Em Berlim, Bienal de São Paulo propõe olhar mais fraterno para o outro e o mundo
Até dezembro, uma seleção de obras expostas na 36ª Bienal e trabalhos feitos especialmente para a mostra alemã podem ser vistos na Haus der Kulturen der Welt
Em meio à efervescência cultural e a protestos contra a ascensão da extrema direita na Alemanha, a 36ª Bienal de São Paulo desembarcou em Berlim propondo a "humanidade como prática" e um olhar mais fraterno para o mundo. O curador Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e artistas participantes defendem a arte como ferramenta crítica contra a desumanização, o racismo e a degradação ambiental, integrando uma itinerância internacional que levará obras da mostra paulistana a 15 cidades até 2026.
BERLIM - Berlim vive o último sopro de verão com uma agenda cultural intensa, que disputou a atenção de moradores e visitantes no último fim de semana. Como parte da programação do Dia do Patrimônio Aberto, era possível visitar desde prédios de arquitetura assinada até o complexo olímpico dos Jogos de 1936, marco da propaganda nazista, e a antiga sede da Stasi, centro da vigilância na Alemanha Oriental. Simultaneamente, a Semana de Arte de Berlim ocupava mais de 100 galerias, museus e instituições enquanto o Festival Internacional de Literatura encerrava sua edição - uma edição que fez um convite à alteridade ao escolher, como tema, a ideia de que 'Você nasce com o rosto voltado para todos os lugares'.
Nesse mesmo intervalo, uma manifestação reunindo cerca de 100 organizações mobilizou a cidade a uma semana das eleições parlamentares locais. No momento em que a AfD, partido de extrema direita, ganha força no país (e começa a vencer eleições estaduais, como ocorreu no domingo, 6), centenas de pessoas tomaram as ruas em defesa da democracia e da justiça social, em combate ao racismo e contra a construção de uma rodovia que destruirá uma floresta local.
É neste contexto, e nesta cidade em ebulição, que ainda elabora um passado de guerras e extremismos e exibe suas cicatrizes - nas ruas, na praça onde livros foram queimados, em bunkers transformados em museus e nos restos do muro que dividiu sua população -, que a Bienal de São Paulo desembarca para ecoar a mensagem que permeou sua 36ª edição: A humanidade como prática. E como verbo a ser conjugado. Ou a pergunta para a qual o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, de 49 anos, ainda busca uma resposta: "Como podemos ser humanos melhores?".
Fonta acompanhou o fim de semana de abertura, fez visitas guiadas, tirou fotos dos visitantes contemplando sua obra. Era só sorrisos. Alya Sebti contou para o público que depois de muitas conversas sobre sua obra, mas ainda buscando um jeito de sintetizar tudo, perguntou a ele como poderia explicar à mãe dela, em dois minutos, sobre seu trabalho. Ele apenas respondeu: "Pergunte para sua mãe como ela se sente em um jardim, cercada por diferentes flores. Foi isso o que eu tentei comunicar aqui".
Quem também circulou pela exposição alemã com seu olhar atento, poucas palavras e sua Rolleiflex foi o inglês Akinbode Akinbiyi. O fotógrafo nascido em Oxford e também morador de Berlim foi convidado para uma residência artística na Casa do Povo, onde ficou por cerca de sete semanas. Da experiência, nasceu o ensaio fotográfico visto na exposição paulistana e que ocupa agora a área central da HKW. Ele mostra vidas culturalmente tão diferentes coexistindo no bairro do Bom Retiro. "O foco foi o próprio edifício, a parte interna do prédio da Casa do Povo, que é um edifício muito, muito maravilhoso. Recebi total acesso, fui muito bem acolhido e simplesmente fiz o meu trabalho", contou. E completou: "O meu negócio é perambular, vagar, negociar com o prédio, o espaço, o bairro, a cidade e comigo mesmo."
Um projeto como o de Akinbode Akinbiyi não se esgota com as fotos expostas. Em São Paulo, antes da Bienal, fez amigos, como o coletivo Vilanismo. Ele já tinha ouvido Bonaventure Soh Bejeng Ndikung falar desse grupo de artistas da periferia e bateu à porta deles. Os meninos cozinharam para o fotógrafo de 80 anos e conquistaram aquele senhor discreto de olhar certeiro. Neste fim de semana, eles se reencontraram, desta vez diante do público, para continuar a conversa sobre arte - e sobre se sentir e ser invisível numa cidade como São Paulo.
