoscópico entre dragas e dragões", fica em cartaz no Espaço Krajcberg até 16 de janeiro de 2027.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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