Dono do restaurante brasileiro mais antigo de Paris lança livro de receitas em francês
Há mais de 20 anos Celso de Freitas Andrade propõe aos parisienses pratos típicos da cozinha brasileira. Chef autodidata, ele é o dono do Gabriela, atualmente o restaurante brasileiro mais antigo da capital francesa, inaugurado em 2002. Agora, ele decidiu compartilhar essa aventura gastronômica no livro "Brasileiro", publicado em francês no final de 2025 pela editora Solar.
"Brasileiro" tem um formato e visual como os livros de receita de antigamente. A obra é colorida e ricamente ilustrada com fotos que dão água na boca. O livro traz 150 receitas tradicionais, de todas as regiões do Brasil, de entradas e coquetéis, a pratos principais e sobremesas. Mas "Brasileiro" também é um livro de memórias e histórias. Celso conta a sua trajetória e contextualiza os ingredientes e receitas e preparos essenciais da culinária brasileira.
A história de Celso com a cozinha começou muito antes de Paris. Ele chegou à cidade em 1998, aos 21 anos, e logo foi contratado como comissário de bordo da Air France, o que lhe permitiu viajar pelo mundo. Demitido após os atentados de 11 de setembro, decidiu não procurar outro emprego.
Aos 23 anos, teve o impulso de abrir seu próprio restaurante, inspirado pela infância passada entre panelas, receitas da mãe e da avó. "Eu sempre fui o neto mais guloso. Eu estava sempre na cozinha. Então, na hora que fui despedido, me deu um insight. Eu tinha 23 anos e falei 'não vou trabalhar para ninguém, eu vou abrir um restaurante. Foi uma emoção que veio, uma memória gustativa", lembra
Celso já viajou por 19 estados brasileiros e aprendeu vendo, ouvindo e experimentando as receitas locais. "Meus professores foram as pessoas", resume.
Ideia do livro nasceu na pandemia
A ideia do livro nasceu durante a pandemia. Com o restaurante funcionando em ritmo reduzido, Celso decidiu registrar seu legado. o que o levou a deixar o comando da cozinha do Gabriela e formar dois sucessores. Foram quatro anos de trabalho, iniciados em 2021, com intensa pesquisa em livros antigos no Sebo do Messias, em São Paulo, e testes rigorosos de cada receita, repetidos até dez vezes. "Não é um copiar‑colar de receita nenhuma", afirma.
Fiel ao espírito tradicional da obra, Celso optou por fotografias e ilustrações feitas à mão, evitando o uso de inteligência artificial. As 60 imagens são da artista santista Eve Ferreira de Santos, responsável também pela capa coloridade em verde e amarelo. A intenção era transmitir a riqueza cultural da gastronomia brasileira.
Bolinho de carne apimentado de Jorge Amado
Além das receitas, há pequenas histórias que acompanham cada preparo. Entre elas, está a anedota sobre o bolinho de carne apimentado apreciado por Jorge Amado, que adorava o salgandinho até descobrir que era feito de carne de gato. O livro inclui ainda encartes temáticos sobre ingredientes emblemáticos como mandioca, milho, feijoada, pastel e sobre cozinhas regionais, como a baiana.
Um do encartes é dedicado ao vegetarianismo e veganismo no Brasil, que vem ganhado cada dia mais adeptos. Celso considera a gastronomia vegana e vegetariana "fascinante porque, como cozinheiro, ele dá asas para a criação". Segundo ele, o Brasil, dono da maior biodiversidade alimentar do mundo, oferece possibilidades infinitas para criações vegetarianas sem perder o respeito às tradições.
No restaurante Gabriela, que celebra 24 anos, o sucesso vem, segundo o chef, da busca por um "Brasil verdadeiro", apresentado de forma autêntica. Celso conta que estuda uma parceria com a Embratur e a Embrapa para transformar o restaurante em uma espécie de "embaixada da Amazônia". A ideia é valorizar preparos tradicionais da região, sem gourmetizar ingredientes. Entre as novidades, ele destaca o Quinhapira, prato do Alto Rio Negro que vem conquistando os clientes.
Ingredientes brasileiro em Paris
Encontrar ingredientes brasileiros em Paris já foi um grande desafio, mas Celso lembra que 2005, o Ano do Brasil na França, marcou uma virada, com a chegada de produtos como guaraná, farinha de mandioca e pimenta malagueta. Além disso, mercados africanos de Paris oferecem até jambu, vinagreira e jiló. "Com essa história terrível da escravidão entre o Brasil e a África, teve muita troca na gastronomia, cultura, artesanato. Uma troca riquíssima. Então, muitos ingredientes que a gente acha que são brasileiros, a vinagreira por exemplo, vem da África", contextualiza.
Mesmo assim, ele ensina no livro como produzir alguns ingredientes em casa, como polvilho, farinha de mandioca e flocão de milho. Mas alerta, é necessário ter equipamentos adequados, como moedores de cereais.
Com a cultura brasileira em alta na França, impulsionada pela recente temporada cultural França-Brasil, Celso percebe um interesse crescente pela gastronomia brasileira na França e por suas técnicas de origem indígena. E quando precisa escolher sua receita favorita, ele volta à infância e cita, com saudade, o simples beijinho de coco tradicional, feito sem leite condensado. "A cozinha tem isso: ela te leva para lugares onde você não tem controle", diz.
Ao lançar "Brasileiro", Celso oferece aos leitores uma viagem afetiva e saborosa pelo Brasil, guiada por histórias, ingredientes e memórias que moldaram sua carreira. E deixa um convite: "Boa leitura e bom apetite."