"Como pessoas negras, nós somos os 'vilões'. Mas, sendo um vilão, você consegue se mover. Consegue fazer as suas coisas. Eu entro em alguns espaços onde nós não deveríamos estar. É um fenômeno muito interessante", disse o fotógrafo.
Akinbode Akinbiyi, que abriu sua fala contando como seus pais nigerianos não conseguiam alugar uma casa em Oxford, ele ainda na barriga da sua mãe, porque não queriam mais negros na região, não escondeu o encantamento pelos jovens do coletivo, e vice-versa. Dirigindo-se à plateia, ele disse: "Eles são meus irmãos. É uma irmandade real. Criamos um laço imediato e isso é verdadeiramente bonito".
Arte e a fraternidade como caminhos
Em seu discurso de abertura, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung foi incisivo. Falou sobre o "projeto de desumanização" empreendido em larga escala por nações mais poderosas que moldaram e moldam o mundo em que vivemos. Citou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948, cujo artigo 1º diz que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. "Sendo dotados de razão e consciência, devem agir uns pelos outros em espírito de fraternidade. A isso, acrescento: e de sororidade", disse ele.
Seguiu com o artigo 2, sobre todos terem direitos, sem distinção de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, e afirmou: "Não estamos fazendo esta exposição sobre a 'humanidade como prática' do nada".
Foi sua introdução para falar sobre a ascensão, comprovada na urna, da extrema direita na Alemanha. "Um partido está mais uma vez disposto a pisotear o projeto humano - um partido que alargou os limites do que é dizível e aceitável em sua retórica do 'nós contra eles'", disse. "Há poucos dias, esse partido obteve 43,8% dos votos em uma eleição estadual, a maior porcentagem que um único partido alcançou na região desde a reunificação. Mais duas eleições estaduais se seguirão nas próximas duas semanas. A erosão dos direitos de que acabamos de falar não é um risco futuro: já está em andamento."
Bonaventure, que em sua passagem por São Paulo dividiu opiniões ao exigir o cancelamento da participação da princesa Esmeralda, da Bélgica, em um debate no evento, por ela ser parente direta do Rei Leopoldo II, responsável pela morte de cerca de 10 milhões de pessoas no Congo, comentou ainda outros desafios que o mundo enfrenta hoje.
"Mas não estamos fazendo esta exposição para lamentar. Pelo contrário: estamos olhando criticamente para o projeto humano para melhorar. Estamos convidando artistas, acadêmicos e pessoas de todas as origens para nos ajudar a conjugar esse conceito de humanidade que herdamos. E se ele realmente falhou conosco, então precisamos nos unir e inventar outra coisa."
A resposta que vem da terra e do mar
A artista brasileira Aline Baiana, de 41 anos, gosta de citar uma frase do poeta e militante do movimento social quilombola Nêgo Bispo (1959-2023): "A terra não pertence às pessoas. As pessoas pertencem à terra". O pensamento expressa algo que sempre soubemos, mas acabamos esquecendo - e que Aline relembrou fazendo o filme Ouro Negro é a Gente (2025).
Apresentado na Bienal de São Paulo e agora em Berlim, onde Aline vive, ele se passa na ilha de Maré, na Baía de Todos-os-Santos, e retrata uma comunidade quilombola que busca manter seu modo de vida enquanto é afetada pelo petróleo e "progresso".
"A intenção do filme é reconectar as pessoas com a terra, com o lugar onde vivem, e tentar fazer com que elas entendam que, basicamente, vivemos numa nave que está flutuando no universo - a única nave onde há vida possível. E estamos destruindo isso. Também gostaria de mostrar que existem populações que têm outras ideias e outras formas de estar no mundo e podemos aprender com elas."
Bienal de São Paulo em outras cidades
Até o final de 2026, 15 cidades terão recebido exposições criadas a partir da 36ª Bienal de São Paulo. Faltam apenas três aberturas: Belo Horizonte, Vitória e Cidade do México. O projeto, que existe desde 2011, já passou, este ano, por locais como Brasília, Goiânia, Santos, Rio de Janeiro e Santiago.
"As itinerâncias permitem que esse esforço não se encerre nos quatro meses de exposição no Pavilhão, mas permaneça vivo, encontrando novos públicos e estabelecendo diálogos com outros contextos", diz Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo.
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