Desenhos de Tarsila do Amaral ganham exposição em Itu e permitem ver lado lúdico da artista
Mostra no Museu FAMA apresenta 45 ilustrações da modernista, incluindo esboços de obras famosas e estudo pouco conhecido sobre figuras do folclore brasileiro
O Museu FAMA, em Itu (SP), apresenta a mostra "Tarsila: Onde Nascem as Imagens", que reúne 45 desenhos raros de Tarsila do Amaral adquiridos pelo colecionador Marcos Amaro. A exposição revela o processo criativo e o lado lúdico da modernista por meio de esboços de obras consagradas como "A Negra" e "A Cuca", além de estudos inéditos, registros históricos e figuras do folclore nacional, oferecendo uma visão intimista da artista antes de suas telas finais.
ITU - Toda grande tela nasce do estudo. Muitas vezes, o esboço pode revelar lados nunca percebidos ou pouco explorados de um artista. Esse é o argumento principal da exposição Tarsila: Onde Nascem as Imagens, no Museu FAMA (Fábrica de Arte Marcos Amaro), em Itu (SP), que apresenta 45 desenhos raros de Tarsila do Amaral (1886 - 1973).
Os trabalhos integram uma coleção ainda maior, de 204 folhas (algumas com desenhos na frente e no verso), adquirida em 2017 pelo fundador do museu e curador da exposição, Marcos Amaro. Empresário e artista plástico, filho do Comandante Rolim Amaro, o fundador da antiga TAM Linhas Aéreas (atual Latam), ele adquiriu a coleção após ela passar praticamente cinco décadas guardada na coleção pessoal do empresário Oscar Fakhoury.
Após a morte de Fakhoury, a viúva do empresário encontrou os desenhos fechados em um armário e mostrou-se disposta a vender a coleção completa. Na época, a aquisição teve a intermediação de Aracy Amaral, crítica de arte que morreu no último dia 15 de setembro. Ela, que era filha de um primo do pai de Tarsila e especialista na obra da artista, foi responsável pela catalogação dos desenhos, cuja única exposição havia sido em 1969 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).
Agora, parte da coleção volta a público nesta mostra do maior museu do interior paulista - a apenas 41 km de distância da cidade natal de Tarsila, Capivari - com o objeto de ampliar a compreensão sobre o processo artístico de uma das mais importantes pintoras brasileiras. "O estudo é onde o artista está inventando, criando, pensando o que vale a pena ou não", diz Mauricio Korgiski, cocurador e responsável pela expografia da exposição.
Em Tarsila: Onde Nascem as Imagens, o visitante verá desenhos que originaram algumas das pinturas mais famosas da modernista, como Estudo de A Negra (1923), esboço do quadro homônimo que integra o acervo do MAC USP, e Estudo Tatu, Bichos e Boneca Indígena (1924), com elementos do que viria a ser A Cuca (1924), obra clássica da Fase Pau-Brasil que pertence ao Musée de Grenoble, na França.
Para além destes estudos, também estão expostas algumas pérolas de Tarsila que nunca foram transformadas em telas, como o Estudo de Autorretrato de Cabelo Curto (1923) e Cemitério, URSS (1931), que Emerson Ribeiro Castilho, coordenador pedagógico da exposição, destaca como um importante documento histórico sobre a antiga União Soviética, a qual Tarsila visitou em 1931.
Ao longo da exposição, os desenhos não são distribuídos de maneira cronológica, mas sim reunidos de forma a apontar temáticas semelhantes ou processos pelos quais Tarsila passou. A primeira parede, por exemplo, reúne desenhos realizados logo no começo da carreira, quando a artista estudou com o pintor paulista Pedro Alexandrino (1856-1942), cuja obra Natureza Morta (s/d), também integra a mostra.
Mais adiante, vemos uma sequência de estudos de nus artísticos realizados em 1923, provavelmente por influência do período em que a modernista frequentou a Academia Julian, em Paris, única instituição que, à época, permitia que mulheres estudassem o nu artístico.
Um dos maiores destaques é uma série de 1925 na qual a artista elaborou diversos desenhos de personagens do folclore brasileiro. O conjunto faria parte de um projeto em colaboração com Oswald de Andrade e Heitor Villa-Lobos, um espetáculo de balé inspirado pelas figuras, mas o musical nunca saiu do papel. Em Saci e Três Estudos de Bichos e Bicho Pernilongo, por exemplo, é possível ver como a modernista brincava com as formas animalescas, mesclando grafite e aquarela.
"Vemos um lado dela bem infantilizado. As pessoas acham que o artista tem que ser sempre muito adulto, muito culto. Não, tem que ter a essência da criança trabalhando", argumenta Korgiski. "Além disso, ela trabalha com as proporções distorcidas, tem o próprio traço. Acredito que ela levou esse lado mais infantil durante toda a vida dela."
O lado mais lúdico da artista também é destacado em uma segunda sala da exposição, dedicada à interação de crianças e grupos escolares. Ali, os desenhos de Tarsila foram transformados em fantoches e bonecos de meia, enquanto um vídeo conta sua trajetória. Os visitantes também poderão desenhar e criar seus próprios bonecos, inspirados pelo trabalho da artista.
"Estamos acostumadas a ver a Tarsila potente, a Tarsila do manto rouge, a Tarsila antropofágica. Aqui, sinto que é uma Tarsila que se aproxima mais da minha tia bisavó", diz Paola Montenegro, que atualmente gere a Tarsila do Amaral S.A., empresa responsável por licenciamentos e exposições da modernista.
"Conseguimos ver quem era a Tarsila quando ela estava sentada no vagão do trem, desenhando, e não necessariamente pensando em expor isso de alguma forma. Mas claro que tudo que ela toca vira ouro, de alguma forma", finaliza.
Tarsila: Onde Nascem as Imagens
- Museu Fama (Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9 - Vila São Francisco - Itu/SP)
- Quintas-feiras e de sexta a domingo, das 11h às 17h
- Até 26/7/2027
- Entrada: R$ 80 - até 30 de novembro todos pagam meia: R$ 40
- O ingresso único (bilhete único) garante acesso aos Museus Asas de Um Sonho e Museu Fama, bem como às demais áreas expositivas do Centro Cultural, exceto ateliê do Kobra
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