Emergência Radioativa: como estão as vítimas do acidente hoje
Série da Netflix reacendeu o debate sobre o acidente de 1987 em Goiânia, mas os sobreviventes dizem que não foram consultadas durante a produção e se sentem esquecidas pelas autoridades
A estreia de Emergência Radioativa, minissérie da Netflix, trouxe de volta às telas uma das maiores tragédias da história brasileira: a contaminação por Césio-137 em Goiânia, em setembro de 1987. Mas para os sobreviventes que carregam as marcas do acidente até hoje, o lançamento da produção foi também uma oportunidade de denunciar algo que consideram igualmente grave: o esquecimento progressivo a que foram submetidos pelas autoridades ao longo das últimas décadas.
O acidente começou quando um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia foi retirado por dois catadores e acabou nas mãos de Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que ficou fascinado com o brilho azulado do material. Sem saber do perigo, distribuiu fragmentos para familiares e amigos.
Ao todo, 249 pessoas foram contaminadas e cerca de 112 mil tiveram que passar por monitoramento. Quatro pessoas morreram diretamente em decorrência da exposição: Leide das Neves (6 anos), Maria Gabriela Ferreira (37), Israel Batista dos Santos (20) e Admilson Alves de Souza (18).
A Associação das Vítimas do Césio-137 estima que mais de 60 mortes nos anos seguintes estejam relacionadas ao acidente. Toneladas de materiais radioativos recolhidos na época estão armazenadas num depósito em Abadia de Goiás, e a presença do Césio-137 pode persistir por até três séculos.
Consequências
Lourdes das Neves, mãe de Leide, retratada na série como Celeste, é uma das vozes mais presentes quando o assunto são as consequências de longo prazo do desastre. Ela conta que, nos anos seguintes ao acidente, os sobreviventes contavam com pensão vitalícia, assistência médica completa, medicamentos e cesta básica fornecidos pelo governo. Com o tempo, tudo foi sendo cortado.
"Antes a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saíram cortando", relatou em reportagem do portal Metrópoles. Hoje, mais de mil pessoas ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (CARA), órgão criado em 2011 para monitorar a saúde das vítimas e seus descendentes.
A questão da pensão segue como a principal bandeira dos afetados, que afirmam não ter recebido nenhum reajuste nos últimos sete anos. Recentemente, o governo de Goiás apresentou um projeto para atualizar os valores: para os radiolesionados com contato direto com o Césio-137, a pensão passaria de R$ 1.908 para R$ 3.242.
Para os demais beneficiários, o valor subiria de R$ 954 para R$ 1.621. Outros sobreviventes relatam limitações ainda mais concretas: problemas de saúde desenvolvidos ao longo dos anos como sequelas da exposição à radiação os impedem de trabalhar e de levar uma vida normal, situação que a série da Netflix não aprofunda.
A relação das vítimas com a produção é outro ponto de tensão. Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, afirmou que nenhum dos afetados foi consultado durante a produção da série. Além disso, as gravações nem sequer aconteceram em Goiânia — foram realizadas em Osasco e Santo André, na Grande São Paulo. "Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?", questionou.
Segundo ele, parte da equipe chegou a visitar locais em Goiânia em busca de referências, mas sem estabelecer qualquer contato com a associação ou com os sobreviventes. A Netflix afirma ter contratado especialistas para garantir a fidelidade histórica, mas os próprios afetados contestam essa versão.