Em 'Bom dia, Inverno', Tamara Klink faz do isolamento no Ártico uma viagem para dentro de si
Livro da navegadora de 29 anos é o relato da preparação e dos oito meses que ela passou sozinha em um veleiro no mar congelado da Groenlândia
Tamara Klink subia a montanha que ela apelidou de Pedra Grande em busca da luz que começara a aparecer nos últimos dias. Quando finalmente chegou à altura em que conseguia ver a bola amarela no céu, não era capaz de olhar para ela. Seus olhos queimavam, as pálpebras fechavam involuntariamente. Era a primeira vez que ela via o sol em 86 dias.
Essa é uma das experiências que a navegadora e escritora de 29 anos narra em Bom Dia, Inverno. O livro é o registro da preparação e dos oitos meses (de outubro de 2023 a maio de 2024) em que ela viveu isolada em um veleiro no Ártico, no mar congelado da Groenlândia, com comunicação mínima com o resto do mundo, passando seus dias e noites entre os 34 pés do veleiro Sardinha 2 e seu quintal branco - e temperaturas (muito) abaixo de zero.
Este processo - ancorar o barco, esperar que a água ao redor dele congele e só deixar o local até que o mar fique líquido novamente - é chamado de invernagem. É um termo conhecido na navegação, apesar de ser um desafio para poucos. Tamara foi a primeira mulher a completar uma invernagem em solitário no Ártico.
É um feito impressionante, claro, mas o mérito de Bom Dia, Inverno não está em mostrar a grandiosidade dele. Tamara está muito mais interessada no humano, naquilo que há de universal em uma experiência tão única.
Seu livro traz reflexões maduras e sensíveis sobre como lidamos com a solidão e com a liberdade que inevitavelmente a acompanha. Enquanto se acostuma com as temperaturas, com a falta de luz, com a companhia das raposas e focas, com as dezenas de tipos de neve, enquanto transforma esse inverno em sua casa, Tamara faz uma viagem em si mesma; é ali que está o que realmente interessa.
Para construir sua narrativa, a navegadora começa sua história já nos mares da Groenlândia, aguardando o congelamento da água. Nas primeiras 100 páginas, acompanhamos a transformação da paisagem e de Tamara. Seus alertas sobre a crise climática surgem sem esforço ou cinismo:
"Tento descrever onde estou e não consigo mais usar a palavra 'natureza'. Minha maior certeza é esta: não há separação entre humano e natureza. Essa separação é a mentira que faz a gente acreditar que as coisas que fazemos em lugares distantes não vão gerar problema onde estamos."
A escrita de Tamara é envolvente. Quando já estamos acostumados com o inverno, ela volta no tempo para nos explicar como se deu a longa preparação para estar ali. Essa retomada vem acompanhada de seus próprios desafios, de coisas que provavelmente não imaginávamos que leríamos em um livro como este.
Filha do também navegador e escritor Amyr Klink, de 70 anos, Tamara não deixa de falar do pai. Dedica o livro a ele e às histórias que ele contou sobre a própria invernagem, no polo oposto do globo, na Antártica, entre 1989 e 1991. Mas é interessante perceber como a menção a Amyr Klink, em momentos, adquire uma função quase de comparação, de exposição sobre algo fundamentalmente diferente sobre as duas invernagens: Tamara é mulher.
Dos marinheiros, engenheiros e mecânicos, escuta coisas como "uma menininha de 25 anos", "prefiro falar com o dono do barco", "não diga aos locais o que você vai fazer, se descobrirem onde está, eles quebram o gelo e vão te estuprar". O pai passava meses no mar e era admirado; com ela, seria diferente. A avó tem medo que ela "esqueça como é ser feminina".
O simples fato de ser um corpo feminino vivendo a invernagem muda tudo. E quando esse corpo se vê completamente sozinho, longe de todas as convenções sociais normalmente aplicadas a ele, é aí em que as melhores reflexões do livro se encontram:
"Sem outros humanos, não sou mais o Outro. Experimento como é ser universal. Nem forte, nem fraca: sou o resultado dos meus gestos. Não sou mais meu rosto, minha idade, meu nome. Desaprendo a tentar caber. Isso demanda disciplina, porque ainda penso dentro dos limites das línguas que conheço, ainda faço associações com as fotos, os livros, os filmes que já vi. Assim que viro a câmera para mim, me pergunto se posso aparecer do jeito que sou ou se preciso atuar: lavar o cabelo, tirar os pelos do rosto, sorrir. A verdade espontânea acontece fora da câmera. Corro, salto, danço, brinco. Quando me sinto bem, tenho a sensação de voltar a ser criança."
Outras travessias de Tamara Klink
Tamara fez sua primeira grande travessia em 2020: vivia na França em intercâmbio, não encontrava estágio em sua área, a arquitetura naval, havia terminado um relacionamento e todos os aeroportos estavam fechados por conta da covid-19. Pareceu o momento ideal para colocar em prática um sonho de criança, para entender aquilo que o pai havia vivido.
Seus primeiros livros Mil Milhas e Um Mundo em Poucas Linhas, lançados pela editora Peirópolis, eram como diários, combinavam registros, ilustrações e poemas que buscavam registrar o início dessa carreira que ela começava a seguir. Já em Nós: O Atlântico em Solitário (Companhia das Letras, 2023), ela narrou sua travessia pelo Atlântico.
Em Bom Dia, Inverno, Tamara dá um passo além porque, desta vez, não está em movimento. Precisa lidar com o tédio, com o silêncio, com a espera, com o agora. Ela vive alguns dos dias mais felizes de sua vida, mas também enfrenta medos e traumas.
Em um dos capítulos finais, descreve o dia em que caiu na água cercada de gelo, com a certeza de que seriam seus últimos minutos de vida. As botas pesadas a puxavam para baixo, mas ela conseguiu se segurar no gelo podre, voltando à terra. Passou três dias no veleiro depois disso, sem coragem de sair. Até lembrar do motivo de estar lá: "Não vim aqui para fazer a vida durar mais (ninguém pode garantir isso), mas para que a minha existência seja maior que a vida."
Bom Dia, Inverno
- Autora: Tamara Klink
- Companhia das Letras (256 págs.; R$ 69,90 | E-book: R$34,90)
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